Coluna

Agora ninguém pode falar mais nada

    O que, verdadeiramente, temem aqueles que questionam o debate sobre lugar de fala, ainda que saibam do apagamento histórico de uma parcela criativa da sociedade brasileira, normalmente preta, indígena, mulher, pobre e LGBT?

    Vivemos num tempo de reconfigurações na estrutura política brasileira. O “bom” e o “ruim” já não são capazes de contribuir para qualquer diagnóstico. A complexidade do agora mistura, vez ou outra, o tempo da história com o tempo do indivíduo. Somando as questões do cosmo e os atravessamentos energéticos, tudo se intensifica. Mas sobreviveremos.

    Há um debate que me preocupa e que me faz pensar ser uma questão intelectualizada com pouca participação popular de fato. Sei que há questões mais urgentes e que por vezes discutir superficialmente “lugar de fala”, me parece péssimo e desgastante. Por outro lado, esse incômodo por parte de quem sempre pôde falar me faz pensar que não querer entender a formulação desse debate é assumir que não se quer estar no lugar da escuta.

    Lugar de fala e lugar de escuta andam juntos, penso. Isso me parece básico até: aprendemos a falar ouvindo os outros. A discordar, a mesma coisa: se atentos, podemos olhar para uma argumentação e discordar dela com honestidade. No campo das artes, especificamente do cinema, lugar em que tenho participado mais ativamente das discussões, esse debate do lugar de fala tende a ser reduzido a "agora ninguém pode falar mais nada". Há até quem diga que defender lugar de fala é censurar pessoas que desejam falar sobre assuntos que não pertencem ao seu universo. Pesado.

    Nos últimos anos, emergiu um movimento de cinema feito por pessoas que, normalmente, não se via nos festivais e nas críticas de cinema brasileiro. Além do barateamento dos equipamentos para filmar, projetos investiram em formação com profissionais de ponta, como a Central Única das Favelas (CUFA), Tela Brasil, Viva Favela, Vídeo nas Aldeias, Escola Livre de Cinema de Nova Iguaçu, entre outros espaços e ONGs pelo país. Esses espaços promoveram oficinas e cursos de audiovisual para jovens de baixa renda precisamente na gestão do ex-presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva, por meio, também, dos Pontos de Cultura. E foram essas ONGs, projetos sociais, Pontos de Cultura, além das cotas nas universidades públicas e privadas, que formaram uma geração de novos realizadores de origem popular que estão hoje no mercado do audiovisual nacional e até internacional.

    Mas é claro que isso gera incômodo. Os filmes e os discursos desses realizadores estão alinhados às suas condições raciais, de gênero, de orientação sexual e econômicas, o que, por vezes, torna o debate intenso. Se antes a criação de estereótipos entre outras criações de imagens e discursos opressores não tinha um debate tão intenso, hoje esse tipo de filme não passa batido. E não passa porque há novos cineastas e críticos problematizando certos modos de fazer e olhar. Quanto mais múltiplos forem os realizadores, maior será a possibilidade do cinema brasileiro de imaginar. Mas o que vejo é que não estamos sendo capazes de enxergar a potencialidade desse encontro entre pessoas com origens e visões de mundo completamente diferentes e acabamos por reduzir o debate a um discurso desonesto de que lugar de fala é censura ou o “cala boca” dos brancos. Apenas parem.

    Uma das respostas que tenho visto com frequência é a de que a obra vem primeiro que o autor. Ou seja: nenhum autor deve ser legitimado por sua obra antes da obra ser exibida, vista e discutida. Concordo. E também tem a continuação: que a celebração da origem do autor, às vezes, bloqueia a possibilidade da crítica. Discordo e acho que quem tem problemas com isso precisa fazer terapia e também aprender a se acostumar com essas presenças.

    Temos que considerar algumas coisas sobre a crítica a esse "autor celebrado": normalmente, esse autor é uma pessoa negra, indígena, uma mulher, uma pessoa trans, ou qualquer outra pessoa que é caracterizada dentro do recorte de "minoria". Quando ouço que a obra deve se sustentar sozinha ou que a obra vem primeiro que o autor, tenho vontade de pegar a minha bike e ir embora. A história diz que esse argumento não olha para o racismo, machismo e várias outras formas de opressão estrutural que não permite a circulação e a legitimação dessas pessoas nos espaços de criação.

    Um boletim divulgado pelo GEMAA (Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa) em 2017, revelou que “levando em conta todos os filmes que obtiveram público acima de 500 mil espectadores entre os anos de 1970 e 2016  (...) a despeito das mudanças de regime político e de governos, intensas desigualdades continuaram a marcar esse campo da indústria cultural, no qual predomina o gênero masculino e, sobretudo, as pessoas de cor branca.”

