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Coluna

A prisão do segredo

    Existe uma diferença abismal entre conviver sozinha com o trauma e saber-se acompanhada

    Eu tinha 11 anos e acabava de entrar no ginásio, que hoje chamamos de ensino fundamental 2. Depois de um exame difícil, que implicava não só passar por provas que verificavam conhecimento formal mas também entrevistas que avaliavam a capacidade de conversar e dialogar, entrei no colégio Vocacional Oswaldo Aranha, no bairro do Brooklin em São Paulo.  Como essa era uma escola pública, e com métodos revolucionários, os alunos eram também selecionados por renda, de forma que, estudantes com melhores condições financeiras — o que era de alguma maneira o meu caso — contavam com menos vagas. Os critérios de seleção apuravam, ainda, o local em que morava o alunato, privilegiando aqueles que habitavam os bairros próximos; isso para garantir a maior sociabilidade interna. Nessa época, eu vivia no Ibirapuera, que ficava no limite máximo, mas permitia que meus pais pleiteassem uma vaga.

    Comecei então a frequentar essa instituição que mudaria toda a minha forma de ver o mundo. O Vocacional era uma escola que desafiava os alunos a desenvolver uma postura crítica, incentivando a participação criativa nas aulas. Fazia mais; muito antes da voga da interdisciplinaridade, a escola nos forçava a cruzar matemática com história; português com geografia e assim por diante. Além disso, afora as matérias do currículo tradicional, tínhamos aulas de “trabalhos domésticos”, “artes industriais”, contabilidade e artes de uma forma geral. Como tudo por lá era um tanto diferente, as classes eram divididas por nível de educação física, e assim se incentivavam as competições entre iguais, dando um empurrão naqueles que eram avessos a esse tipo de atividade.

    Tanto quanto a memória alcança, e sabemos como ela pode ser traiçoeira, lembro de ter participado de um julgamento de Luis 16, e debater o absolutismo; de ter jogado batalha naval e presenciado “no tabuleiro” uma série de eventos da Segunda Guerra Mundial. Criei circuitos elétricos, bandejas de metal, aprendi a usar máquinas de registrar e a desenvolver receitas tão complexas como apetitosas. Essas são experiências que vincam a vida de qualquer um, e a minha ficou marcada por esse modelo de educação, que acabou sendo destruído durante os anos da Ditadura Militar. Professores foram presos, a diretora detida e eu, criança que era, vi a minha escola desmoronar.

    Mas ela não ruiu dentro de mim. Tanto que, quando me tornei professora, no ensino fundamental, e depois na Unicamp e na USP, procurei aplicar os métodos que aprendi no Vocacional. Foi nessa escola que descobri a importância dos “seminários em equipe”, dos “estudos do meio”, e de um ensino inclusivo, que sempre focou a convivência com todo tipo de diversidade.

    A solidão do silêncio

    Infelizmente, porém, uma outra experiência, particular, colou-se à minha lembrança; não exatamente do Vocacional, mas daquele tempo, hoje remoto, que na memória, no entanto, parece tão próximo.

    Como já escrevi no início desta coluna, eu tinha 11 anos e achava que nos números casados morava uma espécie de bom presságio: com essa idade cursaria o 1º ano do  ginásio. No 2º ano teria 12; no 3º ano completaria 13, e terminaria o 4º ano com 14. Esse era um mundo mágico, e o Vocacional parecia meu tíquete de entrada para o começo de uma vida mais autônoma.

    Tal sentimento foi também aguçado por uma novidade; meus pais, coerentes com os critérios da escola, acharam por bem (e tinham razão) que eu tomasse o ônibus de carreira sozinha. O ponto não ficava longe de casa ou da escola, e, orgulhosa, enfrentei o desafio. O trajeto era fácil: eu tomava o ônibus no começo da avenida Santo Amaro e descia num ponto perto da rua Lisboa. Tudo certo como dois e dois são quatro.

    Pois bem, narro aqui uma experiência que ficou comigo, durante largo tempo, como uma vergonha, um vexame e que me causou imensa culpa.  Não conhecia bem o que julgava ser “o mundo dos adultos”, mas também não tinha vontade de perguntar sobre ele, a ninguém: nem a meus pais, muito menos a professores ou amigos. Talvez por isso carreguei uma história, que estava para acontecer comigo, como quem leva uma mala pesada.

    Certo dia, depois de passar pelo cobrador, sentei num assento na janela, perto do motorista, e fui observando a paisagem. Esse era meu ritual diário: nada me tirava a concentração ou mudava a direção de meu rosto, sempre colado no vidro.

    Foi quando um senhor, que não sei precisar a idade (pois do alto de meus 11 anos todo o restante do mundo parecia adulto) sentou-se a meu lado. Julguei-o até gentil, quando me cumprimentou e garantiu seu lugar perto de mim, no banco para dois passageiros. Da minha parte, depois de devolver a atenção, continuei na minha atividade de sempre: memorizar as casas, reparar nos transeuntes, olhar as propagandas estampadas nos outdoors da avenida.

