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Coluna

São Paulo continua de pé

    Uma crônica sobre a cidade, o vapor metálico, a galeria Metrópole, a Síria e outras coisas mais

    Vapor metálico.

    Muita gente não sabe o que é vapor metálico - muita gente que acaba de ser iluminada pelo vapor metálico. Eu mesmo não sabia até 5 minutos atrás. E continuo não sabendo grande coisa sobre o vapor metálico, também dito de sódio, salvo engano. Coisa tão fundamental na vida dos urbanitas do planalto de Piratininga, e não se vê ninguém andando pelas ruas e avenidas a render homenagens ao vapor metálico por iluminar as trevas e aclarar os caminhos na cidade.

    Mesmo sem entender em profundidade a natureza da luz produzida pelo vapor metálico, vi o momento exato em que ela se acendeu sobre as cabeças dos munícipes enquanto eu caminhava, dia desses, desde a minha casa, na banda sudoeste da avenida Paulista, até a "cidade", na banda nordeste. "Cidade" é como muita gente ainda se refere à região central da metrópole, caso alguém não saiba disso.

    Considero epifânico esse momento em que a luz artificial vem combater as trevas noturnas, mantendo afastado seu cortejo de fantasmas e mortos-vivos, como vampiros mesoclíticos e frankensteins multipartidários. Luz metálica, fria, pervasiva, que adere à superfície de todas as coisas. Sem ela, numa noite de céu nublado e lua nova, como a que se anunciava naquele fim de crepúsculo, as coisas e os seres seriam engolfados pela escuridão. Andaríamos com lanternas, lamparinas, archotes, à mercê de assaltos, estupros, assassinatos. Tropeçaríamos nas calçadas esburacadas ou escorregaríamos em cocôs e cascas de banana, sofrendo fraturas horríveis, quiçá fatais. Seríamos atropelados, daríamos cabeçadas nos postes, rolaríamos por escadarias, despencaríamos em ribanceiras, trombaríamos com outros seres humanos, nem todos amigáveis. E a manhã nasceria tinta de sangue e lavada de lágrimas.

    Rendamos loas, pois, ao bendito vapor metálico. Ou de sódio, se preferir. Última palavra em iluminação pública. Ou penúltima. A última agora acho que é o tal do LED - Light Emitting Diode, segundo o manual da lanterna chinesa de LED que eu comprei na loja de 1,99, mas que me custou 25 paus. Achei que seria divertido ter uma lanterna, como na minha infância, quando eu vivia com uma delas na mão à procura de uma boa escuridão pra combater, feito um jedi precoce empunhando sua espada de luz. Sempre que rolava um blackout lá em casa era eu quem tirava a pátria da escuridão, iluminando os caminhos domésticos até a gaveta do armário da cozinha onde ficavam as velas.

    São Paulo, vista da Estação Espacial Internacional, parece uma grande teia de luz com alguns pontos de brilho mais intenso

    Desconheço se o Rio de Janeiro pós-olimpíadas é iluminado agora com a tecnologia LED, mas sei que, visto de 350 km de altura, desde uma nave espacial, o Rio é um bico de maçarico aceso na noite do hemisfério sul. A baía da Guanabara é o ponto mais luminoso do país. Basta um passeio pelo site da Nasa pra constatar isso.

    E Paris, então? Cidade que me seduz, onde a água vira vinho e a noite vira luz. Mas deve ter lugares da Cidade-Luz que o vapor metálico e o LED não conseguem iluminar. É ali, nessas quebradas trevosas, que moram os mistérios de Paris. São Paulo não é a Cidade-Luz, mas aqui, ao meu redor, a cidade luz, pelo menos à noite, sem embargo do joguinho oportunista de palavras.

    São Paulo, vista da Estação Espacial Internacional, parece uma grande teia de luz com alguns pontos de brilho mais intenso, inferiores, porém, ao maçarico carioca. Ao passar pela avenida Paulista, decerto um desses pontos brilhantes da cidade, me ocorreu dar um aceno pros astronautas lá em cima. Não o fiz pra não ser tido como maluco pelos passantes. Imaginei que nenhum astronauta se daria conta de que, no meio da mancha de luz paulistana, se abriga o bairro da Luz. E menos ainda que lá na Luz vagam os trevícolas zumbinoias da Cracolândia.

    Não sei se interessa muito saber o que eu ia fazer na "cidade," mas não custa esclarecer que eu ia encontrar meu amigo Matthew Shirts, um americano iluminista da Califórnia que vive há três décadas em São Paulo e se tornou um dos melhores cronistas da Pauliceia, como bem sabem seus leitores que por anos o acompanharam no Estadão ou na Veja São Paulo. Ou ainda na sua primeira coletânea de crônicas, "O jeitinho americano". Aliás, uma boa notícia pra esses leitores: em outubro deve sair a nova coletânea de crônicas do Matt, pela mesma simpática editora Realejo, de Santos. O título, bem ao gosto de um brazilianista amante dos sabores da terra, é "A feijoada completa". Imperdível, como se dizia até uns anos atrás.

