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Coluna

Tonho nas nuvens

    Uma crônica sobre a história de Salvador, Gregório, Vieira e um grande escritor, Tonho

    Era pra ser uma das experiências mais bizarras da minha vidinha de escritor. E de amigo de escritores, sobretudo. A coisa começou na semana passada, em Salvador, onde eu tinha ido entrevistar a escritora Ana Miranda, autora do ótimo romance "Boca de inferno", uma ficção inspirada em fatos históricos, mas sobretudo na linguagem praticada no século 17 na Bahia pelos usuários desta língua que Portugal nos legou e que por estas plagas acabou se multiculturalizando radicalmente.

    O apuro no trato da linguagem se impunha sobremaneira ali, pois que dois dos mais importantes personagens do livro são o poeta Gregório de Matos e o Padre Vieira, reis absolutos da poesia e da prosa seiscentistas no Brasil. Gregório, mulherengo incorrigível, com sua brilhante produção poética satírica e fescenina, além da lírica e da religiosa, e Vieira, com seus Sermões, cuja maestria no manejo do idioma valeu-lhe o epíteto de "imperador da língua portuguesa", atribuído por Fernando Pessoa, comparecem na trama de "Boca do inferno" com o inigualável estro barroco que os caracteriza, ora reproduzido, ora replicado pela autora no romance. Quem não leu, faça-se o favor de ler imediatamente.

    Antes de mencionar a tal experiência bizarra, digo apenas que esse negócio de sair por uma cidade com tanta história como Salvador, primeira capital da nova colônia portuguesa, no encalço de dois escritores mortos há mais de 300 anos, mexeu o seu tanto comigo. E não só por eu ter certa intimidade, enquanto leitor, com o poeta priápico e o pregador politizado. Mas simplesmente porque, ali, pra mim, eles eram dois mortos-vivos. Vivíssimos, até.

    Eis a verdade: eu sentia na alma e nos ossos a presença quase palpável daqueles fantasmas nos locais por onde os dois perambularam: a Quinta do Tanque, onde Vieira se recolhia pra escrever; o Colégio dos Jesuítas, atual Faculdade de Medicina, em que Gregório estudou e Vieira deu aula; o Palácio Rio Branco, antiga sede do governo, um edifício iniciado por Tomé de Sousa em meados do século 16 no Terreiro do Paço e que foi ocupado por alguns anos no século 17 pelo despótico Antônio de Sousa, cognominado de Braço de Prata, o vilão maneta do livro de Ana Miranda; o Engenho do Matoim, hoje um projeto não efetivado de museu, no Recôncavo baiano, a uns 50 km de Salvador, com sua casa grande, igreja e as ruínas do engenho datando do século do descobrimento, entre outros marcos históricos da Bahia.

    Por toda parte em meu périplo soteropolitano e reconcaviano eu registrava a presença daqueles fantasmas, e não só das ilustres assombrações do poeta pegador e do jesuíta pregador, mas também dos escravos saídos tanto do clássico de Ana Miranda, quanto de outro livro, "Um defeito de cor," de outra Ana, a Ana Maria Gonçalves, romanção de quase mil páginas que eu também acabara de ler, e que mergulha em profundidade na alma e no cotidiano dos negros e mulatos da Bahia colonial. Te juro que, no fundo da batucada incessante no turístico Pelourinho, eu podia ouvir os gritos dos supliciados no tronco e o estalo do pescoço dos enforcados no patíbulo. Não tem nada como a literatura pra bagunçar o coreto de uma cabeça sugestionável como a minha.

    Sei que estou protelando vergonhosamente a entrada definitiva no assunto principal da crônica, mas, pra isso, tenho que destacar aqui a presença de outro morto ilustre cuja aura pairava sobre Salvador naquele momento. Suas cinzas, aliás, ainda estavam lá no forno crematório da cidade, como vim a saber por um telefonema da minha mulher.

