Coluna

Segredos conhecidos: mulatas em verso e prosa

    Afinal, o que dizemos quando falamos das “nossas mulatas”? Nesse terreno há muito espaço para o não dito e para a expressão da lógica perversa do estere��tipo

    No carnaval animado de 1906, 110 anos atrás, a música “Vem cá mulata” arrasou nas ruas do Rio de Janeiro: a então orgulhosa capital do Brasil. Composta em 1902, a Letra de Arquimedes de Oliveira clamava: “Vem cá, mulata, Não vou não! Vem ó meu doce de coco. Que você me mata ou me deixa louco”. Se os foliões foram “à loucura” com o refrão, já o escritor Lima Barreto, freguês costumaz dos bares da rua do Ouvidor, deixou inesperadamente a roda de amigos que acompanhava o bloco. Ninguém entendeu a atitude do romancista, e, tempos depois, foi ele mesmo quem resolveu se explicar: “segredou” ao amigo Antônio Noronha, que deixara a animada turma quando atentou para o conteúdo da marchinha. Disse ele: “aquele dito me penetrava na alma como se fosse um insulto”; lembrava  de sua mãe que morrera jovem e tuberculosa, e da avó escrava, que fora amásia de seu senhor; aquele que ajudou a prover os filhos, mas nunca reconheceu a paternidade.

    Esse talvez esse seja o “segredo” mais bem guardado da história do Brasil, e, paradoxalmente, o mais conhecido. Afinal, o que dizemos quando falamos das “nossas mulatas”? Nesse terreno há muito espaço para o não dito e para a expressão da lógica perversa do estereótipo. O próprio termo, de origem espanhola, vem de “mulo” – um animal híbrido do cruzamento do cavalo com jumenta. Desse uso genérico, o nome passou a conceito e foi associado aos filhos mestiços das escravas que coabitavam com seus senhores brancos e deles tiveram filhos.

    Mas termos como esse não permanecem apenas por causa da lógica adormecida do passado: são reanimados na história do presente. Em finais do 19 e começos do 20, bem na época em que a escravidão era abolida no Brasil, negros, libertos, ex-escravizados, mulatos e mulatas ganhavam a liberdade jurídica, mas não a igualdade biológica. Datam dessa época teorias deterministas raciais que entendiam as raças humanas como espécies distintas, e afirmavam existir, entre brancos e negros, a mesma distância reconhecida do burro para o cavalo. Eram piores, porém, os mestiços, considerados por médicos respeitados da escola baiana tropical, liderada pelo Doutor Nina Rodrigues, como “degenerados”: dados a vícios, dentre eles o álcool, a loucura, a pederastia e a prostituição.

    Não há, portanto, coincidência ou desabafo (apenas) pessoal na reação de Lima. O escritor conhecia bem esses modelos; tanto que “segredou” em seu diário:  “Vai se estendendo pelo mundo a noção de que há umas certas raças superiores e umas outras inferiores, e que essa inferioridade, longe de ser transitória é eterna e intrínseca à própria estrutura da raça.  Diz-se ainda mais: que as misturas entre essas raças são um vício social, uma praga e não sei que coisa feia mais (sic)”.

    Lima era neto de uma escrava negra com um senhor branco, e carregava histórias e constrangimentos que escorreram para a sua literatura. Clara dos Anjos, “uma mulatinha” de nome revelador, é romance que começa a ser escrito em 1904 e restou inconcluso com a morte do escritor, em 1922. A protagonista, mantida protegida por seus pais, apaixona-se por um modinheiro de nome Cassi, que lhe dedica, em momento simbólico da narrativa, a canção de Gonçalvez Crespo chamada “Na Roça”. “Que viva mulata! Por ela o feitor diziam que andava perdido de amor”. (...) Sorria a mulata, por quem o feitor, nutria quimeras e sonho de amor”. É nessa hora que a protagonista resolve encontrar-se com Cassi, o que determina o curso dos acontecimentos: ela termina grávida, só e desiludida. O suposto de Lima era que a música de Crespo podia ser velha, já que datava de 1870, mas que, mesmo com o advento da República, os brancos ainda se entendiam como feitores, não apenas diante do trabalho dos negros, mas também do corpo de suas filhas.

    Esse não é, porém, um mote isolado de Lima Barreto. Já nos séculos 17 e 18 mulatos eram descritos como “navalhas” e “espertos”, enquanto as mulatas vinham com “limão e pimenta”; eram um “Deus me guarde”, conforme poetava Gregório de Matos. Mulatos e mulatas seriam presença cativa também no teatro do século 19, sempre figurados como personagens problemáticos e potencialmente perigos. No final do 19 e inícios do século 20 ficaria ainda mais estabelecida essa espécie de divisão de gêneros, com as mulheres mestiças sendo crescentemente associadas à sexualidade e ao incitamento ao sexo. Marcas herdadas da persistente sociedade escravocrata brasileira, a imagem da mulata permaneceria agarrada, desde então, à noção de desejo sexual: provocado e consentido.

