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Coluna

O nariz presidenciável

    Era mesmo aquele nariz fibrilante debaixo do topete em cascata o que mais chamou a atenção do democrata e de toda uma legião de internautas que se dedicam a desconstruir o embusteiro Donald Trump

    Howard Dean, cacique do Partido Democrata americano, disparou um tuíte enquanto Hillary Clinton e Donald Trump debatiam na Hofstra University, em Nova York: "Reparem como Trump funga o tempo inteiro. Usuário de cocaína?"

    Dean é médico e diz saber do que está falando, mesmo sem provas concretas. Toda a postura corporal e comportamental do candidato republicano - hipermotricidade, agressividade exagerada, apartes intempestivos no meio das falas de Hillary - só reafirmavam essa hipótese, além das fungadas, segundo Dean.

    Mas era mesmo aquele nariz fibrilante debaixo do topete em cascata o que mais chamou a atenção do democrata e de toda uma legião de internautas que se dedicam a desconstruir o embusteiro Donald Trump, de quem Robert De Niro disse poucas e boas num vídeo que viralizou na rede: "Ele é um estúpido, um lixo, um cachorro, um porco, um idiota, um bobo, um palhaço... um desastre nacional, um constrangimento pra este país... Ele só dá porradas na cara das pessoas. Well, eu queria dar uma porrada na cara dele."

    Well, well, agora se agrega mais um epíteto ao Donaldão: cheirador. É bom pro Trump que De Niro não lhe acerte o nariz ao dar a porrada prometida, pois isso dificultaria as altas aspirações do homem, não só as presidenciais, quanto as cocaínicas também, motor de sua desenvoltura midiática, de acordo com o dr. Howard Dean.

    Nariz, de fato, é um negócio que pode dar muito trabalho a uma pessoa. Quem não conhece a famosa noveleta do russo Nikolai Gógol, "O nariz", publicada em 1836, que narra as desventuras de um barbeiro, Ivan Yakovlevich, e seu freguês, um alto funcionário do governo conhecido como Major Kovalyov, em torno do nariz deste último.

    Ocorre que, um belo dia, em São Petersburgo, o barbeiro toma o seu café da manhã com a mulher, comendo o pão que ela assou e o diabo parece ter amassado, quando encontra dentro dele nada menos que um nariz humano. Um nariz que ele logo reconhece como sendo do oficial Kovalyov.

    Enquanto o barbeiro tenta descartar aquele item embaraçoso - da mesma forma que Trump gostaria de fazer com seu nariz, ao menos antes de aparecer fungando na TV -, o freguês do barbeiro acorda sem o dito apêndice nasal. O desnarigado major sai, então, em desespero pela cidade investigando o paradeiro de seu amado nariz.

    A certa altura, noutro lance da narrativa que parece antecipar tanto o surrealismo europeu quanto o realismo mágico latino-americano, ele topa com seu nariz na rua trajando um garboso uniforme de oficial. Kovalyov persegue o fugitivo até uma catedral, onde deixa o nariz escapar, distraído pela visão de uma bela garota que acaba de entrar no templo.

    Nisto o oficial russo se equipara ao femeeiro Trump, como se constata naquele vídeo caseiro de 10 anos atrás que veio à baila por esses dias, onde o topetudo bilionário se gaba de poder pegar qualquer mulher, sendo famoso como é. Sem falar nas várias acusações de assédio sexual de que é alvo.

    O nariz da novela de Gógol acaba sendo capturado ao tentar fugir da cidade numa diligência e é devolvido ao seu dono, que, no entanto, não consegue reimplantá-lo de imediato. Depois de mais algumas reviravoltas na história, o major, por fim, acorda com seu nariz no devido lugar, ao contrário do Trump, que, pelo visto, meteu o seu onde não era chamado. Seu nariz escapou pra realidade virtual, onde sofre agora porradas desmoralizantes por suas fungadas, bandeira de possíveis cafungadas.

