Ir direto ao conteúdo
Coluna

Vida animal: fatos e histórias

    O ser humano é um dos raros mamíferos que pratica a monogamia; mas e se nossa disposição fosse outra?

    Já ouviram falar no rato das pradarias? Ele vive lá nos Estados Unidos. É o único rato que só tem uma parceira, e a parceira só um parceiro, por toda a vida. O rato das pradaria está entre os 3% de mamíferos monogâmicos que existem na natureza, seres humanos inclusos, dizem os biocientistas. Prum rato monogâmico, o casamento é pra sempre, e eles nunca são pegos pulando cerca. Ou são muito habilidosos, os danados, ou realmente não pulam cerca. Parece que o castor também é assim. Vai daí que, se vocês forem a uma festa de mamíferos, já sabem: só 3% daquela turma ali é fiel no casamento. Os outros 97% tão pegando geral, machos e fêmeas igualmente. E sem grandes problemas morais ou de qualquer outro tipo.

    Já o rato de Montana, apesar de primo do rato das pradarias, é um típico rato poligâmico. Os machos alfa vivem como ídolos de rock no apogeu da carreira, cercados de groupíes, roadies e tietes alucinadas. São conclusões a que chegaram os doutores Tom Insel e Larry Young, da Universidade de Emory, nos Estados Unidos, que ficaram íntimos dos dois tipos de ratos americanos. Os caras conseguiram isolar e extrair os genes da monogamia do rato das pradarias e injetá-los nuns ratos e ratazanas de Montana que passavam distraídos pelo laboratório a caminho do motel mais próximo pruma mais do que provável surubinha.

    E não é que os ratos de Montana largaram aquela vida louca de baladas poligâmicas e passaram a namorar firme? E sexo, só depois do casamento. Acasalados para todo o sempre, na saúde e na doença, na poupança ou no cheque especial, tiveram muitos ratinhos, herdeiros eles também do gene monogâmico, revelando-se também pais extremados. Os machos nunca mais correram atrás de um rabo de saia. E as fêmeas não aceitaram mais convites prum chopinho borbulhante de segundas intenções pra depois do expediente. É o que afiançam Tom Insel e Larry Young, que procuram agora financiamento pra realizar o experimento inverso, injetando os genes poligâmicos do rato de Montana nos monogâmicos ratinhos das pradarias. A pasmaceira doméstica nas pradarias pode estar com os dias contados.

    (Arpejo de harpa indicando passagem do tempo.)

    Algum tempo depois das pesquisas relatadas acima, um marido chega bêbado em casa, num desalinho de pantomima, com beijos batonados espalhados pela cara e colarinho. Tira roupa e sapatos na sala, sentado num sofá pra não cair. Fica só de cueca samba-canção vintage, onde se vêem outras nítidas marcas de batom. As roupas dele ficam jogadas pelo chão, poltronas e sofás. Se reparasse bem, veria que há outras roupas ali também, de vários homens e mulheres, inclusive um uniforme azul-marinho de polícia. Há também copos, taças e garrafas de vinho e cerveja vazias pelo chão e mesas. Mas o marido não tem condições de reparar bem em nada disso nessa hora.

    Claudicante, o marido entra de mansinho no quarto escuro do casal. Tateia na penumbra até encontrar sua cama. Tenta se acomodar ao lado da esposa, mas topa com um corpo estranho no lugar que deveria ser o seu. Quando seus olhos se acostumam com a penumbra, o marido se certifica de que o corpo estranho pertence a um homem, um homem que dorme de ressonar, de barriga pra baixo, cara volta pra sua esposa, também nocauteada pelo sono, mas de barriga e peitos nus pra cima.

    "Mas que carácoles de miércoles tá acontecendo aqui?", diz o marido em voz alta, ao mesmo tempo que acende a luz do abajur. Ele nota que o estranho em seu ninho veste um pijama com o monograma T.I. no bolso do coração.

    "Mas... é o meu pijama de seda...", constata o marido, consternado.

    A esposa aos poucos vai se arrancando do lamaçal onírico. Sonada, balbucia:

    "Tom?.... É você, querido?"

    "Rosalyn, quem é esse homem na nossa cama? E o que ele tá fazendo com o meu pijama de seda chinesa, que eu comprei no freeshop do aeroporto de Xangai?"

    Rosalyn olha pro homem ao seu lado, e recua o rosto, alvejada pelo bafo de onça do sujeito. Daí, ergue um pouco o tronco, apoiando-se nos cotovelos, e franze o cenho, concentrada em acessar a memória recente:

    "Acho que é o síndico. Sim, sim, é o síndico."

    "O síndico? O síndico aqui do prédio? Mas, Rosalyn.... o que é que vocês estavam fazendo aqui? Uma reunião de condomínio, por acaso?"

    "Exato," é a resposta, mas que não sai da boca de Rosalyn. A voz é de homem e parece vir debaixo da cama. O mais chocante, porém, é que a voz soa escandalosamente familiar aos ouvidos de Tom. Rosalyn dá uma risadinha galhofeira, enquanto Tom assiste a outro homem, um cinquentão rechonchudo e grisalho, também de cueca, saindo debaixo da cama. Os olhos de Tom parecem a ponto de saltar das órbitas:

    "Larry?! Larry Young!", exclama Tom, ajudando seu colega a se erguer e sentar na beira da cama. Quando se recupera da espantosa surpresa, Tom comenta:

    "Pelo visto tava bem animada essa reunião...."

    "Animadíssima!", irrompe uma voz feminina de dentro do armário embutido.

