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Coluna

Olhar e não ver. Pequena etnografia desastrada durante o dia de eleição nos EUA

    Democracia implica não apenas reconhecer iguais, mas lidar e enfrentar a diferença. E talvez a época peça para que a gente resista e exerça uma salutar vigilância republicana sobre os ‘outros’, mas também sobre ‘nós mesmos’

    Pousei em Nova York numa terça-feira, 8 de novembro de 2016. Era dia de eleição nos Estados Unidos. Eu chegava pronta para mais uma temporada na Universidade de Princeton, onde, desde 2009, a cada semestre ensino durante cerca de um mês. Mas dessa vez tudo parecia um tanto diferente. Eram 6 e meia da manhã naquele país, e, assim que pude, liguei meu celular. Como se diz, “em Roma como os romanos”, e logo abri o “The New York Times” que estampava uma manchete definitiva: Hillary Clinton tinha 85% de chances de sagrar-se vencedora. Parecia uma barbada!

    Imbuída de meu “espírito etnográfico de plantão”, avisei o pessoal de Princeton que dessa vez alteraria minimamente o ritual: em vez de seguir direto para New Jersey, passaria o dia fazendo “trabalho de campo” e acompanhando o processo eleitoral em Manhattan. Animada, percorrendo as ruas da cidade e agasalhada para um dia ensolarado de inverno, anotei os detalhes do que parecia ser, a meus olhos, uma festa cívica celebrada exclusivamente pelos democratas. As pistas falsas eram muitas: a cidade estava vestida de azul; boa parte dos bonés exibiam o nome da candidata; adesivos colados nas roupas estampavam o desejo de votar livre e voluntariamente. Todos os caminhos pareciam levar à eleição de Hillary Clinton!

    O fato é que eu não me dera conta àquela altura, mas estava cercada por um tremendo “nós” apaziguador: a certeza de que o mundo é exatamente assim como acreditamos que ele seja, ou, deveria ser. Feliz com o que julgava ser um pedaço da minha boa sorte – a coincidência de chegar no país nesse dia histórico - , anotei no meu improvisado caderno de campo: “tudo pronto para a vitória dos democratas”.

    A não ser por conta da ostensiva Trump Tower, instalada na próspera Quinta Avenida, e devidamente cercada por policiais, nada anunciava o vendaval que varreria o país logo no final do dia. Passei a manhã e parte da tarde na minha sanha investigadora: constatando o que julgava ser o óbvio. Tudo comprovado pelas pesquisas, pela impressão difundida na mídia, e pela convicção íntima de que o “outro” há de se revelar (ao fim e ao cabo) incapaz de ser bem sucedido em um pleito gigante como esse.

    Chegado o final da tarde, era hora de seguir para Princeton. Com a diferença de três horas, causada pelo fuso horário, o dia ia ficando longo; ainda mais comprido quando começaram a surgir os primeiros resultados eleitorais. A princípio nada incomodava a “certeza prévia”. Até mesmo a primeira vantagem de Trump não chegava a arranhar minha vã e crédula filosofia.

    “Nada a temer senão o medo” – como diz Win Wenders em seu filme alice nas cidades.

    O problema é que o relógio ia correndo e o mapa norte-americano ficando cada vez mais vermelho e republicano. Até mesmo os jornalistas – tão seguros no início do dia – andavam agora hesitantes e preocupados em desdizer (e rapidamente) o terreno outrora objetivo das estatísticas. A estratégia de Donald Trump tinha se revelado certeira: ele havia feito campanha apenas nos locais em que tinha chances de ganhar, e faturou todos eles.

    A regra é clara e a vitória por maioria simples de Hillary não significava nada diante do resultado acachapante de Trump, expresso nos mais diversos Estados. O partido democrata até superou sua marca absoluta de votos; o republicano diminuiu. Entretanto, nesse exemplo, 2 mais 2 não somam 4. Nos EUA pratica-se uma democracia representativa e não de voto direto, e deu no que deu.

    Meia noite passada e com a eleição praticamente decidida achei que era melhor dar o dia por encerrado. Fui dormir com uma frase de Alba Zaluar zoando na minha cabeça: “Todo antropólogo tem seu dia de otário!” Esse tinha sido o meu e de tantos outros.

    Não tenho porque defender Hillary Clinton e estou longe de ser especialista em eleições norte-americanas. Também não penso que minha experiência privada seja exemplarmente pública, ou muito menos representativa. Ao contrário, foi desolador notar, no dia seguinte, o silêncio que se abateu no campus, e a expressão de choro de muitos alunos e funcionários que, em causa própria ou por mero gesto de solidariedade, temiam pelo destino daqueles que não estavam com sua situação regularizada no país.

