Coluna

Pizza na cama

    Meu interesse pela máscara de Guy Fawkes, porém, é de outra natureza. Eu a coloco, não a cobrir-me a cara, e sim voltada para a parte traseira da minha cabeça

    Ali estava o cabide, e pendurado nele meu casaco com meia capa de pura lã de carneiro escocês legítimo. Longo, o casaco me batia pelas botinas, o que me fazia parecer mais alto do que sou. Noutra haste do cabide, meu boné deerstalker, do mesmo tipo usado por Sherlock Holmes, com duas abas, uma na frente, outra atrás, essa descaída sobre a nuca.

    Valendo-me dessa ambiguidade básica do boné de duas abas, ao sair à rua costumo colocar uma máscara do Guy Fawkes, o fracassado regicida inglês que quase explodiu com o rei James e todo o parlamento da Inglaterra no século 17, e agora virou símbolo dos anarquistas de rua do mundo todo, que usam aquela máscara para depredar bancos, lojas, lanchonetes do McDonald's e instituições governamentais tidas como opressivas ou corruptas, contribuindo destarte com a causa dos pedreiros, vidraceiros, vitrinistas, serralheiros, eletricistas e vários outros profissionais envolvidos na restauração dos imóveis atingidos.

    Meu interesse pela máscara de Guy Fawkes, porém, é de outra natureza. Eu a coloco, não a cobrir-me a cara, e sim voltada para a parte traseira da minha cabeça, de modo a confundir algum espião, inimigo ou mero bisbilhoteiro que porventura esteja a me seguir, levando-o a crer que eu esteja com a cabeça inteiramente voltada para trás, a encará-lo, embora andando para a frente, impressão sobremaneira pertubadora num dia ou noite de fog intenso. Para reforçar tal impressão, visto o casaco já totalmente abotoado, enfiando-o por cima da cabeça, qual fôra um pulôver, tomando a ardilosa precaução de deixar às minhas costas a frente do dito casaco, com seus botões a postos, reforçando a impressão de que o sósia do Guy Fawkes está, de fato, andando de costas.

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    Reinaldo Moraes estreou na literatura em 1981 com o romance Tanto Faz (ed. Brasiliense) Em 1985 publicou o romance Abacaxi (ed. L&PM). Depois de 17 anos sem publicar nada, voltou em 2003 com o romance de aventuras Órbita dos caracóis (Companhia das Letras). Seguiram-se: Estrangeiros em casa (narrativa de viagem pela cidade de São Paulo, National Geographic Abril, 2004, com fotos de Roberto Linsker); Umidade (contos , Companhia das Letras, 2005), Barata! (novela infantil , Companhia das Letras, 2007) , Pornopopéia (romance , Objetiva, 2009) e O Cheirinho do amor (crônicas, Alfaguara, 2014). É também tradutor e roteirista de cinema e TV.

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