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Coluna

Sobre reconstruir o Brasil

    O ano acabou, e não vai deixar saudades – que deixe ao menos lições

    Enquanto fecham-se as cortinas de 2016, o cenário no Brasil é de terra arrasada. Da infraestrutura à auto-estima, o país desmorona. Nas florestas e nas periferias, as chamas se espalham. Odebrecht, CBF, Petrobras, Grupo X – as marcas gigantes do Brasil vão quebrando recordes mundiais de todos os tempos em corrupção, falência e escândalo. A economia faz água, o desemprego cresce. As instituições vão esfarelando. O país deriva para 2017 sem rumo, sem ideia, sem esperança, com um presidente patético e desmoralizado no leme.

    Talvez pareça que estou exagerando: Brasil não é Ruanda nem Síria nem Haiti. Não houve guerra aqui, não houve uma imensa catástrofe humanitária. Mas será que não? Os níveis de violência deste país – morte por arma de fogo, sangue no trânsito – são equivalentes aos de uma zona de guerra. Não por acaso, as grandes capitais estão também no topo da lista das cidades com mais doenças mentais no planeta: depressão, ansiedade, pânico, fúria, insônia. É um país traumatizado, cheio de fantasmas e de mágoas, doente da cabeça, inseguro dos pés.

    Sabe-se lá por quanto tempo o Brasil permanecerá neste metafórico fundo de poço. Há suficiente gente desequilibrada por aí com capacidade de nos atirar em décadas de doença mental, via xenofobia, intolerância e violência. Mas um dia chegará a hora de olhar para cima e começar a planejar um jeito de sair do buraco.

    É impressionante a capacidade de realização que um bando de seres humanos têm, quando trabalham juntos

    Escrevo estas mal-traçadas numa beira de estrada de Alagoas, apertando os olhos para tentar enxergar a tela do laptop, desaparecida no brilho que reflete do céu. Acordei de manhã com o sol que entrava junto com o vento pela janela da casa que conseguimos alugar na beira do mar para passar o ano novo com a família. Enquanto as crianças acordavam encantadas com tanta natureza, saí entre os coqueiros perguntando nas casinhas se algum morador me emprestava uma bicicleta para eu chegar em algum lugar com wifi, para escrever minha coluna. Achei esta varanda com mesas de plástico amarelas, onde se pode beber caldo-de-cana enquanto trabalha, à sombra e ao vento. Logo vi que o wifi precário não permitiria muita pesquisa: vou ter que me virar com poesia.

    Olhando daqui, neste rabicho de ano, neste canto do mundo, até que nem é tão difícil ter esperança. Verdade sim que só tem precariedade à minha volta – barracos no morro, buracos na pista, esgoto no riacho, poeira, poeira, poeira. Verdade também que as notícias que mal chegam aqui – governo sangrando a população enquanto dá presentinhos a grandes corporações, por exemplo – aprofundam a depressão. Mas, por outro lado, que potencial gigante. Todo este sol, todo este vento. Toda a água brotando do chão. Quanto problema para resolver, quanta gente precisando de ocupação. Quanto a ser feito.

    Lembro da experiência da noite passada, nossa primeira na casa na praia, quando cada um se deu uma tarefa, e em minutos, o jantar estava feito e a louça lavada, para surpresa da matriarca da família, acostumada a arcar sozinha com as necessidades de todos. É impressionante a capacidade de realização que um bando de seres humanos têm, quando trabalham juntos. Quando precisam.

    Que 2017 nos una: que encontremos juntos uma visão de país que nos agrade. E que sejamos capazes de sonhar juntos, de construir juntos. Sem atalhos, sem “grandes líderes”, sem salvadores, sem ilusões. Não precisamos de um milagre: precisamos é de um projeto, que envolva o máximo possível de nós, que bote todo mundo para trabalhar na mesma direção. Que permita que todos possamos colaborar um pouquinho. Reconstruir o Brasil não é tarefa “deles”. Aliás, “eles” não existem, merecem ser esquecidos. E, aqui ofuscado pelo sol, despenteado pelo vento, por um momento, acredito de verdade que serão. E aí, quando forem, a tarefa será só nossa. E vai ser bom.

    Mas esse trabalho todo fica para 2017. 2016 já foi, sem deixar saudade – que ao menos deixe lições. Agora vou pedir a conta e pedalar de volta à praia. Se bem que uma cervejinha talvez não faça mal.

    Feliz ano novo.

    Denis R. Burgierman é jornalista e escreveu livros como “O Fim da Guerra”, sobre políticas de drogas, e “Piratas no Fim do Mundo”, sobre a caça às baleias na Antártica. É roteirista do “Greg News”, foi diretor de redação de revistas como “Superinteressante” e “Vida Simples”, e comandou a curadoria do TEDxAmazônia, em 2010.

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