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Coluna

Quando a metáfora vira realidade: reflexões sobre o Muro de Brasília e a intolerância

    Temos nos tornado cada vez mais radicais em nossas avaliações. Andamos cheios de certezas, menos abertos e irritados com o que discordamos

    Para Paula Miraglia, que sabe tudo sobre "tolerância e diálogo"

    Faz pouco tempo escrevi um pequeno texto para a “Folha de São Paulo” e o chamei de “Dialética do muro”. A partir da “Fábula curta”, de Franz Kafka, retomei um tema caro, e cada vez mais raro, entre nós: a tolerância.  A história é narrada por um rato, que discorre acerca da frustração de se ver tolhido em sua liberdade. Tudo por conta da repentina construção de muros. O gato que escuta o monólogo nada contesta; devora o rato, e ponto final. Kafka abandona seus leitores, deixando com eles a tarefa de interpretar essa fábula enigmática e difícil de resolver.

    Já a minha interpretação era bem mais literal. Versava sobre um impasse de nossos tempos presentes: com a aceleração do processo político e da crise brasileira, temos nos tornado cada vez mais radicais em nossas avaliações. Andamos cheios de certezas; menos abertos a ouvir o que é diverso daquilo que concluímos; irritados com o que discordamos. Solitários, porque cada vez mais isolados, diria Hannah Arendt, em “Origens do totalitarismo”.

    E não é que nessa semana vimos a metáfora transformar-se em realidade? Não me refiro à atitude de “ficar no muro”; mas aquela de optar, de maneira definitiva, por um dos lados do muro;  ou então supor que o muro só tem dois lados oposto — um à esquerda e outro mais à direita —, e nenhuma passagem entre eles.  Mais ainda: tudo o que interessa encontra-se apenas, e tão somente, em um dos lados do muro; aquele em que nos encontramos.

     

    Estou falando, portanto, do “muro” real, que está sendo construído literalmente, e bem na frente dos nossos olhos: o assim chamado “muro do impeachment”, feito, aliás, com uma estrutura de ferro. O muro dará conta de separar, cartesianamente, grupos pró e contra o governo de Dilma Rousseff, pelo menos na capital do país, e será mantido, ereto, durante os próximos dias de votação no Congresso Nacional.

    Por vezes a realidade parece mais absurda que a fantasia, e o contrário também é verdadeiro: não existe nada mais real do que a própria ficção.  Mas, quem sabe, vale a pena retirar a névoa do “natural”, para incluir o espanto.

    Abrir o jornal matutino e ver uma foto da Esplanada dos Ministérios, em segundo plano, já é parte de nosso cotidiano agitado, em que cada dia traz uma nova surpresa. O estranhamento maior concentrava-se, porém, nas figuras em primeiro plano: um grupo de presidiários vestidos de branco. Cercados pela polícia eles, juntos, erguiam um muro nos jardins próximos da Câmara de Deputados. Um muro semelhante já fora construído em Brasília, por ocasião do 7 de setembro. O objetivo, daquela vez, era segurar os ânimos dos manifestantes contrários à presidente. Democracia sempre foi o exercício das diferenças, mas agora demos para isolar, cartesianamente,  o que é melhor ficar do lado de fora, e incluir, o que há de permanecer dentro.

    Assim, nada como “levar a sério” o muro, e pensar que ele dá evidência e sedimenta duas “verdades”, cada vez mais essencialmente distintas, e que, por decorrência, não se podem contaminar. Do lado direito, estarão os manifestantes que defendem o impeachment da presidente; do lado esquerdo, os que se opõe a ele. Há, dessa maneira, uma reafirmação geográfica e territorial, do que está inscrito na lógica do mundo da política. Aqui a geografia simbólica é que delimita a fronteira da realidade.

    As saudosas manifestações de junho de 2013 já vão ficando no passado. Elas mostraram a existência de um Brasil plural, em que era possível sair na avenida sem fazer parte da mesma “escola”:  de samba, de partido, de desejos, de causa social, de bandeira política. Agora a avenida é para iguais, e as datas são discriminadas, para que todos tenham certeza do calendário. Se não tiverem, que se guiem pela lógica dos cartazes ou das cores das camisetas. Símbolos são, afinal, assim mesmo: usados politicamente, têm a capacidade de sedimentar e de se transformar em guias fixos de significados.

    O contexto é outro e a história nunca se repete, mas, o espanto diante dessa construção de ferro, me lembrou o prefácio de Hanna Arendt, para sua obra “Origens do totalitarismo”, concebida na década de 1940, mas publicada, pela primeira vez, em 1951.  Chamado originalmente de “O fardo de nosso tempo”, o livro analisa os dois maiores movimentos totalitários do século 20: o nazismo e o stalinismo. Na época em que a filósofa alemã escreveu o texto, duas guerras mundiais haviam ocorrido, em uma só geração, gerando um imenso impasse. “O momento de expectativa, escreve ela,  é como a calma que sobrevém quando não há esperança”.

    O suposto do totalitarismo, segundo Arendt, é que com esses regimes “todos os homens se tornam um só”. O isolamento é o começo do terror, seu solo mais fértil. Homens isolados são impotentes por definição, pois incapazes de sentir, de inventar, de pensar. Só conseguem permanecer intactos.

    Por isso “isolamento” não é sinônimo de “solidão”. Dito de outra maneira, enquanto o isolamento refere-se ao terreno político da vida; a solidão vincula-se à experiência humana, de uma forma mais geral. Já os governos totalitários, como as tiranias, não existem apenas na vida pública; eles se inserem por meio da solidão dos homens. Usam da solidão, pois um indivíduo imutável — que não se confunde com outros — é a cada dia mais só.

    Apenas o diálogo afasta a solidão. A falta dele, leva ao equívoco da voz única e impermutável. Estamos sós quando, de maneira obstinada, ficamos apartados da pluralidade e da dúvida. Por isso, a solidão leva à perda do próprio eu, pois se é vítima da companhia dos iguais. Ao restar só, com parceiros de pensamento, minha própria capacidade de refletir, pensar e sentir se dissipa no tempo. É por isso que solidão não é estar só. Estamos sós, diz a filósofa, quando não contamos mais com a contestação dos diferentes.

    Uma das grandes sensações de liberdade, experimentadas na nossa breve modernidade, foi a queda do muro que dividia Berlim, o qual, de alguma maneira, separava o mundo ocidental do oriental. Dizem que os habitantes daquela cidade passaram dias sem dormir e viveram um novo começo. Todo o fim da história constitui necessariamente um novo começo, e esse só se inicia com uma promessa. Diz Hannah Arendt que o verdadeiro começo tem sabor de liberdade. Ele reside na capacidade que temos, inscrita em cada um de nós, de lutar para não ficarmos sós, e podermos ter a tolerância necessária para trafegar pelos muros e saber recomeçar. Abaixo o muro!

    Lilia Moritz Schwarcz é professora da USP e Global Scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças", “As barbas do imperador", “O sol do Brasil" e “Brasil: uma biografia”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil” e “Histórias Mestiças”. Atualmente é curadora adjunta do Masp.

    Lilia Schwarcz é professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças", “As barbas do imperador", “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário" e "Dicionário da escravidão e liberdade", com Flavio Gomes. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp.

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