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Coluna

Um óvni ao cair da noite

    Alguém falou em óvni. Outro, mais americanizado, tinha certeza que se tratava de um ufo. Todo mundo na rua parou pra ver aquilo. Motoristas brecavam seus carros e punham a cabeça pra fora da janela

    Era aquela hora em que já ficou muito tarde pra se aproveitar o dia, e ainda é muito cedo pra se cair na noite. A gente fazia o possível pra relaxar tomando uma cerveja no finzinho de uma tarde muito quente no Centro-Oeste do Brasil, depois de um dia inteiro mourejando sob o potente sol matogrossense. A conversa na mesa devia borboletear em torno de amenidades, agora que o calor começava a arrefecer e a breja glacial descia como dádiva carbonatada por nossas goelas secas.

    Mas o Marco logo veio com o relato de um crime horrendo ocorrido uns dois anos antes naquela mesma rua, a menos de 50 metros da nossa mesa de calçada em frente ao bar. Não era bem esse o meu conceito de "amenidades". Ok, não cheguei a engasgar com a cerveja, nem com o amendoim que eu degustava, mas preferia não ter ouvido aquela barbaridade bem na happy hour.

    Não vou contar aqui do que se trata. Não por ser coisa horrenda demais - e era. Mas só porque já contei esse lance aqui mesmo no Nexo, numa crônica intitulada "Fronteira das almas", que taí no site do jornal, ao alcance de dois cliques. Faltou dizer que, dias depois dessa viagem aos confins do Brasil, já de volta a São Paulo, recebo um e-mail com um link prum vídeo mostrando com acabrunhante nitidez a tragédia mencionada pelo Marco.

    Alguém que passava por ali à luz do dia teve a pachorra mórbida de sacar o celular e gravar a cena insana, que foi parar na internet, desaguadouro natural dos tesouros e misérias da civilização. Tremendo snuff movie. Se não me engano, foi o Marco quem pescou a sequência e a despachou pro Joca, que a repassou pra mim. Consegui ver uma vez só e logo apaguei o e-mail do Joca com o link sangrento. Garanto que nenhum ser dotado de pescoço se sentiria confortável vendo aquilo.

    Esse Marco, como você poderá ler na crônica que citei, se já não leu, era o que a gente chama de produtor local, espécie de cicerone e abre-alas da nossa enxuta equipe de filmagem naquelas paragens. A equipe: Lia Kulakauskas, a diretora; Chico Orlandi, o cinegrafista e diretor de fotografia; André Bomfim, o homem do som; e eu, o improvisado apresentador. Mais o nosso entrevistado, claro, o escritor Joca Terrón, no caso, que tinha morado na infância naquela pequena cidade na fronteira com o Paraguai. Só pra relembrar, a gente tinha ido até lá gravar um episódio da série sobre literatura brasileira, o "Viagem de bolso," produzido pela Mira Filmes e que deverá passar o ano que vem no Cine Brasil TV, um canal a cabo dedicado a documentários nacionais.

    À mesa do bar, naquele dia, estava esse povo aí, menos Chico e Lia, que tinham ido "empinar a pipa," como eles chamam os sobrevoos de drone equipado com uma goPro operada por controle remoto. Eles têm empinado aquela pipa em todas as cidades brasileiras, de todos os quadrantes, onde sentamos na praça nos últimos 10 meses. As cidades foram escolhidas por ambientarem as tramas literárias de 13 autores nacionais bem vivos e atuantes no teclado alfalinguístico. As tomadas aéreas com o drone pilotado por Chico são uma das marcas visuais da série.

    Chico e Lia sempre operam o simpático quadricóptero ao raiar do sol, antes das entrevistas com o autor. E também no fim do dia, quando o entrevistado e eu tiramos os microfones de lapela e, junto com o André do som, damos o dia de trabalho por encerrado. Não raro, nesse momento libertador, erguemos os olhos ao céu e imploramos por uma cervejinha. Até aqui o céu não tem deixado de atender às nossas súplicas, enviando-nos sempre um garçom munido de latinhas ou garrafas geladas nas onze cidades que já visitamos, de Belém do Pará a Porto Alegre, passando por São Paulo e Rio.

    Lembro que, depois do caso chocante relatado pelo Marco, só histórias cabeludas e salpicadas de sangue rolaram na mesa daquele bar, a maioria delas narradas pelo nosso loquaz e um tanto satânico produtor. Difícil relaxar ouvindo aquilo, depois de um longo dia de labuta.

