Coluna

A imagem que falta

    Nas famílias negras, registros de infância são raros. Máquinas eram caras e, nas prioridades de despesa das famílias negras, as fotos nunca estavam na lista

    A imagem é uma das ferramentas mais poderosas para se ativar a memória. Quando nos deparamos com uma fotografia, somos transportados para um outro tempo, aquele da lembrança. Do que acessamos nesse grande armazenamento de histórias, podemos reviver as cores que não enxergamos mais, os movimentos que a nossa estrutura óssea já não é mais capaz de reproduzir, as roupas usadas que nos causaram traumas ou nos deixaram mais confiantes, o programa que passava na televisão – e sabíamos o horário exato do início sem olhar no relógio –, o disco que aguardamos, eufóricos, ser lançado. A imagem é como aquele pagode: “ela mexe comigo e o pior que não sabe”.

    Às vezes me demoro no acervo de fotografias analógicas que o meu pai fez da nossa família. Cada vez que olho, vejo algo de novo. O que mais me encanta é que, quanto mais se olha, mais se ativa as possibilidades de olhar além daquilo que está no enquadramento escolhido pelo autor da foto. E é aí que podemos acessar imagens acústicas e os cheiros de uma época. Ter registros é um grande privilégio.

    Há três anos eu me relacionei amorosamente com uma pessoa que não tinha fotos de infância. Isso me intrigava e, ao conversar com amigos próximos, via que essa questão de não se ter imagens de uma parte importante da vida era algo que se repetia entre gerações e gerações de pessoas negras, ainda que elas tivessem 20e poucos anos de idade: a máquina, assim como a película de 35 milímetros, eram caras. E nas prioridades de despesa das famílias negras, as fotos nunca estavam na lista.

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    Yasmin Thayná é cineasta, diretora e fundadora da Afroflix, curadora da Flupp (Festa Literária das Periferias) e pesquisadora de audiovisual no ITS-Rio (Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro). Dirigiu, nos últimos meses, “Kbela, o filme”, uma experiência sobre ser mulher e tornar-se negra, “Batalhas”, sobre a primeira vez que teve um espetáculo de funk no Teatro Municipal do Rio de Janeiro e a série Afrotranscendence. Para segui-la no Twitter: @yasmin_thayna

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