Coluna

A imagem que falta

    Nas famílias negras, registros de infância são raros. Máquinas eram caras e, nas prioridades de despesa das famílias negras, as fotos nunca estavam na lista

    A imagem é uma das ferramentas mais poderosas para se ativar a memória. Quando nos deparamos com uma fotografia, somos transportados para um outro tempo, aquele da lembrança. Do que acessamos nesse grande armazenamento de histórias, podemos reviver as cores que não enxergamos mais, os movimentos que a nossa estrutura óssea já não é mais capaz de reproduzir, as roupas usadas que nos causaram traumas ou nos deixaram mais confiantes, o programa que passava na televisão – e sabíamos o horário exato do início sem olhar no relógio –, o disco que aguardamos, eufóricos, ser lançado. A imagem é como aquele pagode: “ela mexe comigo e o pior que não sabe”.

    Às vezes me demoro no acervo de fotografias analógicas que o meu pai fez da nossa família. Cada vez que olho, vejo algo de novo. O que mais me encanta é que, quanto mais se olha, mais se ativa as possibilidades de olhar além daquilo que está no enquadramento escolhido pelo autor da foto. E é aí que podemos acessar imagens acústicas e os cheiros de uma época. Ter registros é um grande privilégio.

    Há três anos eu me relacionei amorosamente com uma pessoa que não tinha fotos de infância. Isso me intrigava e, ao conversar com amigos próximos, via que essa questão de não se ter imagens de uma parte importante da vida era algo que se repetia entre gerações e gerações de pessoas negras, ainda que elas tivessem 20e poucos anos de idade: a máquina, assim como a película de 35 milímetros, eram caras. E nas prioridades de despesa das famílias negras, as fotos nunca estavam na lista.

    Sempre que o 12 de outubro, dia das crianças, se aproxima uma coisa comum acontece: divulgamos nossas fotografias de quando viver era uma grande descoberta – espero não perder de vista  essa concepção enquanto viva estiver. Mas tudo era novidade em seu máximo grau: andar era uma novidade, falar, escrever, posar. Quando me deparo com as fotos dos anos 1990, tinha um olhar misterioso ali que mirava a lente, como se fosse um olhar que queria descobrir o porquê daquela coisa retangular apontar para nós, com aquela tia que ficava fazendo palhaçada atrás dela e que, após dizer “olha o passarinho”, magicamente soltava uma luz que cegava por alguns segundos. Ser fotografado era um mistério. Hoje, quando vejo parentes apontando um celular para crianças que acabaram de aprender a contagem que vai de zero a dez, me parece que elas sabem que estão sendo fotografadas: elas sorriem e olham para câmera, paradinhas. E permanecem feito estátuas até que o celular se abaixe. Algumas, é claro.

    Durante essa experiência amorosa que tive, pensávamos sobre essa imagem que falta e do quão cruel era, ao se aproximar o dia das crianças, não ter como lembrar do que se foi. Tínhamos combinado de fazer um filme sobre isso. Não fizemos. Mas sempre refletíamos sobre o que é atravessar uma vida sem saber a cor dos olhos, se brilhavam, se o tom de pele mudou, qual era o penteado que se usava aos 5 anos, se sorriu ao colocar, pela primeira vez, os pés na areia de uma praia. Se gostava de sorrir ou de chorar quando era enquadrado por uma câmera. Foi só com 18 anos que esse amor foi ter sua primeira fotografia. Antes disso, apenas remotas e fragmentadas memórias de um tempo que não foi  registrado.

    No final de semana que passou, conversei com dois amigos. Uma fotógrafa baiana, a Juh Almeida e um carioca e administrador de empresas, Wellington Mendes. Ambos negros. Wellington me disse: “sempre me indignei até com os vídeos que via no Faustão, de ‘vídeocassetadas’ de crianças. Eu não tinha nem foto e eles tinham até vídeo”. Havia ali, ainda que de maneira sutil, uma certa condição que tinha a ver não só com uma questão de classe, mas também racial: todas as crianças que aparecem nas “vídeocassetadas” exibidas na televisão são brancas. Posso até me enganar com o uso da palavra “todas”, mas não pertence ao meu imaginário, nem ao do Wellington, a imagem de crianças negras nesses quadros do famoso programa de domingo.

