Coluna

Um drinque no nirvana

    O dry martini, explica o Aníbal, é um drinque de aparente simplicidade, mas que esconde nas entranhas de seus ingrediente principais, bem como na arte do seu preparo, toda uma riqueza gustativa que faz dele o rei absoluto dos drinques universais

    Eu tenho um amigo, tu tens um amigo, ele tem um amigo. Todos temos um amigo, mas o meu amigo cultiva o hábito cinematográfico de tomar dry martini em bar americano de hotel. Mas não qualquer hotel. Tem que ser algum dos mais sofisticados e caros hotéis de São Paulo e de qualquer outra parte do mundo onde ele esteja. E não por uma questão de status, mas sim por causa da qualidade das bebidas envolvidas no dry martini e da perícia técnica dos barmen desses lugares. Sim, meu amigo é um cara metidaço pra caramba quando se trata de encher o caneco. E, não, ele não é rico. É só metido mesmo. Não vou dizer o nome dele, mas chamê-mo-lo de Aníbal, tomando de empréstimo uma mesóclise ao Michel Temer, grande poeta constitucionalista, presidente interino acusado de afanar milhões da Petrobrás e de sei lá mais donde, e esposo, segundo a lei de Deus e dos homens, da linda e recatada dona Marcela, 145 anos mais jovem que ele. (Inveja! Inveja! Inveja!)

    Sem uma Marcela de trança rapunzélica pra chamar de sua, meu amigo Aníbal vai ao bar do hotel sozinho, abanca-se junto ao balcão, e, em meio a viajantes sem vínculo com a cidade, senão mesmo com o país, pede o primeiro dry martini e fica ali bestando e se embriagando sem pressa nem alarde, em plácido colóquio consigo mesmo. Trata-se, segundo ele, de um exercício de "introspecção dionisíaca" que leva a estágios superiores de iluminação nirvânica, antes da ressaca infernal no dia seguinte. Inferno e paraíso, afinal, são só duas faces da mesma moeda.

    Mesmo sob o risco de ferir as suscetibilidades profissionais do barman, o Aníbal sempre especifica como deve ser preparado o seu drinque. Pra começar, o gin (com n, se me permitem)  deve ser o Tanqueray (o Special Dry, com 47.3% de gradação alcoólica), inglês de origem, mas produzido há 7 décadas na Escócia porque o seu Adolfinho Hitler fez o favor de explodir a fábrica londrina durante os bombardeios que despejou sobre a capital britânica durante a Segunda Guerra Mundial. O vermute branco seco, flavorizante essencial do drinque, há de ser, por força de lei divina, o Noilly Prat, francês, da região de Marselha. E o flavorizante secundário, que certos puristas preferem dispensar, tem que a Angustura, um bitter feito em Trinidad, Tobago, de acordo com uma receita criada no século 19 por um médico alemão radicado na Venezuela.

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    Reinaldo Moraes estreou na literatura em 1981 com o romance Tanto Faz (ed. Brasiliense) Em 1985 publicou o romance Abacaxi (ed. L&PM). Depois de 17 anos sem publicar nada, voltou em 2003 com o romance de aventuras Órbita dos caracóis (Companhia das Letras). Seguiram-se: Estrangeiros em casa (narrativa de viagem pela cidade de São Paulo, National Geographic Abril, 2004, com fotos de Roberto Linsker); Umidade (contos , Companhia das Letras, 2005), Barata! (novela infantil , Companhia das Letras, 2007) , Pornopopéia (romance , Objetiva, 2009) e O Cheirinho do amor (crônicas, Alfaguara, 2014). É também tradutor e roteirista de cinema e TV.

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