É assim que é. É assim que tem sido assim desde a redemocratização: quem paga campanha eleitoral é construtora. 'É normal', disse Emílio Odebrecht, para minha estupefação

Até anteontem, algumas das maiores empresas do mundo eram construtoras brasileiras: Andrade Gutierrez, Camargo Corrêa, OAS, Odebrecht. Todas com faturamento de bilhões, todas donas de dezenas de outras empresas, em vários setores diferentes, presentes em dezenas de países. Todas empresas familiares, com os donos nas listas de bilionários da “Forbes”. Todas com obras gigantescas no portfólio – rodovias, usinas, pontes, estádios, catedrais, sistemas de metrô, de eletricidade, de saneamento.

O trabalho que essas empresas fazem não é muito diferente daquele de um mestre de obra – são contratadas por empreitada, se comprometem a deixar uma estrutura pronta, de acordo com o projeto, num determinado prazo. Um modelo de negócio simples – ainda mais porque trabalha basicamente para um único cliente: o Estado. Mas, nos últimos meses, graças à Polícia Federal, estamos aprendendo que o “business model” dessas empresas é bem mais complexo, interessante e lucrativo que isso. Aí ficou fácil entender como elas se tornaram tão grandes e poderosas.

Seguinte: as empresas pegavam toda a fortuna que faturavam e separavam um pouquinho para pagar propina (Marcelo Odebrecht calculou que era alguma coisa entre 0,5 e 2% do faturamento anual, não muito longe de um bilhãozinho ao ano). Quem recebia esse dinheiro era basicamente todos os políticos com cargo importante. Fala um nome aí: Lula, Aécio, Kassab, Alckmin, Temer, FHC, Sarney, Palocci, Serra. Todos são citados, e mais dezenas de outros. Mais de um terço dos ministros, os chefes das duas casas parlamentares, os dirigentes de quase todos os partidos, boa parte dos governadores, perto da metade do Senado.

Era tipo um caixa eletrônico, com a diferença de que não precisava ter cartão nem senha nem mesmo conta no banco. Bastava passar lá, ou mandar alguém, ou indicar os dados bancários, geralmente de conta fria, e a construtora alegremente transferia alguns milhões de reais. Se necessário, fazia o dinheiro viajar por quatro países diferentes, para ficar impossível rastreá-lo. Em troca de quê? De nada, meu filho, gasta com saúde, boa sorte na eleição. Como campanhas eleitorais são caras demais – custam milhões de reais –, esse dinheiro era fundamental para chegar ao poder.

Mas é em troca de nada mesmo? Claro que depois as empresas ficavam acompanhando os mandatos de quem se elegia para saber se o sujeito estava mesmo ajudando. E havia muitos jeitos de ajudar: contratos vultosos para construir coisas, uma mãozinha na hora de criar as regras para licitações, ajustes convenientes nas leis, pressão para calar esta ou aquela investigação, juro camarada num empréstimo do BNDES, encomendas militares para fazer mísseis, privatização de um serviço em condições vantajosas, o céu é o limite. E, nas eleições seguintes, quem não ajudasse dava com a cara na porta do caixa eletrônico de dinheiro grátis.

É assim que é. É assim que tem sido assim desde a redemocratização: quem paga campanha eleitoral é construtora. “É normal”, disse Emílio Odebrecht, para minha estupefação.

Bom, era normal para muita gente. PT, PSDB, PMDB, PP, PSD e DEM parecem ter se lambuzado mais, mas a lista de partidos envolvidos inclui quase todos, tirando algumas legendas pequenas, idealistas ou pobres mesmo. Há uma clara correlação: o envolvimento de cada partido é proporcional ao poder que o partido tem. Parece ser verdade o que Marcelo Odebrecht diz, ou quase: (quase) ninguém se elege sem caixa dois.

Significa que todo mundo é safado igual? Hmmm, não. Sim, verdade que boa parte da classe política normalizou a ideia de que não tem problema nenhum ganhar milhões de uma empresa e depois dar um jeito de essa empresa ser compensada – e isso não poderia ter sido normalizado. Acontece que uns normalizaram bem mais que isso: uma vida de luxo, desvio de tudo o que pudesse ser desviado, até próteses ou merendas, esquemas bilionários que ferravam milhões enquanto beneficiavam meia dúzia. Difícil, agora, com as informações disponíveis, saber quem está mais sujo que quem. O fato é que, no mundo político, quem queria jogar o jogo com chances de ganhar ou aceitava o esquema ou dificilmente teria mandato.