    Esse novíssimo defunto que cito aqui foi também um grande escritor, veja só. Às vezes acho que vivo numa república de escritores, cujos leitores se tornam escritores, eles também, por força de lei. Além de contista genial, Antônio Carlos Viana, esse o nome dele, era um amigo querido. Minha mulher tinha sido editora de três de seus livros de contos mais recentes na Companhia das Letras, e nos havia apresentado durante uma Flip da década passada. Eu tinha lido "Aberto está o inferno," o primeiro daqueles 3 livros, e me impressionara demais com a violência embutida no humor seco e na prosa medida dos narradores dos contos nem tão curtos, nem tão longos do livro. "Cine-privê", o título seguinte, e o último volume de contos que Tonho publicou, "Jeito de matar lagartas," do ano passado, só reafirmaram minha admiração pela prosa acachapante do sergipano, tão transbordante de humanidade quão formalmente desidratada.

    A literatura do Tonho, como os amigos o chamavam, não podia ser mais distante da exuberância barroca do Padre Vieira e de Gregório de Matos, meus "cicerones" na Bahia. O Viana era um joãocabralino que enxugava sua escrita até o osso, descartando qualquer ornamento ou lero-lero. Aquele não jogava prosa fora. "Eu não rendo nem conversa," ele dizia, se auto-ironizando,

    De fato, o homem se fechava numa espécie de timidez orgulhosa que não era lá muito fácil de romper. Mas se sentisse alguma liga com você, sua generosidade não tinha limites. Exemplo disso, foi a semana que passamos, eu, mulher e filhas, em sua casa, em Aracaju, com direito a catar caju maduro no mesmo pé frequentado por um bando de saguis simpaticíssimos diante da varanda tropical e a comer cuscuz de tapioca preparado pelo próprio Tonho no café da manhã. Sem contar que o amigo nos levou de bom grado pra conhecer cada recanto interessante da cidade, além de seus melhores amigos e amigas.

    Tonho ainda morava em Aracaju, uma das menores mas talvez a mais acolhedora das capitais nordestinas que conheço. Ele vinha se tratando de um câncer brabo numa clínica local quando faleceu. Depois de cremado, como era seu desejo, o que só podia ser feito em Salvador, a 350 km de distância, seu filho único, o também escritor André Viana, não pôde trazê-lo de pronto pra São Paulo, onde mora, pois, por algum insondável motivo tecnoburocrático, as cinzas paternas só seriam liberadas uma semana depois, mais exatamente num domingo. Como André teve de voltar pra Sampa logo depois de cremar o pai, tentou ver se algum amigo ou conhecido paulistano estaria em Salvador naquele domingo para trazê-lo na bagagem. E esse amigo quase calhou de ser eu, que, infelizmente, porém, tinha passagem marcada pra sexta. André também lamentou essa impossibilidade num whatsapp: "Seria bonito você viajar com Tonho no colo."

    Entrei naquele avião na sexta ainda cercado dos meus fantasminhas queridos de Salvador: Gregório, Vieira e, agora, Tonho. Nenhum veio no meu colo. Tonho, porém, foi o único a vir no meu coração, hipérbole sentimental que me permito aqui a contrapelo da absoluta intolerância que meu amigo contista nutria por clichês melosos desse tipo. Mas ele não se queixou de ter sido levado às nuvens comigo em forma de lembrança. Não que eu pudesse ouvir, pelo menos.

     

    Reinaldo Moraes estreou na literatura em 1981 com o romance Tanto Faz (ed. Brasiliense) Em 1985 publicou o romance Abacaxi (ed. L&PM). Depois de 17 anos sem publicar nada, voltou em 2003 com o romance de aventuras Órbita dos caracóis (Companhia das Letras). Seguiram-se: Estrangeiros em casa (narrativa de viagem pela cidade de São Paulo, National Geographic Abril, 2004, com fotos de Roberto Linsker); Umidade (contos , Companhia das Letras, 2005), Barata! (novela infantil , Companhia das Letras, 2007) , Pornopopéia (romance , Objetiva, 2009) e O Cheirinho do amor (crônicas, Alfaguara, 2014). É também tradutor e roteirista de cinema e TV.

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