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Coluna

A obra de Adriana Varejão e nossa 'Cena de Interior'

    Tem grassado entre nós um combinado explosivo, esse sim perverso, que mistura covardia com preguiça diante do trabalho alheio

    Não costumo padecer de manias persecutórias e procuro ficar distante das neuroses coletivas. Também não me considero uma adepta do Facebook; tenho uma página, mas nem ao menos sei entrar nela: uma amiga minha é que cuida dela. É por isso que custei a entender, e me irritei, quando na semana passada tive um post censurado e retirado do ar. Não há coincidência na operação: meu texto condenava o fechamento da mostra do Santander – “Queermuseu – Cartografia da diferença na arte brasileira” – e analisava, mais detalhadamente a obra da artista Adriana Varejão.  Aliás, ao que tudo indica, o motivo para a “eliminação sumária” da minha pequena crônica teve a ver com a imagem lá contida. Trata-se de “Cena de interior II”, obra que a artista carioca deu por terminada e datou de 1994. A tela não é, portanto, recente e tampouco resultado de uma encomenda atual. Ao contrário, Adriana tem uma obra pautada por projetos, séries, temas e suportes que fazem parte de sua agenda própria, laboriosamente construída.

    Convido, pois, para um corpo a corpo com esse trabalho. A textura da tela produz uma espécie de ilusão visual, como se estivéssemos diante de um papel de arroz, material muito utilizado em antigas gravuras, sobretudo, orientais. Nelas, o tempo se escreve no material, destacando-se o amarelado da coloração, bem como suas imperfeições. E nesse caso é a tela que vira papel e documento. Mais ainda, o quadro mostra como os jogos sexuais, sejam eles solitários, a dois ou em grupos, não têm tempo, regra, local ou prazo de validade. Também há na obra uma janela para pensarmos em relações consentidas e outras marcadas pela violência e por processos de humilhação. Lá estão casais bem constituídos, arranjos de gênero distintos, bem como registros de misturas entre raças, povos e animais. Existem também referências à cultura do estupro que vigorou abertamente durante o período da escravidão, mas não se limitou a ele, e uma representação de práticas que da alcova escura e escondida, de um vergonhoso segundo plano, aqui ganham o centro da cena e protagonismo. Enfim, Adriana atua como “escavadora” dessas histórias plurais da sexualidade, dos desejos, das performances de gênero e de seus jogos; práticas milenares e que nos fazem, a todos, humanos.

    Foto: Reprodução
    cenas do interior
    Obra 'Cena de Interior II' (1994), de Adriana Varejão
     

    Adriana traça, ainda, paralelos com as obras do artista francês Jean-Baptiste Debret (1768-1848), que insinuou uma miríade de olhares e desejos recônditos nas suas gravuras. Não temos notícias de que a corte de D. João, e depois de Pedro 1º, tenham cerceado qualquer dessas gravuras. Ou melhor, na época, foram vetados apenas dois desenhos que tratavam diretamente de sevícias e castigos, em mais uma coincidência pouco coincidente. A artista inspira-se também nos Shungas, gravuras japonesas muito populares, e que nos distantes finais do 18 e inícios do 19, reproduziam com linda técnica e estética as várias posições sexuais dessa cartografia dos desejos humanos. Nunca foram censuradas...

    Obra 'Hurry, Hurry Someone is Comming ' (1830), de Keisai Eisen
     

    Mas esse tipo de ajuizado revelou-se incapaz de conter a força destrutiva de nosso robô humanizado do Facebook: a arte de Adriana e meu pequeno texto foram todos devidamente apagados; “vanished in the air”. Teimosa que sou resolvi insistir. E meu post e a imagem de “Cena de interior II” estão novamente por lá, até que alguma alma penada resolva alertar sobre o “perigo subversivo” e “degenerado” contido nessas imagens. 

    O fato é que tem grassado entre nós um combinado explosivo, esse sim perverso, que mistura covardia com preguiça diante do trabalho alheio. Sei que não fui a única a sofrer desse mal e, por sinal, estou em boa companhia. O jornalista Lira Neto e o crítico e historiador da arte Jorge Coli também passaram por essa mesma situação. Ademais, uma tela de Caravaggio (do século 17) bem como a pintura de Gustave Courbet chamada “A origem do mundo”, de 1866, padeceram com a mesma ira destruidora do nosso robô. De toda maneira, como não costumo acreditar em falta de sorte e cegonha trazendo bebê a bordo, sei bem que robôs podem ter lá suas qualidades, mas são comandados por mentes e gestos humanos, e que denúncias (anônimas, na maioria das vezes) é que animam ou não esse tipo de iniciativa.