    A Juh têm outra história. Me disse que foi adotada aos seis meses de vida por uma outra família e que a primeira coisa que perguntou a sua mãe biológica quando foi conhecê-la, aos 12 anos de idade, foi se ela guardava fotos de quando era mais nova. O único registro foi feito quando ela tinha cinco anos de idade. Depois disso, ganhou uma câmera analógica Zenit de seu avô e nunca mais parou de registrar o mundo. “Acho que por isso eu tenho essa relação com imagem, a necessidade de me entender, entender minha história e o mundo ao meu redor.”

    Penso sobre essa imagem que falta e acredito que a história está em todos os lugares: na arquitetura de uma cidade, no crescimento de uma árvore. A história nos ajuda entender o presente e, muitas vezes, o futuro. Ainda que no âmbito individual, quando vejo uma imagem minha criança, nos gestos que fazia, no jeito que meu pai me fotografava, eu entendo muito do que sou hoje. Entendo porque tenho uma imagem que ativa a memória de onde parti. E também tem a coisa do tempo que uma foto levava até virar um registro que perdura: o filme tinha 12 ou 36 poses, não se podia apertar o botão mais de uma vez para o mesmo enquadramento. Cada pose/momento era único. E também tinha o tempo da espera, que hoje é de poucos segundos após se pressionar o botão que registra. O tempo da revelação era um enigma: às vezes não lembrávamos  mais que aquele enquadramento havia sido feito. Olhar os filmes revelados era descortinar uma história que permaneceu um tempo no escuro.

    Mas como dar conta da história sem a imagem do que se foi um dia? “Não dou conta da minha história, ainda hoje com 28 anos me dói de verdade saber que não tive registro, é como se meu nascimento não tivesse sido algo importante a ponto de ser registrado, é como você disse, eu não tenho uma foto para tomar como referência e aquele momento da minha vida ser ativado na minha memória, e é tão angustiante você saber sua história a partir da boca de outras pessoas ‘ah, você tinha um chupeta vermelha que não largava por nada’, ‘tinha um pé de acerola no nosso quintal e você adorava ficar debaixo dele brincando e cantarolando sozinha’, ‘com quatro anos você tinha um gatinho de estimação’...”

    Foi isso que a Juh revelou, contando, também, o porquê de não ter sido fotografada quando criança. “Cheguei na casa dos meus pais adotivos com seis meses de nascida. Minha mãe biológica teve quatro filhos homens e desejava ter uma filha mulher. A irmã da minha mãe biológica trabalhava como empregada doméstica na casa dos meus pais adotivos e contou que a irmã dela estava com um neném (eu) escondida do seu pai, dormindo no chão na casa da vizinha. Quando grávida, o pai dela (meu avô) a espancou no intuito de me tirar e a expulsou de casa. Então ela parou de me amamentar com seis meses e me deu. Então a partir daí eu entendi que eu não tenho fotos porque eu não tinha que ter existido, na verdade a intenção era que eu não viesse ao mundo, que fosse apagada, e quando descobri essa parte da minha história, quando conheci minha mãe biológica aos 12 anos de idade, eu senti mais forte essa necessidade de me registrar, de registrar o mundo ao meu redor.”

    Para quem muito tem de registro, pode parecer bobagem não ter imagem, mas ela interfere, também, na construção das nossas subjetividades. Ter essa memória registrada e contada pelos nossos familiares, por quem nos amou e esteve perto num momento tão precioso da vida, deveria ser um direito fundamental. Essa ausência de imagens das famílias negras em ambiente doméstico é um retrato escancarado de como as desigualdades raciais no Brasil são imensas. Há uma estrada imensa para seguir em frente produzindo imagens que não eram possíveis de serem feitas.

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    Dicas da Yasmin

    Para ver: nesta terça (17), às 19h, passam os primeiros filmes feitos no continente africano. Vai ser no Cinemaison, no Centro da cidade.

    Para observar: Variações Nina, de 7 a 21 de outubro, no Teatro Sede das Cias, na Lapa.

    Para conversar: Conceição Evaristo, dia 19 de outubro, no Dida Bar.

    Para colaborar: Feijoada Manga Com Leite, dia 22 de outubro, em Oswaldo Cruz

    Yasmin Thayná é cineasta, diretora e fundadora da Afroflix, curadora da Flupp (Festa Literária das Periferias) e pesquisadora de audiovisual no ITS-Rio (Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro). Dirigiu, nos últimos meses, “Kbela, o filme”, uma experiência sobre ser mulher e tornar-se negra, “Batalhas”, sobre a primeira vez que teve um espetáculo de funk no Teatro Municipal do Rio de Janeiro e a série Afrotranscendence. Para segui-la no Twitter: @yasmin_thayna

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