Ir direto ao conteúdo
Coluna

‘Refavela’ de novo

    Álbum de Gilberto Gil faz 40 anos em 2017. Em um país que até hoje vive um racismo estrutural, o disco lançou importante conversa sobre um tema sempre jogado para a invisibilidade

    Foi em 1977 que Gilberto Gil participou do 2º Festac — Festival Mundial de Arte e Cultura Negra —;  um grande evento realizado em Lagos, na Nigéria, e que reuniu artistas negros e da diáspora negra. Lá estavam concentrados cerca de 50 mil artistas afrodescendentes, dentre eles o afrobeat Fela Kuti, que definitivamente picou Gilberto Gil, que tinha então 34 anos. Mas não só o cantor brasileiro foi “contaminado”; nesse momento, a música de base africana e diaspórica virava um fenômeno internacional. Se o jazz norte-americano já era muito conhecido, agora estourava a música cubana, os sambas, os batuques. 

    O fascínio de Gil vinha também de casa e fazia parte da bagagem pesada que o artista levava para África. Nessa época, o funk virava fenômeno, os bailes de subúrbio agitavam o Rio de Janeiro e o carnaval de Salvador passava por uma reafricanização, expressa em blocos como o Ilê Aiyê. Não por acaso Gil cantou: “Que bloco é esse, eu quero saber, é o mundo negro, que viemos mostrar pra vocês. Somo crioulo doido somo bem legal. Temos cabelo duro somo black power (…) Branco, se você soubesse o valor que o preto tem. Tu tomava um banho de piche, branco, e ficava preto também. E não te ensino a minha malandragem. Nem tão pouco minha filosofia, por quê? Quem dá luz a cego é bengala branca em Santa Luzia.”

    E tem mais. Se esse era o momento em que se descobria a realidade de uma cultura negra afroatlântica, que circulou compulsoriamente nos navios negreiros mas ganhou realidade nas colônias do Novo Mundo, era também o contexto em que se reconhecia um imaginário diaspórico, que separava, e agora unia, África, Caribe e Américas. De toda maneira, a viagem à Nigéria teve jeito de ritual de iniciação, viagem a um tempo passado, para um Gilberto Gil que afirmava, em entrevistas e depoimentos de época, não ter grande contato com a cultura negra. O fato é que o cantor brasileiro foi invadido por ela. De fora para dentro e de dentro para fora.

    E é nesse momento que nasce o álbum “Refavela”. Não há porque amarrar o disco com uma só interpretação, mas o certo é que ele trazia um argumento definido, que evocava as nossas “raízes negras” e uma narrativa, até então, pouco contada pelo cantor. Não sou crítica de música e nem ao menos acompanho uma partitura. Minha ideia aqui é, portanto, outra: apenas refletir sobre a concepção de “Refavela” e assim celebrar sua atualidade.

     

    Por vezes, a história é mesmo anacrônica, conforme arrazoa o filósofo Didi-Huberman, e manifestações musicais como essa continuam a ressoar mesmo em períodos distantes daquele que o viu nascer. Aliás, o tema do “Re”, no sentido de voltar, ver de novo, visitar uma vez mais, não era novo para Gil. O álbum “Refazenda”, que homenageava Luiz Gonzaga e a cultura popular na tradição do forró, datava de 1975. Já “Refavela”, como sabemos, sairia em 1977, sendo seguido por “Realce” no ano de 1979. O sucesso dos três lançamentos veio num crescente e seu conjunto parecia mesmo com um recuo, mas também um avanço, no tempo do Brasil.

    O álbum que hoje faz 40 anos representava uma conversa com o tema racial no Brasil; assunto por tanto tempo evitado e jogado para o lugar da invisibilidade. Nos idos da década de 1970, quando Gil lança o álbum, esse era quase um “não tema”, tal a carga de contradições e ambiguidades que envolviam a questão. Em plena ditadura militar, no período duro de Ernesto Geisel, falar sobre outras divisões, que não aquelas do mundo da política tradicional, e que implicavam pensar numa outra política, mais igualitária para os pobres, e em como a pobreza tinha raça e cor, era assunto complexo, senão “desagradável”, como então esses temas eram definidos. Por exemplo, para lidar, minimamente, com o problema agudo da habitação, o governo militar lançou programas como o BNH (Banco Nacional de Habitação) e o Sistema Financeiro de Habitação, os quais, criados em 1964, após o golpe militar, tinham como missão “estimular a construção de habitações de interesse social e o financiamento da casa própria”, mas com poupança privada. O fenômeno dos conjuntos habitacionais, distantes dos centros da cidade, correspondeu, nos termos de Gil, a uma “refavelação” simbólica, senão real; um novo fenômeno de expulsão da pobreza das cidades.