    Verdade ou mentira, as supostas reinações de narizinho do Donaldão Trampolinador já lhe custaram um sério escorregão nas pesquisas de intenção de voto. Tudo indica que ele vai quebrar a dita napa no dia da eleição, antes que Robert De Niro, que já deu tanta porrada no cinema, especialmente em "Touro indomável", possa cumprir sua promessa.

    Cabe aqui mais uma "especulation" que corre no mundinho político americano e que me foi relatada por um jornalista bem informado, americano ele também. Segundo esse jornalista, Donaldão teria se metido em política só para provar sua popularidade aos executivos da NBC, onde ele comanda aquele nefando reality show empresarial, no qual se farta de humilhar os candidatos a executivo de seu grupo econômico. Trump teria pedido um substancial aumento da sua participação nos lucros do programa, o que a emissora lhe teria negado.

    O objetivo da aventura presidencial de Trump seria, pois, angariar no máximo uns 20% de intenções de voto, o que já representaria um oceano de popularidade pra esfregar na cara da NBC antes de retomar as negociações por mais grana. Só que a dimensão alcançada pelo feitiço surpreendeu a todos nos States, a começar pelo próprio feiticeiro, que resolveu ir em frente com seu projeto populista e picareta de fazer a América voltar a ser grande, e ele o maior e mais poderoso americano da América. Tudo parecia estar dando surpreendentemente certo até Mister Topetão tropeçar no próprio nariz. No nariz e no pênis também, como se tem visto.

    O nariz, aliás, pode ter estreita relação com o pênis e estar na origem das estrepulias machistas do folclórico candidato republicano. Isto porque, o nariz já foi associado à sexualidade genital por um precursor histórico da psicanálise, o otorrinolaringofaringologista alemão Wilhelm Fliess, amigo e, depois, desafeto do dr. Freud, em fins do século 19.

    Fliess achava que muitos sintomas neuróticos de fundo sexual, entre os quais poderíamos arrolar a notória megalomania trumpiana, podiam ser causados pela inflamação da mucosa e das conchas nasais. O tratamento de tais anomalias incluía a cauterização desses itens internos do nariz ou sua anestesia à base de, adivinha o quê? Cocaína, nada menos. Fliess chegou a prescrever o pó dos Andes ao próprio Freud que padecia de encrencas nasais e, inicialmente, adorou o remedinho, chegando a escrever loas científicas sobre o bagulho, que ele consumia na forma injetável.

    No caso do Trump, se é de fato cocainômano, a mezinha teve efeito contrário, levando sua napa a enviar sinais desvairadamente erógenos aos seus trêfegos e abusivos genitais. E, de quebra, queimando seu filme nos debates, devido às involuntárias fungadas diante das câmeras.

    Há muito tempo que ninguém mais dá bola pra teoria nasogenital do dr. Fliess. O próprio Freud logo se desencantou dessa ideia e de seu formulador, bem como da cocaína, da mesma forma que a maioria dos eleitores americanos parece se dar conta da grande fria em que os EUA entrarão se o refungante candidato republicano for eleito. Quanto a mim, modestamente, dou aqui dois conselhos grátis ao Donaldão "Crazy Nose" Trump:

    1. Mude logo de barbeiro, evitando, contudo, recorrer ao do ditador da Coréia do Norte.

    2. Para o próximo debate, deixe a napa de molho e faça como Freud: mande a dona branca nos cano, mermão.

    Reinaldo Moraes estreou na literatura em 1981 com o romance Tanto Faz (ed. Brasiliense) Em 1985 publicou o romance Abacaxi (ed. L&PM). Depois de 17 anos sem publicar nada, voltou em 2003 com o romance de aventuras Órbita dos caracóis (Companhia das Letras). Seguiram-se: Estrangeiros em casa (narrativa de viagem pela cidade de São Paulo, National Geographic Abril, 2004, com fotos de Roberto Linsker); Umidade (contos , Companhia das Letras, 2005), Barata! (novela infantil , Companhia das Letras, 2007) , Pornopopéia (romance , Objetiva, 2009) e O Cheirinho do amor (crônicas, Alfaguara, 2014). É também tradutor e roteirista de cinema e TV.

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