Coluna

O som do silêncio: uma nota sobre a abertura dos Jogos Olímpicos de 2016

    Por que é que o Brasil, em eventos internacionais desse tipo, sempre mostra apenas seu lado mais exótico, e, sobretudo, repisa a imagem de povo pacífico que resolve tudo na base da ‘cordialidade’?

    A cerimônia de abertura da Olimpíada 2016, que ocorreu no Estádio do Maracanã no dia 5 de agosto, uma sexta-feira, tinha tudo para agradar, e agradou. O verdadeiro show de luzes, cores, personalidades nacionais, projeções e muita música emocionou brasileiros e estrangeiros, provando como o país sabe organizar eventos desse tipo e proporção. Ademais, com extremo bom gosto e poucos recursos. E não é para menos; somos quase especializados nesse  gênero de espetáculo que envolve multidões. Basta lembrar da nossa expertise não apenas nos desfiles de carnaval na Marquês de Sapucaí no Rio de Janeiro, como nos blocos que se espalham pelas ruas e cidades do Brasil no mês de fevereiro.

    Mas dessa vez seria preciso superar a expectativa, que já era alta, com mensagens acomodando valores caros aos brasileiros mas também mais universais, e que tocassem os corações que batem forte pelo mundo afora. Por isso mesmo, o espetáculo juntou motivos que iam da preservação do meio ambiente à denúncia dos grupos de refugiados; ondas gigantes com os trópicos calmos, muito bem exaltados nos trajes coloridos, no ritmo da percussão, no samba dos passistas, no funk sincopado e na voz delicada - quase intimista a despeito da massa que o ouvia - de Paulinho da Viola. Não discuto portanto a competência do espetáculo. Muito menos a organização ou os efeitos especiais que fizeram do acontecimento um evento memorável; daqueles que a memória não pode ou quer apagar.

    Mas gostaria de fazer uma pergunta que não quer calar. Por que é que o Brasil, em eventos internacionais desse tipo, sempre mostra apenas seu lado mais exótico, e, sobretudo, repisa a imagem de povo pacífico que resolve tudo na base da “cordialidade”? Esse é, com efeito, o conceito mais castigado de nossa literatura pátria, e um “fantasma” que assombrou seu autor, Sérgio Buarque de Holanda, durante 33 anos - tempo em que escreveu e reescreveu seu “Raízes do Brasil”, cuja primeira edição data de 1936 e a última, revisada pelo autor, de 1969. Holanda dizia que cordial vinha de “cor”, coração, e que esse órgão tinha bons, mas também maus sentimentos; tudo ao mesmo tempo. Cordialidade não é apenas bondade, mas também inimizade, hierarquia, relações assimétricas e violência; tudo ao mesmo tempo.  

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    Lilia Schwarcz é professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.

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