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Coluna

Transumanos do mundo, uni-vos!

    Uma crônica sobre a jovem Lepht Anonym e a expansão das potencialidades humanas na era digital

    A doce Lepht Anonym, cujo nome real desconheço, é uma jovem escocesa que costumava se identificar como cyberpunk e hacker da pá virada. Hoje, ela prefere se definir como uma adepta teórica e prática do transumanismo, que é uma espécie de filosofia segundo a qual todos podemos e deveríamos expandir as potencialidades cognitivas e perceptivas do nosso corpo por meio da tecnologia digital de ponta. Mas não se trata apenas de lançar mão de computadores pessoais avançados e smartphones incríveis alimentados com aplicativos prodigiosos, e sim de instalar os componentes eletrônicos desses aparelhos diretamente no corpo.

    Pelo menos é o que Lepht Anonym propõe em seu bombadíssimo blog com mais de 600 mil acessos, o “Sapiens Anonym”, cujo lema é: "Meu mundo tornou-se um labirinto de placas de metal, portas lógicas e opiáceos." Em inglês a frase é mais divertida, pois é toda aliterativa. Labirinto (maze/mêize), placas (plates/plêits) e opiáceos (opiates/opiêits) formam sonoridades curiosas na língua de Bill Shakespeare.

    Pra se investir da condição de transumana, dotada de um corpo hightech, nossa cyberpunkinha submete-se a cirurgias domésticas altamente dolorosas para implantar microchips e ímãs em seu corpo, de modo a que se conectem à circuitaria nervosa, ampliando sua capacidade de interagir com o ambiente digital em que vivemos. As fotos dessas cirurgias toscas, disponíveis no site, são puro gore. Prato cheio pra masoquistas. Não é à toa que a garota necessita de opiáceos pra segurar a barra. Mas ela acha que os resultados compensam.

    O chip do cartão de crédito que ela traz implantado na mão, por exemplo, através de uma incisão realizada com a ajuda de uma amiga de estômago forte, permite que ela faça pagamentos simplesmente aproximando a mão da maquininha. E os ímãs encravados nas pontas dos dedos permitem-lhe sentir a distância entre suas mãos e a coisas - as de metal, de preferência, suponho eu.

    Um garoto imaginativo e sacana do fundão da quinta série com certeza teria uma ideia ou duas a respeito de chips indutores de ereções instantâneas e duradouras para implantar no pênis. De quebra, tais chips proporcionariam um aumento da amplitude e da intensidade dos orgasmos. E, se um pênis com tecnologia digital embarcada, deparar-se com uma vagina igualmente chipada, ambos os pombinhos conhecerão píncaros pós-pornográficos de prazer erótico ainda não experimentados pela reles humanidade pré-transumana de carne e osso. Sem contar que a transa propriamente dita pode-se dar por conexão remota, via internet. Um reles smartphone poderá virar uma caliente alcova libertina das mil e uma noites.

    Vale especular também que um pênis chipado poderia servir a outros misteres do dia a dia, como joystick pra games, cartão de crédito, mouse sem fio, controle remoto da TV e de outros aparelhos eletrônicos, e por aí vai. E quem sabe se nesse "por aí vai" não se incluiria algum aplicativo embutido no chip genital que servisse de anticoncepcional masculino e neutralizador de vírus e bactérias. Adeus abortos, aids, sífilis e companhia.

    Meu receio nisso tudo é que, além da degenerescência natural que a idade vai nos impondo, essa história de transumanismo da era digital nos condenará também à obsolescência tecnológica das próteses digitais instaladas em nosso corpo. Que Lepht Anonym 10.0 vai querer papo com um pobre cyborg 2.0 que não atualiza seus chips e aplicativos há, digamos, três anos?

    O lado bom da história é que essa expansão digital das potencialidades humanas talvez faça tetraplégicos andarem, cegos verem, brochas empinarem o pirilau e cardíacos, diabéticos e portadores de insuficiências renais se preocuparem apenas em trocar periodicamente a bateria de seus corações, pâncreas e rins plugados a dispositivos eletrônicos. Na verdade, parte desses prodígios já está ao alcance de quem puder pagar por eles.

    De minha parte, eu me contentaria com lentes de contato kinográficas, capazes de transformar a visão em texto, de forma automática, sem que você precise digitar ou ditar coisa alguma. O aplicativo que faz a interface entre as retinas chipadas e o processador de texto disporia de um cabedal infinito de palavras em todas as línguas, como um mega dicionário digital. Isso eliminaria uma das coisas mais chatas para um escritor preguiçoso como eu, que são as descrições, sobretudo de coisas, mecanismos e ambientes complexos.

    Pegue o Partenon, por exemplo, o templo da deusa Palas Atena, em Atenas. Puxe umas imagens desse monumento clássico do século 5 a.C no seu computador e tente descrevê-lo em detalhes. Pedreira. Com as lentes kinográficas, bastaria olhar praquilo e logo um texto descritivo se produziria em tempo real dando conta das particularidades arquitetônicas daquele templo dórico dotado de 8 colunas frontais e 17 laterais, sendo que todas as medidas do grande edifício seguem o coeficiente de 9:4. Tal coeficiente, o texto automático seguiria explicando, governa as proporções verticais e horizontais do edifício, assim como o espaço entre as colunas e sua altura.

    Que tal? Mesmo sem entender bulhufas de arquitetura, e menos ainda de coeficientes e proporções, eu poderia, sem nenhum esforço, deitar no papel uma descrição técnica e erudita como essa. Milagre. Estaria resolvida minha falta de saco pra descrições, abrindo espaço em minha mente pro que realmente me interessa na escrita literária, que são as ações dos personagens e suas elucubrações internas. E com a vantagem de que as imagens das coisas e lugares que deram origem às descrições verbais ficariam gravadas na memória do sistema, como contraprova irrefutável do que se lê no texto.

    Quem sabe, me ocorre agora especular, se a literatura do futuro não transitará, de alguma forma, por esse tipo de tecnologia que permite a ampliação das portas da percepção, como diria o escritor inglês Aldous Huxley, que, no entanto, buscava tais expansões via bagulhos químicos, como a mescalina.

    Lepht e sua turma cyberpunk transumanista querem ir além. O lance deles é turbinar com chips poderosos toda a circuitaria nervosa e neural de seus corpos. E tudo na base do faça você mesmo. Cientistas, como o neurocirurgião brasileiro Miguel Nicolelis, já vêm fazendo isso em caráter experimental com seus pacientes, em sofisticados laboratórios e centros cirúrgicos. Eles implantam chips nos cérebros das pessoas capazes de enviar comandos ao exoesqueleto que sustenta o corpo de um tetraplégico, digamos, ou ao braço artificial de um maneta, restituindo-lhes a capacidade de locomoção e as funções básicas do membro amputado.

    Quem viver, verá. E se chipará, como já faz a Lepht Anonym, desfrutando do admirável mundo novo do transumanismo, pra citar outra obra do Huxley. 

    De modo que chip-chip, tchau-tchau.

    Reinaldo Moraes estreou na literatura em 1981 com o romance Tanto Faz (ed. Brasiliense) Em 1985 publicou o romance Abacaxi (ed. L&PM). Depois de 17 anos sem publicar nada, voltou em 2003 com o romance de aventuras Órbita dos caracóis (Companhia das Letras). Seguiram-se: Estrangeiros em casa (narrativa de viagem pela cidade de São Paulo, National Geographic Abril, 2004, com fotos de Roberto Linsker); Umidade (contos , Companhia das Letras, 2005), Barata! (novela infantil , Companhia das Letras, 2007) , Pornopopéia (romance , Objetiva, 2009) e O Cheirinho do amor (crônicas, Alfaguara, 2014). É também tradutor e roteirista de cinema e TV.

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