Coluna

A juventude negra não cabe nesta foto

    Olhar uma imagem não é olhar apenas o que está sendo mostrado, é ver também aquilo que não se escolheu colocar em evidência

    Na semana passada, uma imagem circulou por algumas bolhas das redes sociais. Nela, vemos, à esquerda da imagem, fora do eixo central mas com presença marcante no quadro, um homem negro deitado num banco de uma praça pública, em Salvador, especificamente no Campo Grande. À direita da imagem, quatro mulheres negras vestidas de branco e com idades distintas, posam para a foto sorrindo. O gesto delas não parece espontâneo: percebemos isso pelas mãos, entre as pernas, que estão em maior evidência. As demais também as posicionam em lugares semelhantes do corpo.

     

    Pensei bastante se escreveria sobre essa imagem. Mas não tive como fugir dela, de traçar uma breve reflexão sobre o texto que ela sugere, sem querer surfar numa onda polêmica ou transformar modos de ler em modos de punir o outro. Apesar de ser uma devota das emoções, ando pensando que certas coisas precisam de um assentamento, de digestão. Me parece mais sadio elaborar depois de atingir um primeiro estágio do pensamento, no mínimo, para que não seja apenas uma máquina reprodutora de violências.

    No primeiro momento em que olhei essa foto, senti raiva de quem fez e tive quase certeza de que havia sido elaborada por um homem. Fiz questão de verificar a fonte e lá constava uma marca d’água na própria imagem, que não consegui ver de cara: Leo Ornelas. Pensei, imediatamente, na figura masculina porque há relações de poder muito evidentes na imagem,  que não me pareceu, em momento nenhum, uma peça fotojornalística, e sim um uso político escancarado para deslegitimar corpos negros, jovens e femininos em marcha.

    A imagem que teve destaque faz parte de uma série de fotografias feitas durante a 3ª Marcha do Empoderamento Crespo – Salvador, uma manifestação pública puxada por jovens negros que se reúnem para pautarem suas belezas e suas dores: o direito de não ter um corpo alvejado, o direito de suas existências estarem para além do racismo. É uma marcha para exigir, sobretudo, o direito à vida.

    Olhar uma imagem não é olhar apenas o que está sendo mostrado, é ver também aquilo que não se escolheu colocar em evidência. Um profissional que cria imagens se utiliza de diversos recursos para obter um resultado, um texto, uma ideia, uma sensação, uma memória. Portanto, é um trabalho intelectual de elaboração de uma realidade ou a possibilidade de imaginá-la. No caso dessa foto, vejo como uma tentativa de criticar atitudes e contradições de uma juventude negra e periférica, cuja prática e o discurso estão cada vez mais desencontrados. É um dos caminhos que a imagem sugere: mulheres negras que posam para um “close” simbólico, onde o “lacre” deve ser dado em qualquer circunstância, inclusive diante da dor dos outros e dos seus semelhantes, como sugere o título do livro de Susan Sontag, em que ela reflete exatamente sobre os limites e os caminhos percorridos pelos registros fotográficos das desgraças alheias.

    A fotografia, de maneira questionável, nos revela uma situação alarmante: como pode uma juventude que se diz engajada na luta contra o racismo e todas as desigualdades advindas dele sorrir e permitir que uma imagem seja feita diante de uma situação em que há um corpo negro devastado, apagado, “jogado” no canto feito um objeto? Qual a legitimidade dessa contestação? Será a faixa com palavras de ordem capaz de isolar outras existências negras?

    São perguntas, possíveis perguntas, nas quais a imagem me faz pensar. Eu me vejo nessa juventude que marcha, nos modos de pentear o cabelo, nos modos de acreditar nas utopias, nas criações, na força e na coragem de viver um tempo sangrento sem perder a ternura, ainda que não parem de brotar na nossa frente notícias de jovens, como nós, que se suicidam, cada dia mais. Me vejo, inclusive, nas contradições que nós mesmos vivemos e que estar em constante estado de alerta e autocrítica é um posicionamento necessário. Não acredito em humanidades, relações sociais, sem contradições.

    Questiono a imagem por ela ter tido destaque no meio de tudo que foi simbolicamente realizado, pelo movimento que gerou, por quem agregou, por quem libertou. Inclusive porque ela não revela qual a relação estabelecida entre esse ato político e a população que mora naquela praça onde ocorreu a manifestação. Ela é apenas uma imagem lançada no vácuo, sem qualquer pretensão de diálogo por parte do autor. Ela age na intenção de criar etiquetas: é como se toda a juventude “geração tombamento” cabesse ali. Cria-se um tribunal cujas palavras presentes nos discursos para definir essa juventude são as mesmas palavras capturadas e esvaziadas pela publicidade. Falo aqui da constante apropriação dos termos: empoderamento e pertencimento. Me parece que a prática agora é esvaziar essas significações e usá-las como arma para alvejar existências que muitas vezes não conseguem completar os seus 20 anos de idade.

    Questiono a ação do autor e a sua real intenção: primeiro, por que mirou a câmera naquela situação? Qual é a importância da ação do registro e sua divulgação sem qualquer legenda, sem um texto crítico, sem uma abertura de diálogo fora das intenções sensacionalistas? Questiono a decência e a ética de um fotógrafo incapaz de elaborar sobre um discurso criado por meio da imagem, e que só consegue agir na defensiva. Isso demonstra a sua desonestidade, que o próprio autor tenta encapar dentro de uma aparente “crítica”. Um crítico íntegro não se esquiva do debate. Há uma outra foto em que o autor registra um homem negro sentado próximo da cabeça desse mesmo homem deitado no banco. Dessa vez, a imagem parece não ter sido sinalizada nem autorizada: o homem está distraído e não parece perceber estar sendo fotografado. Essa imagem não viralizou tanto quanto a das mulheres. Por quê?

     

    Essas imagens estão longes de serem retratos da juventude negra brasileira. É inaceitável que essa fotografia seja tratada como uma obra prima, como muitas pessoas a adjetivaram. Obras primas não costumam trabalhar nos moldes da destruição. Pelo contrário: obras primas podem até servir para a reflexão de um tempo, desde que a intenção e o resultado andem juntos na linha da integridade, honestidade, respeito e, acima de tudo, da ética profissional.

    Criar imagens é ter responsabilidade sobre elas. Se há uma crítica a uma determinada realidade, que ela se mantenha na linha da construção. Leo Ornelas não foi capaz de formular nenhuma linha sobre aquilo que ele mesmo capturou. A imagem sozinha não cria um caminho de discussão, ela evidencia várias relações de violência e criminaliza os movimentos da juventude negra brasileira. Nesse caso, essa imagem serve para duas coisas: a primeira, como um excelente material para os grupos reacionários. A segunda, como mais um mecanismo que ajuda a puxar o gatilho e destroçar, mais uma vez, aqueles que mais morrem neste país.

     

     

    Yasmin Thayná é cineasta, diretora e fundadora da Afroflix, curadora da Flupp (Festa Literária das Periferias) e pesquisadora de audiovisual no ITS-Rio (Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro). Dirigiu, nos últimos meses, “Kbela, o filme”, uma experiência sobre ser mulher e tornar-se negra, “Batalhas”, sobre a primeira vez que teve um espetáculo de funk no Teatro Municipal do Rio de Janeiro e a série Afrotranscendence. Para segui-la no Twitter: @yasmin_thayna

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