    Lembro de ter estranhado que o rapaz a meu lado se mexesse o tempo todo. Sem parar. Mesmo assim, avaliei que isso não era da minha conta e continuei olhando para o lado oposto. Mas ele começou a se movimentar tanto, que acabou roubando minha atenção. Com certeza, ele queria, sim, chamar a minha atenção, mas teve que se esforçar nesse sentido.

    E assim, incomodada com toda aquela agitação, olhei finalmente para ele. O homem me observava firme e, quando baixei a visão, vi que ele havia aberto a braguilha e tinha seu membro masculino bem à vista e muito ereto.

    A partir de então, tudo se passou muito rápido, e a memória deve ter tratado de acelerar, ainda mais, a minha lembrança. Só me recordo que juntei tudo que tinha comigo, e quase empurrei aquele senhor, que continuava a me observar com um sorriso nos lábios.

    Saltei no primeiro ponto que podia e não olhei para trás. Ou melhor, olhei só uma vez, com medo que aquele estranho estivesse me seguindo. Respirei aliviada quando vi que não estava; mesmo assim corri uns seis quarteirões até chegar na escola.

    Vinha suada, com o coração batendo, mas, ainda assim, não disse nada a ninguém. Do tamanho da falta de compreensão era a dimensão da minha culpa. Pensava que poderia ter motivado aquilo tudo; ou que havia de ter feito algo de muito errado. Não achei espaço interno para conversar com os professores, muito menos com meus pais. Mal me concentrei na aula; voltei para casa e tomei um longo banho. Era como se estivesse suja por dentro e sem ter ideia do motivo.

    Com certeza não há por que acusar minha família ou meus mestres. O fato é que esses eram temas tabus naquela época, e que não cabiam dentro das salas de aula ou numa mesa de jantar.

    Carreguei o mal-estar por muitos anos, e lembro de suar frio toda vez que me vinha à mente a mesma cena. Por incrível que pareça, também demorei bastante até contar essa história. E até mesmo no momento em que escrevo essa coluna, num trem que me leva de Boston a Nova York, ainda me vejo envergonhada e olhando para os lados.

    Hoje sei que não fui a única mulher a passar por esse tipo de experiência, e que, ao contrário, esse comportamento masculino, já faz algum tempo, é criminalizado. Mas o fato é que existe uma diferença abismal entre conviver sozinha com o trauma, ou saber-se acompanhada. Poder introduzir assuntos como esses nas escolas, na rotina familiar e no dia a dia é uma das grandes conquistas  de nossa agenda civil. Evitar a clausura do segredo, ser capaz de conversar sobre o lugar do desejo, falar das experiências que envolvem esse complexo mundo do sexo, da sexualidade e do gênero, é direito de todos nós. Essa é, ademais, uma forma generosa e democrática de lidar com os desejos, as pulsões e os nossos recalques, tão individuais como coletivos.

    Não faz muito tempo, minha filha Júlia me contou sobre uma conversa que recém entabulara com minha neta; hoje com 10 anos de idade. Como mãe, tratou de explicar para sua filha que ela jamais deveria aceitar fazer algo que fosse contra a sua vontade. E que nunca deveria se privar de contar e reclamar sobre situações que lhe haviam desgostado. E mais: que ninguém teria o direito de fazer com ela qualquer coisa que não fosse do seu desejo e querer. Não tive como deixar de lembrar do meu “pequeno grande” incidente: tão ingênuo quanto profundo; tão inocente como perverso; tão distante e ainda assim recente. 

    Thomas Mann, em “A Montanha Mágica”, definiu a prática da história como um “elemento misterioso”. É por isso que Hans Castorp, o protagonista do romance, concluiu que as sete semanas que passara na montanha não pareciam mais do que sete dias. Ou talvez tudo tivesse acontecido ao contrário: tinha a certeza de viver naquele mesmo lugar muito mais tempo do que a realidade dos dias do calendário. Segundo o escritor, “uma coisa e outra, eram, provavelmente, verdadeiras: ao seu olhar retrospectivo, o tempo ali passado afigurava-se tão longo como excessivamente breve”.

    Ps: Há um mês atrás escrevi, aqui no Nexo, sobre a mais recente exposição do Masp, da qual faço parte da equipe curatorial. Lamentei que ela tivesse sido proibida para menores de 18 anos, e torci para que a sociedade brasileira nos ajudasse a pressionar e derrubar o veto. E é com a mesma veemência que comemoro uma nova determinação: a proibição para menores deixou de ser restritiva para tornar-se indicativa. Ou seja, pais, professores e responsáveis podem entrar no Museu acompanhados de seus filhos, alunos e amigos, e conversar abertamente acerca das nossas “Histórias da sexualidade”. O arbítrio pertence, agora, a cada um de nós. No lugar da prisão da solidão ou da dor da incompreensão, a abertura de espaços como esses, possibilitam que assuntos delicados mas cotidianos possam ser discutidos com a sensibilidade e a abertura que merecem.

    Lilia Schwarcz é professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças", “As barbas do imperador", “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário" e "Dicionário da escravidão e liberdade", com Flavio Gomes. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp.

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