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Coluna

A culpa do outro

    Seres humanos são péssimos julgadores da trapaça alheia

    Mês passado, falei aqui das sensacionais pesquisas de Dan Ariely, o especialista em trapaça que trapaceia em experimentos com voluntários para flagrá-los trapaceando também – e que acabou descobrindo que quase todos nós somos potencialmente trapaceiros. Mas não falei do exemplo mais interessante que ele encontrou em suas pesquisas – e talvez o mais ilustrativo do momento que vivemos no Brasil e no mundo.

    Antes, permitam-me rememorar (pule este parágrafo se você achar que não precisa): Ariely, cientista do comportamento humano da Universidade Duke, criou uma prova de matemática, com questões bem fáceis, e saiu pelo mundo pedindo a pessoas de todos os gêneros, tendências políticas, culturas, profissões, grupos sociais, raciais e etários para resolver – ao final, cada um recebe um trocadinho para cada questão respondida. Só que tem uma pegadinha: o prazo é impossível. O cronômetro regressivo toca em apenas 5 minutos, anunciando a hora de entregar as questões, e ninguém nunca consegue terminar tudo. O pesquisador então pede para o sujeito destruir a prova num triturador de papel. Em seguida, quando o cara acha que não há jeito possível de ser pego no flagra, ele tem que responder à pergunta: quantas questões você resolveu? Aí é que entra a trapaça do cientista: o triturador de papel é falso. Ele só tira umas tirinhas das laterais dos papéis, mas preserva a prova do crime intacta no meio da folha. Ariely pode então bater a realidade com o que as pessoas dizem. O resultado não deixa dúvidas: quase todos nós trapaceamos um pouco, não importa idade, nacionalidade ou classe social. Gente que não mente um tiquinho para levar vantagem é uma raridade (gente que mente muito é raridade também).

    Ariely e vários de seus orientandos e colaboradores vivem repetindo esse teste já clássico, fazendo pequenas alterações, para tentar entender que fatores aumentam as chances de trapacearmos e quais diminuem – até para ajudar a desenhar políticas públicas melhores, que desincentivem a corrupção. Numa dessas ocasiões, os cientistas realizaram o teste nas belas salas de aula da Universidade Carnegie Mellon, uma das melhores do mundo, na cidade americana de Pittsburgh. Todos os voluntários que se ofereceram para resolver as provas de matemática em nome da ciência (e também para ganhar uns trocados) eram orgulhosos e competitivos estudantes dessa prestigiosa escola.

    O pesquisador distribuiu as provas, avisou do tempo e autorizou os alunos a começarem. Eles baixaram as cabeças e obedeceram. Aí, em apenas 30 segundos, um dos alunos-cobaias levantou-se em meio à sala lotada e declarou: “já terminei. O que faço agora?” Pegou o dinheiro então na frente de todo mundo e foi embora mais cedo, satisfeito. Todos na sala sabiam que não havia meio de o colega ter resolvido todas as questões – ele só podia estar mentindo.

    Acontece que tal aluno na verdade era um ator, que havia ensaiado a performance, e que a repetiu todos os dias, várias vezes ao dia, diante da classe lotada de alunos voluntários da Carnegie Mellon. E aí? O que os cientistas descobriram a partir desse embuste? Trapaceamos mais ou menos quando vemos alguém trapaceando na nossa frente? É Dan Ariely quem responde: “Depende do moletom.”

    essa atitude só alimenta nossa tendência natural a aceitar tudo dos nossos e criticar tudo nos outros

    Explico. O ator-trapaceiro que se levantava para dizer que havia terminado às vezes trajava um blusão cor de vinho com o emblema rebuscado da própria Carnegie Mellon, mesma escola dos outros estudantes. Outras vezes, ele vestia o agasalho de moletom azul com modernas letras industriais da Universidade de Pittsburgh, outra ótima escola, do sistema público americano, cujo campus é literalmente vizinho ao da Carnegie Mellon.

    Pois então: quando os alunos achavam que o trapaceiro era de sua própria universidade, quase todo mundo avacalhava e trapaceava junto. Mas, quando eles achavam que o arruaceiro vinha da escola rival, a performance tinha o efeito oposto: os alunos praticamente deixavam de trapacear, até para afirmar a superioridade moral sobre o outro.