    Pra se ter uma ideia, um desses "causos" dava conta de uma festa de casamento unindo duas famílias importantes da cidade. Com o ágape ainda rolando numa pousada à beira do rio Apa, os recém-casados embarcaram num monomotor e decolaram da pista local rumo à lua de mel. O aviãozinho passou em voo rasante sobre os animados convivas, que se despediram dos noivos com uma salva de palmas.

    Segundos depois, ouviu-se um estrondo e uma bola de fogo se ergueu nos ares à vista de todos. O avião, sem potência no motor pra ganhar altura, caiu de bico num pasto, transformando o casamento num trágico funeral.

    Não bastasse a levada mórbida do papo na mesa, um sujeito ainda estaciona seu carro no meio-fio, defronte ao bar, e aciona uma enfiada de atrozes forrós sertanejos num volume capaz de provocar fissuras na crosta terrestre, pra não falar dos meus pobres tímpanos. Juro que me deu ganas de protagonizar ali mais uma pavorosa história de homicídio pro Marco contar aos futuros visitantes de Bela Vista.

    A minha hora-feliz parecia definitivamente infelicitada quando algo como uma bandeja sustentada por luzes azuis e vermelhas surgiu nas alturas e veio descendo lentamente sobre a nossa mesa.

    A surpresa foi geral e total. Nas mesas em volta, pessoas se levantavam, preparando-se pruma fuga emergencial. Outros sacaram seus "celufotolares" pra registrar o objeto voador, que não parava de se aproximar de nós. Alguém falou em óvni. Outro, mais americanizado, tinha certeza que se tratava de um ufo. Todo mundo na rua parou pra ver aquilo. Motoristas brecavam seus carros e punham a cabeça pra fora da janela. Assassinos se esqueceram de trucidar suas vítimas, encantados, eles também, com as luzes coloridas que desciam mansas sobre a nossa mesa num zumbido elétrico. E, suprema felicidade, o cara do carro sonoro cortou a música detestável, talvez pra não provocar alguma reação violenta dos alienígenas em visita à Terra.

    Ufa! Viva o ufo, suspirei.

    Marco, Joca, André, o chofer da van e eu não demoramos a sacar que aquilo só podia ser o drone do Chico. Sob a supervisão da Lia, ele tinha levantado voo numa praça vizinha e nos localizado pelo monitor da câmera a bordo. E resolveu nos propiciar aquele showzinho ufológico. Quando o drone estava baixo o suficiente pra ser identificado por todos, as luzes se puseram a piscar, com as cores se alternando. A galera deslumbrada exalou um "Oooohhhh!" em perfeito uníssono. O drone, comandado à distância, fez uns volteios e até umas mesuras pra gente. O Chico é mesmo um craque.

    Quando ele e a Lia apareceram finalmente pra degustar a merecidíssima breja espumante, com o drone já acondicionado na van, a conversa na mesa girava sobre as maravilhas repentinas que cada um ali já presenciara na vida. O motorista da van, por exemplo, contou sobre uma onça que lhe apareceu de inopino no meio do mato, não longe dali. Era uma baita onça, ele garantiu, e estava tão próxima que ele pôde sentir o bafo do bicho - o lendário bafo de onça. Mas a onça, que parecia tão surpresa quanto o homem, deu meia volta e foi cuidar da vida. Já o nosso atual chofer teve de jogar calça e cueca fora, e tomar um banho de rio.

    Outros relatos do mesmo teor lúdico-maravilhoso vieram à baila. O luminoso óvni do Chico tinha salvo a minha noite. De alma leve, deixamos cadáveres e garrafas para trás e tocamos pro jantarzinho caseiro que nos esperava na pousada. Como poderia ter dito Gilberto Gil, óvnis sempre hão de pintar por aí.

    Reinaldo Moraes estreou na literatura em 1981 com o romance Tanto Faz (ed. Brasiliense) Em 1985 publicou o romance Abacaxi (ed. L&PM). Depois de 17 anos sem publicar nada, voltou em 2003 com o romance de aventuras Órbita dos caracóis (Companhia das Letras). Seguiram-se: Estrangeiros em casa (narrativa de viagem pela cidade de São Paulo, National Geographic Abril, 2004, com fotos de Roberto Linsker); Umidade (contos , Companhia das Letras, 2005), Barata! (novela infantil , Companhia das Letras, 2007) , Pornopopéia (romance , Objetiva, 2009) e O Cheirinho do amor (crônicas, Alfaguara, 2014). É também tradutor e roteirista de cinema e TV.

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