    Mas a faixa que fez o álbum estourar, e incendiou o imaginário de toda uma geração, foi aquela que deu título ao disco: “Refavela”. A provocação vinha logo do refrão que misturava o catolicismo mais profundo do “Kiriê” (e em grego Kirie Eleison significa “senhor tende piedade”) com o diálogo rasgado com a África, no “Alaiá”, na sua rota pela Espanha moura, que trazia a ideia de orgulho e perseverança. A convivência era atrevida e não se limitava ao refrão. A letra de Gil assinalava o processo de refavelação do país, que não se resumia “ao desterro no morro e na periferia”. Ao contrário, o cantor denunciava o movimento de refavelar o centro e elogiava a invasão do povo que “descia para transar”, para tornar o Rio mais “efervescente” e deixar “uma cidade a cintilar”.

    Mas nem tudo era alvissareiro no panorama anunciado também na melodia, que trazia um tom quase alegre, senão pretensamente inocente. A refavela “revela” também “o salto” do “preto pobre” que “se arranca” do seu “barraco para um bloco do BNH”. Viagem sem volta, essa via de mão dupla, típica do racismo brasileiro, que inclui e exclui, fortemente, ficava clara na letra de Gilberto Gil. Se a refavela era “tão bela”, ela também mostrava um processo perverso de favelização e de divisão da sociedade brasileira.

    Refavela era tudo junto: “uma escola, do samba, do brasileirinho, do sotaque que vira internancional”; “do black jovem à dança de salão; do baby-blue-rock” mas “sobre um povo” que é, ao mesmo tempo “chocolate-e-mel”; entre “a favela e o céu”. Refavela era, pois, sonho, alegria, alegoria, elegia e dor. Era também “medo, segredo e amor”. O movimento não pertencia portanto à lógica do OU. Era um Brasil do E que surgia escancarado na letra do cantor. Era o “batuque duro”, “o samba duro de marfim” E “a miséria com roupa de cetim”.

    Aí estava um Gilberto Gil que foi à África e voltou para ver a maravilha e a tristeza das culturas negras e afrodescendentes no Brasil; seu silêncio e seu ruído ensurdecedor. Não é necessário fazer um translado mítico, como esse,  para então regressar e estranhar a própria realidade: tornar estranho o que era até então familiar. Mas o certo é que grandes intérpretes do país tiveram que sair em exílio para depois retornar e se apalpar. Ver com outras lentes.

    “Refavela” faz 40 anos e não poderia andar mais atual. Ainda hoje no Brasil vivemos um racismo estrutural: os tantos povos africanos que entraram no país ainda padecem de uma vexaminosa obscuridade. Segundo dados do Infopen (Levantamento Nacional de Informação Penitenciária), em 2014, 67% da população carcerária do Brasil era negra; 56% entre 18 e 29 anos. Segundo estudo divulgado no “Mapa da Violência” (2016), cerca de 30 mil jovens entre 15 e 29 anos são vítimas de homicídio anualmente no país; 77% deles, negros. A taxa é quase quatro vezes superior do que a registrada entre brancos de mesma idade. A cada 23 minutos um jovem negro é assassinado no Brasil e a perspectiva de futuro também não é muito animadora. A taxa de analfabetismo entre negros (27,4%) é quase cinco vezes maior do que entre brancos (5,9%), considerando-se todas as faixas etárias (segundo o Censo de 2010). No tocante à saúde, a razão de mortalidade materna entre mulheres negras é 66% maior do que entre brancas, segundo dados do Sistema de Informação sobre Mortalidade do Ministério da Saúde. Os dados do IBGE/PNAD (2014) mostram que aqui pobreza tem mesmo cor definida: entre os 10% mais pobres, 76% são negros; já entre os 1% mais ricos, esse número cai para 15%. Isso num país em que os negros compõem mais da metade da população (53,6%).

    A pretensa imparcialidade dos números não deixa escapar a existência de um o racismo encarnado em nosso cotidiano; teimosamente presente 40 anos depois de Gil lançar seu álbum. Como escreveria Caetano Veloso, e cantaria junto com Gil, nos idos de 1993: são  “quase todos pretos, ou quase pretos, ou quase brancos quase pretos de tão pobres”. Mas, como exalta Refavela, são muito mais do que isso. Pois “não importa se os olhos do mundo inteiro possam estar por um momento voltado para o largo onde os escravos eram castigados. E hoje um batuque um batuque…”

    Ps: Para quem quiser conhecer mais (e melhor) o disco “Refavela” sugiro a leitura do excelente livro de Maurício Barros de Castro, que acaba de sair pela editora Cobogó, numa coleção charmosa chamada “O livro do Disco”.

    Lilia Schwarcz é professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças", “As barbas do imperador", “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário" e "Dicionário da escravidão e liberdade", com Flavio Gomes. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp.

    Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.

    Já é assinante?

    Entre aqui

    Continue sua leitura

    Para acessar este conteúdo, inscreva-se abaixo no Boletim Coronavírus, uma newsletter diária do Nexo: