Coluna

Tonho nas nuvens

    Uma crônica sobre a história de Salvador, Gregório, Vieira e um grande escritor, Tonho

    Era pra ser uma das experiências mais bizarras da minha vidinha de escritor. E de amigo de escritores, sobretudo. A coisa começou na semana passada, em Salvador, onde eu tinha ido entrevistar a escritora Ana Miranda, autora do ótimo romance "Boca de inferno", uma ficção inspirada em fatos históricos, mas sobretudo na linguagem praticada no século 17 na Bahia pelos usuários desta língua que Portugal nos legou e que por estas plagas acabou se multiculturalizando radicalmente.

    O apuro no trato da linguagem se impunha sobremaneira ali, pois que dois dos mais importantes personagens do livro são o poeta Gregório de Matos e o Padre Vieira, reis absolutos da poesia e da prosa seiscentistas no Brasil. Gregório, mulherengo incorrigível, com sua brilhante produção poética satírica e fescenina, além da lírica e da religiosa, e Vieira, com seus Sermões, cuja maestria no manejo do idioma valeu-lhe o epíteto de "imperador da língua portuguesa", atribuído por Fernando Pessoa, comparecem na trama de "Boca do inferno" com o inigualável estro barroco que os caracteriza, ora reproduzido, ora replicado pela autora no romance. Quem não leu, faça-se o favor de ler imediatamente.

    Antes de mencionar a tal experiência bizarra, digo apenas que esse negócio de sair por uma cidade com tanta história como Salvador, primeira capital da nova colônia portuguesa, no encalço de dois escritores mortos há mais de 300 anos, mexeu o seu tanto comigo. E não só por eu ter certa intimidade, enquanto leitor, com o poeta priápico e o pregador politizado. Mas simplesmente porque, ali, pra mim, eles eram dois mortos-vivos. Vivíssimos, até.

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    Reinaldo Moraes estreou na literatura em 1981 com o romance Tanto Faz (ed. Brasiliense) Em 1985 publicou o romance Abacaxi (ed. L&PM). Depois de 17 anos sem publicar nada, voltou em 2003 com o romance de aventuras Órbita dos caracóis (Companhia das Letras). Seguiram-se: Estrangeiros em casa (narrativa de viagem pela cidade de São Paulo, National Geographic Abril, 2004, com fotos de Roberto Linsker); Umidade (contos , Companhia das Letras, 2005), Barata! (novela infantil , Companhia das Letras, 2007) , Pornopopéia (romance , Objetiva, 2009) e O Cheirinho do amor (crônicas, Alfaguara, 2014). É também tradutor e roteirista de cinema e TV.

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