    Matt e eu íamos dividir uma mesa na Tapera Taperá, misto de livraria e minicentrocultural que fica no segundo andar da Galeria Metrópole, lá na avenida São Luís, que já foi um dos endereços mais chiques da cidade até os anos 1970, mais ou menos. O tema da mesa, suficientemente vago para acatar qualquer tipo de parolagem, era a cidade de São Paulo, a crônica e a literatura paulistanas, e tudo mais que nos viesse à cachola na hora.

    Pra esquentar as turbinas, Matt e eu nos sentamos num boteco do térreo pra uma cervejinha inaugural. Comentamos sobre um fato óbvio, mas que poderia nos dar um norte lá na mesa da Tapera. O fato óbvio era o seguinte: enquanto eu tinha vivido em São Paulo desde que vim ao mundo na maternidade do Brás, há seis décadas, com exceção de dois aninhos passados em Paris, o americano Matthew, que os amigos chamam simplesmente de Mateus, tinha passado a infância e adolescência em cidades da Califórnia, onde viveu e estudou. Ou seja, ao perambular pela cidade, como faz programaticamente a pé todos os dias, colhendo material para suas crônicas, agora lidas ao microfone na BandNews FM, Matt não encontra os marcos urbanos dos seus primeiros tempos no planeta, que ficaram todos lá nos States, na incômoda companhia de Donald Trump.

    Nesse ponto, me lembrei da terrível situação da Síria, com algumas de suas principais cidades, como Aleppo e Homs, arrasadas pelo tirano Assad, coadjuvado agora pela aviação russa. Os sobreviventes dessas outrora pacíficas e florescentes cidades nunca mais verão as artérias viárias, edifícios e logradouros que serviram de referências urbanas em suas vidas. Muito menos as luzes que costumavam iluminá-las.

    A lembrança da guerra civil síria me remeteu diretamente a um documentário feito por um brasileiro de família árabe, o cineasta Otavio Cury, cujo título, "Constantino," remete a seu bisavô, que fez carreira como dramaturgo na cidade Homs. Otávio, de câmera em punho, se abalou pra Síria em 2009 a fim de rastrear a trajetória dessa figura um tanto mítica em sua família, sobre cujo passado sírio pouco se sabia.

    "Constantino" é todo feito de silêncios e tomadas da pacífica vida cotidiana da cidade de Homs, com seus cafés frequentados por leitores de jornal e fumadores de narguilé, e suas edificações centenárias, entre as quais algumas das mais belas e antigas mesquitas do mundo árabe. Isso, entre depoimentos de gente que poderia dar alguma pista sobre a vida do dramaturgo Constantino, que morreu no Brasil há muitos anos já. Quase tudo em Homs, baluarte da resistência ao Assad, virou um amontoado de escombros agora. Quanto às pessoas entrevistadas ou entrevistas na ruas e cafés, quem não morreu ou fugiu da cidade provavelmente está vivendo maus bocados nela agora.

    Mal acabara de mencionar o filme do Otávio Cury pro meu amigo americano, e eis que o próprio cineasta adentra a galeria Metrópole com a namorada, a editora Sofia Mariutti. A dupla se encaminhava a um dos novos bares do pedaço. Contei-lhes que eu também tinha frequentado muito a Metrópole na minha adolescência. Vi, por exemplo, Baden Powell tocar seu violão no "Ponto de encontro," mítico bar-teatro que havia no subsolo da galeria. Bom, se não era o Baden, devia ser o Paulinho Nogueira, outro excelente violonista. De qualquer maneira, a galeria Metrópole está na moda de novo, depois de anos de decadência. Fui cumprimentar os dois, que conheço faz algum tempo, e os apresentei ao meu amigo gringo. Contei pro casal sobre a relativamente incrível coincidência que se produzia ali: eu falando no santo e o santo em pessoa aparecendo na minha frente.

    Otávio, com sua sabedoria ancestral árabe, comentou:

    "É, Homs está no chão. Mas São Paulo continua de pé."

    E foi com Sofia erguer brindes ao amor e ao fato de São Paulo ainda estar de pé e bem iluminada pelo generoso vapor de mercúrio de uma prefeitura prestes a mudar de mãos sem que nenhum tiro tenha sido disparado.

    Reinaldo Moraes estreou na literatura em 1981 com o romance Tanto Faz (ed. Brasiliense) Em 1985 publicou o romance Abacaxi (ed. L&PM). Depois de 17 anos sem publicar nada, voltou em 2003 com o romance de aventuras Órbita dos caracóis (Companhia das Letras). Seguiram-se: Estrangeiros em casa (narrativa de viagem pela cidade de São Paulo, National Geographic Abril, 2004, com fotos de Roberto Linsker); Umidade (contos , Companhia das Letras, 2005), Barata! (novela infantil , Companhia das Letras, 2007) , Pornopopéia (romance , Objetiva, 2009) e O Cheirinho do amor (crônicas, Alfaguara, 2014). É também tradutor e roteirista de cinema e TV.

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