    O que o experimento prova é que somos terríveis em julgar as pessoas. O mesmo ato que é tolerado e até imitado quando vem de um dos nossos nos causa repulsa quando é praticado pelo “outro”. O mais incrível é que, no geral, nem sequer nos damos conta disso. Nós humanos somos competentíssimos contadores de história, capazes de criar uma narrativa perfeitamente racional que justifica nossos malfeitos e os dos nossos amigos – e uma história completamente diferente para condenar o “outro”, ainda que ele tenha feito literalmente a mesma coisa que nós.

    Trata-se de um bug no nosso cérebro: uma deficiência cognitiva. (Da qual certamente não sou imune: experimente discutir comigo os méritos do meu Corinthians para você ver.) Só isso explica que inimigos da corrupção de Dilma achem normal o governo Temer. Que defensores do direito da parada gay de ironizar Cristo sintam-se ultrajados quando um branco quebra a sacralidade de um turbante africano.

    É por isso que, para uma democracia funcionar de verdade, não basta haver regras justas – é preciso que haja também grande diversidade entre as pessoas que escrevem e aplicam as regras – uma diversidade tão grande quanto a da própria sociedade. Num país onde quase todos os juízes são brancos e quase todos os réus são negros, é praticamente inevitável que a Justiça trate com muito mais rigor aqueles que não se parecem com quem julga. Em empresas onde todos os chefes são homens e todas as mulheres são subalternas, é quase certo que as regras e a maneira como elas são aplicadas sejam mais compreensivas com eles do que com elas. Em comunidades onde a autoridade moral está com heterossexuais, não há muito como evitar que homossexuais sejam excluídos. Não que as instituições precisem refletir precisamente a composição demográfica da população, mas é preciso que haja incentivos para que elas não enxerguem partes da população como o “outro”.

    Mas isso não significa que seja desejável viver num mundo em que cada grupo seja responsável pela defesa de sua própria identidade, independentemente dos fatos. Tipo branco sempre defende branco, preto sempre defende preto; homem ajuda homem, mulher colabora com mulher; esquerda é leal à esquerda, direita aceita tudo da direita – como aliás parece ser cada vez mais a tônica do nosso mundo. Afinal, essa atitude só alimenta nossa tendência natural a aceitar tudo dos nossos e criticar tudo nos outros. No limite, ela acaba nos levando a desastres como a eleição de Donald Trump, um óbvio incapaz, sem nenhum talento político ou conhecimento de gestão pública, que acabou eleito só pelo impulso identitário. Não foi um voto em ninguém: foi um voto contra o “outro”.

    A solução tem a ver com outra característica extremamente interessante da mente humana. Ao mesmo tempo em que a natureza nos impôs esse bug terrível, ela, como é comum em processos evolutivos, nos supriu com o antídoto. Trata-se de uma das capacidades mais espetaculares do cérebro humano: a empatia, que é a habilidade do nosso cérebro de, literalmente, sentir a dor do outro. Somos espetaculares nisso, mais que qualquer outra espécie viva. Bastam uns minutos conversando com alguém com o olhar pousado no olhar dele, para o sujeito mudar de moletom. Não é mais “o outro”: é alguém como nós.

    Quando a gente finalmente parar de brigar uns com os outros e começar a fazer o trabalho necessário e urgente de redesenhar nossas instituições falidas, para mim o básico é garantir que elas sejam diversas e que estimulem o diálogo cara a cara. Só assim nos entenderemos. E entenderemos também que, neste mundo hiperconectado e interdependente, não existe mais o “outro”. O barco, agora, é um só.

    Denis R. Burgierman é jornalista e escreveu livros como “O Fim da Guerra”, sobre políticas de drogas, e “Piratas no Fim do Mundo”, sobre a caça às baleias na Antártica. É roteirista do “Greg News”, foi diretor de redação de revistas como “Superinteressante” e “Vida Simples”, e comandou a curadoria do TEDxAmazônia, em 2010.

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