Essa máquina funciona: é ela que vem construindo o Brasil nos últimos 60 anos, desde os tempos de JK, quando grandes obras pipocaram pelo País, e o cartel se formou. Ela ganhou tamanho e poder na Ditadura Militar, época ideal para corruptos, já que os generais adoravam incentivar o empresariado nacional e odiavam transparência, órgãos fiscalizadores e liberdade para investigar. Aí, quando veio a redemocratização, ela já era tão poderosa que sequestrou o sistema eleitoral. Passou a controlá-lo.

Foi a máquina que ergueu Brasília, a ponte Rio-Niterói, o Maracanã, a Transamazônica. As usinas hidrelétricas, os sistemas de água e esgoto, as estações de metrô, os terminais de ônibus. As escolas, os hospitais, as universidades. Político recebendo propina e, se quisesse receber mais depois, ajudando a emplacar projetos. É um negócio lucrativo. Tanto que as construtoras brasileiras se tornaram algumas das maiores empresas do mundo e hoje estão atrás de oportunidades em dezenas de países – e oportunidades não faltam. E é o que viabiliza o nosso sistema político: todo ele, da esquerda à direita, com exceção de bem poucos.

Se tenho alguma certeza nesta vida é que precisamos desligar essa máquina. Por mais que ela funcione, por mais que ela abasteça as maiores empresas brasileiras e empregue centenas de milhares de pessoas, ela é ruim para o Brasil, porque distorce a democracia. Ela faz com que os políticos fiquem mais interessados em agradar às construtoras do que em resolver problemas reais, do jeito mais barato possível. Na verdade é o contrário do que deveria ser: há um claro incentivo para que se pague mais caro pelas coisas, de maneira a prover contratos maiores. Se olharmos para o modo como executamos quase todos os grandes projetos recentes no País – Belo Monte, Copa, Olimpíadas, Pré-sal, transposição do São Francisco – é muito evidente a tendência de realizar obras imensas, quando pequenas soluções pulverizadas poderiam beneficiar muito mais gente.

Aí ouço que a culpa por isso tudo é do Estado brasileiro – inchado, ineficaz, precisa ser todo privatizado. Verdade que o Estado é tudo isso. Só que no Brasil, quase sempre, as privatizações são montadas para favorecer justamente esses grupos, empresas como a Andrade Gutierrez, a Camargo Corrêa, a OAS, a Odebrecht, que criaram divisões para operar serviços para o Estado, se aproveitando das boas relações com os políticos para obter condições de mãe. A cultura da corrupção perpassa todos os setores econômicos, não está limitada ao governo – grassa também nas empresas. As investigações da PF seguem se expandindo, mas já parece provável que essas práticas corruptas logo logo começarão a aparecer na indústria financeira, de telefonia, de alimentos – todas privadas.

E fico pensando que não há mesmo solução simples para um colapso sistêmico. O problema é de todo mundo, quase tudo no país precisaria funcionar diferente. A máquina que move o Brasil provavelmente quebrou. Quem opera essa máquina vai fazer o possível para colocá-la novamente em funcionamento, com alguma gambiarra (veja por exemplo esta ótima análise sobre como o acordo de leniência saiu barato para a Odebrecht , que logo deve voltar com tudo). Espero que não consigam, por mais que eu saiba que não vai ser fácil para brasileiro algum: enquanto não inventamos um modelo novo, continuaremos precisando construir coisas. Quem fará hospitais se todos os empreiteiros estiverem presos?

Só me resta torcer para que, no futuro, se houver outra máquina, ela não seja operada por meia dúzia de famílias bilionárias, em detrimento dos outros 199 milhões 999 mil de nós. Que ela envolva milhares de empresas pequenas, de comunidades locais, de gente conectada em gente, inventando e construindo juntas as coisas. E que os políticos trabalhem para todos eles.

Denis R. Burgierman  é jornalista e escreveu livros como “O Fim da Guerra”, sobre políticas de drogas, e “Piratas no Fim do Mundo”, sobre a caça às baleias na Antártica. Foi diretor de redação de revistas como “Superinteressante” e “Vida Simples”, comandou a curadoria do TEDxAmazônia, e fez parte do time que criou o Greg News, primeiro comedy news da TV brasileira.
Escreve quinzenalmente, às quintas-feiras.

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