    Num salto de espadachim, Tom estica o braço e abre uma das portas do armário embutido que recobre toda uma parede lateral do quarto. Lá dentro, ele flagra uma mulher peladíssima debaixo de seus ternos e paletós e moletons e camisas pendurados na arara interna do armário.

    "A senhora?!.... comissária Jennifer?!...."

    "Não precisa me chamar de comissária," diz a parruda e musculosa ruiva, moradora do 171-B. "Não estou de uniforme agora, estou? Tampouco estou dando expediente no distrito, até onde posso ver."

    A comissária Jennifer, de pé agora, parece aos olhos de Tom um pouco menos volumosa do que de uniforme, embora igualmente autoritária. Sem mais comentários, a comissária Jennifer, ou só Jennifer, arranja um lugar na cama, ao lado do síndico inerte em seu sono pétreo e de Larry, que, sonolento, também resolveu se alongar no leito conjugal, com os pés voltados pra cabeceira, compondo uma estranha colherinha invertida com a comissária Jennifer.

    Tom coça a cabeça tentando entender o que está acontecendo ali:

    "Larry, vem cá: você por acaso aplicou os genes poligâmicos dos ratos de Montana, modificados com mitocôndrias humanas, no síndico aqui do prédio e na minha vizinha, a cômi.... a Jennifer?"

    "E mais nesses aí, ó!", responde Larry, soprando o dedão e o dedo médio armados em apito em sua boca.

    É a senha para que várias pessoas, em variados graus de nudez, saiam pela mesma porta aberta do armário, um atrás do outro, de forma serena, sem afobação ou constrangimento. São homens e mulheres, alguns na casa dos trinta, a maioria quarentões e cinquentões, todos condôminos do mesmo edifício, como Tom observa, não sem razoável espanto. O senegalês do 198-A, professor de física aplicada na mesma Universidade de Emory, ali em Atlanta, não consegue esconder uma olímpica ereção, e a loira fatal do 165-C, mulher de um técnico de futebol americano da terceira divisão, não consegue, por sua vez, esconder seu grande interesse pela dita ereção senegalesa.

    "Mas, Larry, você me faz um experimento dessa magnitude com o GRMMMH, aqui no meu prédio, sem me avisar? Pô, Larry!"

    "Você anda tão absorto com as suas estagiárias ucranianas, naquela sua pesquisa sobre reprodução eroticamente assistida, no lab 2, que nem dá mais a menor pelota pro que se passa no nosso velho lab 1, meu caro Tom."

    Tom Insel procura processar as novas informações, ainda um tanto atônito:

    "Quer dizer, então, que o meu prédio virou uma extensão do lab 2, Larry?"

    "Exatamente, Tom. Há seis meses já. O seu prédio virou nosso laboratório de campo. E, modestamente, o experimento está sendo um sucesso absoluto. Provamos que o GRMMMH, que nós já tínhamos aplicado satisfatoriamente em nós mesmos, tem, de fato, uma abrangência universal. A humanidade está a um passo de abandonar definitivamente a velha e ultrapassada monogamia."

    Tom volta-se agora pra esposa, que fechou de novo os olhos:

    "E você, hein, dona Rosalyn Insel? Virou ratinha de laboratório agora, e não me disse nada!"

    "Você estava em Xangai, querido. Não estava?", responde Rosalyn, de olhos fechados e sem nenhuma intenção de prolongar o assunto.

    Lúcido agora, depois daquele choque de realidade, Tom tenta dar um sentido racional àquela avalanche de novidades contraditórias:

    "Mas.... se vocês estão sob o domínio dos genes poligâmicos dos ratos de Montana, porque essa comédia de se esconder no armário embutido, debaixo da cama, feito amantes pilhados em flagrante adultério? Que coisa mais antiga!"

    "São justamente resquícios dos velhos comportamentos da era monogâmica, meu caro. Assim como membros-fantasma de um paciente amputado. No caso, os genes do pudor burguês e da possessividade monogâmica é que foram amputados."

    Rosalyn implora:

    "Tom, apague esse abajur e venha pra cama, pelamordedeus. E vocês também," comanda Rosalyn para os demais condôminos, que correm a se aninhar na cama, num enrosco coletivo próprio dos ratos de Montana em seu ninho, lá nas Montanhas Rochosas.

    Tom dá de ombros, apaga o abajur e busca um lugar na cama apinhada de gente, tomando cuidado pra não ficar muito próximo do priápico professor senegalês de física aplicada. Vai saber onde ele pretende aplicar aquilo tudo durante a noite.

    Reinaldo Moraes estreou na literatura em 1981 com o romance Tanto Faz (ed. Brasiliense) Em 1985 publicou o romance Abacaxi (ed. L&PM). Depois de 17 anos sem publicar nada, voltou em 2003 com o romance de aventuras Órbita dos caracóis (Companhia das Letras). Seguiram-se: Estrangeiros em casa (narrativa de viagem pela cidade de São Paulo, National Geographic Abril, 2004, com fotos de Roberto Linsker); Umidade (contos , Companhia das Letras, 2005), Barata! (novela infantil , Companhia das Letras, 2007) , Pornopopéia (romance , Objetiva, 2009) e O Cheirinho do amor (crônicas, Alfaguara, 2014). É também tradutor e roteirista de cinema e TV.

    Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa Equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project. Saiba mais.

    Mais recentes

    Você ainda tem 2 conteúdos grátis neste mês.

    Informação com clareza, equilíbrio e qualidade.
    Apoie o jornalismo independente. Junte-se ao Nexo!