    As notícias acerca dos futuros assessores de Trump também foram chegando, rápidas, e confirmando como ele pretende entregar o que anunciou: uma campanha pautada na exploração do ódio; na veiculação de supostos racistas e homofóbicos. Tanto que sua vitória animou grupos de extrema direita como a Ku Klux Klan e o Straight right – que defendem a expulsão de todo e qualquer imigrante, contanto que não seja branco e norte-americano por cinco gerações. Mais uma vez, vence uma plataforma do “contra”. Contra o que seja lá o que se chama de política; quais forem os imigrantes mais recentes; o que venha a ser um país idealizado, envolto num passado mítico que se projeta melancolicamente para um futuro indefinido.

    Não se trata aqui de questionar a vitória eleitoral. Meu ponto é outro: como é que foi possível “olhar” e “não ver”? O que é que as estatísticas não deram conta de notar? Trump ganhou sobretudo apoiado por uma classe média branca – a White Supremacy -, que desde o atentado às Torres Gêmeas, ocorrido em 11 de Setembro de 2001, tem colocado suas mangas de fora. Até aí não há muita novidade. Afinal, criticar o terrorismo é dever de todos nós. A surpresa é o imenso recesso que essa ascensão, também, escancara. Trata-se de um constrangedor passo atrás diante de valores que julgávamos, erroneamente, consolidados: os assim chamados direitos civis. A defesa das minorias, das diferenças de classe, de região, de gênero e sexualidade; esse mundo plural que nos constitui e alimenta.

    talvez a época peça para que a gente resista e exerça uma salutar vigilância republicana sobre os “outros”, mas também sobre “nós mesmos”

    Seria fácil dizer que esses “eles” são apenas “outros”, por demais distantes de “nós”. Nesse sentido, a imagem que vem primeiro à cabeça é aquela de um cogumelo seco, que, de um momento para outro, desidratou: tomou forma. Mais difícil é porém reconhecer esses “outros” entre “nós”. Estamos falando, muitas vezes, de vizinhos, parentes e colegas muito conhecidos. Se isso tudo for verdade, então não são “eles” que andavam isolados ou escondidos. Quem sabe “nós” é que deixamos de observá-los; protegidos que estávamos por realidades demais ensimesmadas. Cada um na sua própria aldeia, alimentada por seus próprios iguais.

    O dia 8 de Novembro de 2016 confirma um movimento de proporções mais amplas, que traz para o cenário local e internacional – para o espaço aberto da política – eleitores que agora contestam, sem maiores pejas, vários ganhos humanitários de nosso século. E essa está longe de ser uma retórica sem efeito.

    Não quero e não aceito minorar os efeitos de uma eleição como essa. Trump representa um populismo reacionário, protofascista e da pior espécie. A intolerância é seu fermento, o destaque às “perdas” (e não aos “ganhos”) sua plataforma. Mas democracia implica não apenas reconhecer iguais , mas lidar e enfrentar a diferença. E talvez a época peça para que a gente resista e exerça uma salutar vigilância republicana sobre os “outros”, mas também sobre “nós mesmos”.

    Receita fácil ainda há de ser inventada. Mas confesso que me emocionei com um ato simultâneo, realizado no dia 17 de novembro em várias universidades norte-americanas. A palavra de ordem era “santuário”. Que cada instituição de educação se convertesse num santuário de legitimação para alunos vindos de fora do país. Que a educação se transformasse, definitivamente, numa bandeira de proteção à diferença. 

    Conforme escreveu David Brooks, colunista do “NYT”, “a raiva e o asco nos impedem de aprender. O nosso século que começou com 9/11 ainda está marcado por reações fortes contra o globalismo, o cosmopolitismo, o terrorismo, o tribalismo, o autoritarismo (...) Mas nós não podemos continuar entorpecidos”. O pedido do jornalista, que se pronunciou imediatamente após o anúncio da vitória de Trump, é sonoro: que sejamos capazes de canalizar nossas energias e emoções para os problemas que acabaram por dar sentido à ascensão de grupos como esses, que apoiam a bandeira da intolerância.

    Estamos bastante acostumados a acusar os demais; já refletir sobre nossos próprios impasses é tarefa muito mais complexa. Quem sabe seja a boa hora de também aprender com nossos erros e “vacilos”, e assim inventar novas formas de reação e diálogo. Ensinamos às crianças acerca das virtudes e da importância de “saber perder” um jogo, e de elas estarem dispostas e abertas a “saber recomeçar” uma nova partida. Já “nós”, temos lidado mal com esse tipo de moral da história. Como poetou Carlos Drummond de Andrade:  “Ninguém é igual a ninguém. Todo o ser humano é um estranho ímpar”. E é nesse mundo de diferenças, mas também cada vez mais dividido, que nos é dado viver.

    Lilia Schwarcz é professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças", “As barbas do imperador", “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário" e "Dicionário da escravidão e liberdade", com Flavio Gomes. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp.

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