    Estamos mesmo vivendo na marola do velho e bom provérbio, de origem bíblica, sobre os “dois pesos e duas medidas”. Lá vai um bom exemplo, e que faz parte dessa mesma história. As mesmas “boas intenções moralizantes e normativas” que têm sistematicamente apagado imagens e telas de Adriana Varejão do Facebook, não atuaram na hora de censurar a “ultrajante” agressão pessoal que a artista sofreu por parte de Roger Moreira, do “Ultraje a rigor”. Não tenho qualquer intenção de reproduzir essa representação visual, digamos assim. Basta descrever a “qualidade da ilustração” que se resumiu a rasurar uma foto da artista: inseriu o desenho de um órgão sexual masculino próximo à boca de Adriana, dispôs seus olhos fechados com duas cruzes e incluiu a “legenda” “puta”.

    Nenhuma imagem de ódio, como essa última, anima o debate. Só incita intolerância. Se é certo que precisamos alertar a população sobre  o perigo da disseminação desavisada e pretensamente inocente das imagens, também me parece, e usando a boa inspiração do filósofo francês Michel Foucault (1926-1984), no seu livro “História da sexualidade” (1976), que proibir é também  uma forma (estratégica) de incentivar e difundir.

    Folhas  e desejo

    Como Adriana Varejão não é artista de ocasião, sua obra e seu reconhecimento têm lhe permitido viajar com seu trabalho pelo Brasil afora e internacionalmente também. Neste mês de setembro, ela abriu uma exposição na Gagosian, de Beverly Hills, em torno de seus charques, línguas e saunas; quando suas telas viram e ganham a textura do azulejo. Se será mais difícil para o público brasileiro conferir essa mostra, sugiro mais outra, aberta neste momento no Rio de Janeiro, em que ela dialoga com a artista portuguesa Paula Rego e apresenta várias de suas “folhas”.

    Foto: Reprodução
    Obra 'Folhas' (2015), de Adriana Varejão
     

    Uma forma de procurar (e achar) a coerência e a alma de uma artista, é perguntar pela consistência e persistência de temas que atravessam sua obra. Nessa “folha feita de folhas” é possível observar os mesmos jogos sexuais, ainda mais múltiplos, mesmo 20 anos depois. Gênero, sexo, mas também raça, origem e temporalidade percorrem e embaralham a obra, mais uma vez. A base da tela também diz muito sobre esse projeto de Varejão. Craquelada, como se fosse uma tela rasurada pelo movimento interno do tempo, ela dialoga com os azulejos desta artista que, à sua maneira, e sem dar lição de moral a ninguém, desenvolve um projeto que acomoda amor e violência, desejo e estupro, colonização e destino.  

    É por essas e por outras que a obra de Adriana carrega uma evidente matriz ética e filosófica. Se sua inspiração vem da história, é a matéria da nossa atualidade que faz dela uma intérprete da nossa cena contemporânea. Uma época que vem incentivando o moralismo maniqueísta, a dicotomia e não a multiplicidade, o ódio em vez do diálogo. O embate entre ideias diferentes faz parte do catálogo da democracia. Já o veto, o cancelamento, a proibição; definitivamente, não.

    Aberta na galeria Carpintaria, a mostra de Adriana Varejão segue até 4 de novembro, e sem censura. E mais: dia 19 de outubro será inaugurada no Masp uma exposição coletiva chamada “Histórias da sexualidade”. Ela dá continuidade a um projeto desenvolvido pelo Museu que tem se organizado em torno das nossas várias histórias: da infância, afro-atlânticas, indígenas, imigrantes, feministas e assim por diante. A mesma tela de Adriana Varejão, que foi acusada de ser uma das responsáveis pela atitude do Banco Santander, estará agora à mostra no Masp. O trabalho já fazia parte do desenho original da exposição e consta de seu catálogo. Não há pois “oportunismo” algum. A coincidência é, na verdade, indício; prova de como essa é uma obra necessária, e como esse tema faz parte de nosso catálogo, igualmente necessário, de direitos.

    PS: Escrevi, junto com Adriana Varejão, um livro que tenho muito orgulho de assinar. Com projeto gráfico de Raul Loureiro, “Pérola imperfeita: a história e as histórias de Adriana Varejão” foi publicado pela Cobogó e pela Companhia das Letras, e teve como editora a incansável Isabel Diegues. Se quiserem saber mais sobre a obra fundamental dessa artista sugiro que confiram a indicação.

    Lilia Schwarcz é professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças", “As barbas do imperador", “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário" e "Dicionário da escravidão e liberdade", com Flavio Gomes. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp.

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