Coluna

Àquelas que vieram antes de nós

    O que elas têm em comum é a convicção plena de que lutar é preciso, não importa a época

    Elas atravessaram um Brasil de que a gente não faz ideia. Não faz mesmo. Um Brasil que apagou Carolina Maria de Jesus, Virgínia Leone Bicudo, Antonieta de Barros, Adélia Sampaio, tantas outras que não tiveram nenhum direito de resposta e continuam apagadas. Algumas festejaram e outras foram amigas de Luiza Bairros, Lélia Gonzalez e Beatriz Nascimento. Elas viveram a ditadura militar, lutaram — e lutam até hoje — para o samba não morrer. Elas estão espalhadas por todas as regiões do país, do Oiapoque ao Chuí. Algumas vivem ou viveram em quilombos, são mulheres do campo ou das grandes metrópoles. O que elas têm em comum é a convicção plena de que lutar é preciso, não importa a época.

    Tem uma coisa que me agrada nesse diálogo entre gerações: a possibilidade de aprender com quem já fez sua travessia, está voltando do rio para atravessar outras águas. Mesmo com dores e feridas marcadas por tantas batalhas, aquelas que vieram antes de nós se dão o direito de se sentirem cansadas, e elas, cada uma a seu modo, até cuidam dos seus cansaços, mas jamais se deixam vencer por eles. Às vezes, me pego cansada. Não há mal algum nisso. Também não caio na armadilha daquele discurso batido de ter que pensar que há sempre alguém em piores condições. Isso não alivia a dor de ninguém, pelo contrário, faz com que uma ferida vire uma fratura exposta, o que nada tem a ver com o não se importar com o outro. Mas, sim, se permitir  cuidar de si mesmo. Permanecer em silêncio sem ser silenciado. Prestar atenção em estratégias alheias quando o momento político se intensifica. Quando se quer estar inteiro estando em pedaços.

    Vivemos um tempo de uma juventude que não quer deixar as ruas: seja manifestando contra as estruturas políticas governamentais, o machismo, pelo direito de amar quem se quer da forma que se é, nas rodas de rima, de saraus de poesia, no teatro, no cinema, na pintura, na música, as rodas de dança, nos coletivos. As formas de luta são muitas, assim como no passado. Este é o tempo, também, de uma juventude marcada por altos índices de mortes, a ponto de uma campanha se chamar “Jovem negro vivo”, da Anistia Internacional, que torna público e acessível os números exorbitantes de mortes da juventude negra brasileira.

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    Yasmin Thayná é cineasta, diretora e fundadora da Afroflix, curadora da Flupp (Festa Literária das Periferias) e pesquisadora de audiovisual no ITS-Rio (Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro). Dirigiu, nos últimos meses, “Kbela, o filme”, uma experiência sobre ser mulher e tornar-se negra, “Batalhas”, sobre a primeira vez que teve um espetáculo de funk no Teatro Municipal do Rio de Janeiro e a série Afrotranscendence. Para segui-la no Twitter: @yasmin_thayna

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