    E esses dados têm nome. Se a gente for olhar para os diversos setores da sociedade, levando em consideração esse argumento de que a obra vem antes do autor, como explicamos então o caso de Lima Barreto, Carolina Maria de Jesus que nem considerados escritores eram? Não podemos esquecer, aliás, que neste ano, Ivan Cavalcanti Proença comentou publicamente que a obra de Carolina Maria de Jesus não pode ser considerada como literatura.

    Também há outro fator que esconde as identidades raciais de alguns autores, como é o caso dos Irmãos Rebouças e do próprio Machado de Assis. Ficamos sabendo há pouco tempo que os engenheiros e um dos escritores mais importantes do Brasil eram negros. Penso também no caso da Virgínia Leonne Bicudo, na psicanálise; só tive acesso ao seu pensamento porque Janaina Damasceno, professora da UERJ, escreveu uma tese de doutorado sobre Virginia, até hoje pouco falada.

    Não esqueço por um segundo dos meus dois guias no cinema: Zózimo Bulbul e Adelia Sampaio, negros que foram pioneiros no cinema brasileiro e apagados pela bibliografia e filmografia ensinadas nas escolas de cinema do país. Normalmente, esses nomes aparecem em grupos de pesquisa específicos ou pelos circuitos possibilitados pelos movimentos negros presentes dentro das universidades e escolas regulares. É, normalmente, dessa maneira que temos acesso à produção de pretos e pretas, ainda que eles tenham contribuído não só na construção de uma linguagem cinematográfica (como é o caso do filme “Alma no olho”, do Zózimo), como também tiveram que criar outras formas para viabilizar a circulação de suas obras dentro e fora do país (como é o caso do Amor Maldito e todos os filmes de Zózimo), o que deveria ser material de aula para qualquer estudante de cinema.

    De tudo isso, ficam alguns questionamentos: o que, verdadeiramente, temem aqueles que questionam o debate sobre lugar de fala, ainda que saibam de todo apagamento histórico de uma parcela criativa da sociedade brasileira, normalmente preta, normalmente indígena, normalmente mulher, normalmente pobre, normalmente LGBT? Por que a força criativa dessas “minorias” está sendo questionada no momento em que elas podem assumir e afirmar com orgulho suas identidades? Quando elas podem escolher o que e como vão narrar suas histórias? Por que temer quando essas pessoas dizem que ninguém mais vai falar por elas? Onde é que está a verdadeira questão? Por que o incômodo em aplaudir e destacar as presenças negras e faveladas dentro dos espaços de cinema, sendo que essas presenças nunca foram bem-vindas (a não ser quando foram narradas pelo "olhar civilizado e poético" dos brancos)?

    A história me mostra que rejeição a esse debate é mais uma maneira de querer colonizar essas presenças, de limitar, de colocar um teto de vidro, de regular essas presenças. Um modo de dizer: vocês estão indo longe demais. E quer saber? Eu quero mais é que esse pessoal chegue cada vez mais longe e de bonde. Ninguém mais vai voltar pro armário.

    Acreditaria que a obra vem primeiro que o artista se os circuitos das artes não continuassem brancos. Se as fotos dos realizadores de cinema presentes nos catálogos de eventos de cinema tivessem mais cor. Se o acesso ao conhecimento e pensamento de quem fez história estivesse num mundo que está muito além da Europa. É por isso que comemoro presenças negras e faveladas nos espaços de cinema porque sei que essa é uma forma que essas pessoas escolheram para estarem no mundo e vivas. É por isso que empreteço cada vez mais o meu modo de ver o mundo, é por isso que digo diante de qualquer argumento que tenta me castrar: eu sou uma cineasta negra brasileira e continuarei sendo até o momento em que não for mais possível apertar o rec de tanto tê-lo apertado.

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    Dicas da Yasmin

    Para comemorar presenças negras e faveladas no cinema: Circuito Cinegrada 2017

    Para fazer música: Panderolando Maré

    Para falar poesia: II SLAM pela Liberdade de Rafael Braga

    Para aprender sobre lugar de fala e lugar de escuta: Queridas poetas lésbicas,

    Yasmin Thayná é cineasta, diretora e fundadora da Afroflix, curadora da Flupp (Festa Literária das Periferias) e pesquisadora de audiovisual no ITS-Rio (Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro). Dirigiu, nos últimos meses, “Kbela, o filme”, uma experiência sobre ser mulher e tornar-se negra, “Batalhas”, sobre a primeira vez que teve um espetáculo de funk no Teatro Municipal do Rio de Janeiro e a série Afrotranscendence. Para segui-la no Twitter: @yasmin_thayna

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