    O escritor não deveria desconhecer, também, as imagens de mulatas presentes na literatura coeva. Manuel Antonio de Almeida, por exemplo, em seu romance datado de 1854, Memórias de um sargento de milícias, descreveu a mulata Vidinha como a própria desordem. Com seus 18 anos, tinha os olhos muito pretos e vivos, os dentes alvíssimos, uma fala descansada, doce e afinada. Em “O Cortiço”, Aluísio Azevedo criou, nos idos de 1890, Rita Baiana: uma “mulata exuberante” que se insinua diante de Jerônimo, um honesto imigrante português, que abandona o casamento, com uma esposa branca como ele, e de nome significativo – Piedade.

    Assim, diferente da figura da “mãe preta” – que passou para a literatura como a imagem romanceada da escravidão - já a “mulata” representava a outra face: aquela que revelava uma “mistura” perigosa e com capacidade de subversão e fogo. Figura recorrente no imaginário nacional, a mulata sensual e infiel converte-se no início do 20 em exemplo das experiências pré ou extra conjugais do homem branco; isso nos versos de uma canção que também não deixa passar sem glosa a mise-en-scène da proclamação da República: “Fui ao Campo de Santana; Beber água na cascata; Encontrei o Deodoro; Dando beijos na mulata; Essa mulher do Deodoro; É uma grande caloteira; Mandou fazer um vestido; Mas não pagou a costureira”. Irônica e divertida, a marchinha de autor desconhecido chamada Cordão, deve datar de 1889 a 1894, e explora a figura da mulata como personagem desonesto e sensual. A essa imagem de perigo e ameaça associam-se outras: da mulher caprichosa e inconstante, como lembram os versos de Careca, no seu "O casaco da mulata é de prestação", de  1924: “Ó mulata tão faceira; Não faz nada o dia inteiro; Passeia todos os dias; Com casado ou com solteiro (...)”.

    Muitos conhecem a música de Ataulfo Alves – “Mulata Assanhada”, de 1961. Talvez poucos tenham parado para ouvir a letra da canção: “Ai mulata assanhada; Que passa com graça; Fazendo pirraça; Fingindo inocente; Tirando o sossego da gente; Ai mulata; Se eu pudesse; E se o meu dinheiro desse; Eu te dava sem pensar; Essa terra esse céu esse mar; E ela finge que não sabe; Que tem feitiço no olhar. Ai meu Deus; Que bom seria; Se voltasse a escravidão; Eu pegava a escurinha; Prendia no meu coração; E depois a pretoria; É quem resolvia a questão”. A escravidão mal acabara, mas, nos versos da canção, ela bem que poderia voltar; isso se fossem garantidos padrões de sexualidade tão arraigados como naturalizados.

    Quem sabe a caracterização mais famosa da mulata esteja em “O Teu Cabelo Não Nega”, de Lamartine Babo e Irmão Valença. A canção é de 1931 e originalmente levou o nome de Mulata. “O teu cabelo não nega, Mulata, Porque és mulata na cor, Mas como a cor não pega, Mulata, Mulata quero teu amor”. A letra não termina, entretanto, por aí: “Tens um sabor; Bem do Brasil; Tens a alma cor de anil; Mulata, mulatinha meu amor; Fui nomeado teu tenente interventor; Quem te inventou; Meu pancadão; Teve uma consagração; A lua te invejando faz careta; Porque mulata tu não és deste planeta”. Dizem que quem conta um conto aumenta um ponto, e não há interpretação que esgote os sentidos dessa música. Mas o fato é que se a “cor” varia e é contingente; o cabelo é uma constante a denunciar uma origem. Por outro lado, o próprio arranjo musical mais se parece com uma paródia carnavalizada de um hino. Nele, a mulata – esse “pancadão” – tem  “sabor” e “cor”, e, nosso suposto cantor, vira seu “tenente interventor”. A sonoridade é maliciosa, o fraseado irônico e os atributos da personagem são até positivos ao final. Mas há jogo e ambiguidade nesse “segredo” de prender e libertar; de consagrar e constranger; entre ter todas as cores mas também nenhuma.

    É claro que existe muito deboche nesse cancioneiro popular. Mas não há piada que deixe de se pautar numa comunidade de sentidos, “silenciosamente” partilhada. Afinal, quando se explica a piada ela perde, imediatamente, a graça. O riso vem, como sabemos, dos supostos invertidos e momentaneamente silenciados.

    Há quem diga que tudo nessa vida “pode ser”. Pode ser carinhoso ou pode ser raivoso, pode ser elogioso ou pode ser negativo, pode ser elevado ou pode ser chulo. “Pode ser” tudo ao mesmo tempo. Mas não se “pode” negar a quantidade de atos violentos e de sofrimentos presentes nesse pretenso “encontro” entre um senhor ou outro homem branco, com uma escrava ou uma mulher subalterna. A mulata é ainda hoje tema para todo tipo de injunção estereotipada e carnavalizada de uma sexualidade exagerada; essa fabulação antiga e empobrecida que ainda se cola a uma imagem perversa de Brasil.

    Como dizia Kaspar Hauser, famoso personagem do cineasta Werner Herzog: esses são “os terríveis sons do silêncio” e do segredo.

    Lilia Moritz Schwarcz é professora da USP e Global Scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças", “As barbas do imperador", “O sol do Brasil" e Brasil: uma biografia”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: Um olhar sobre o Brasil” e Histórias Mestiças”. Atualmente é curadora adjunta do Masp.

    Lilia Schwarcz é professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.

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