Coluna

O marketing e a morte

    Isso que o prefeito eleito de São Paulo pretende fazer tem nome e número: artigo 121, parágrafo 4º do Código Penal, homicídio culposo. Aumentar as velocidades das marginais não é só um erro - é também um crime

    Raramente uma política pública funciona bem no Brasil. Mas, de vez em quando, calha de acontecer. A cidade de São Paulo, por exemplo, acertou na mosca ao reduzir a velocidade máxima de suas vias, no ano passado. A medida deu indiscutivelmente certo e favoreceu todo mundo: pedestres, ciclistas, motoqueiros, motoristas, caminhoneiros. E, no entanto, o prefeito eleito João Doria Jr. anunciou que vai revertê-la assim que assumir o poder, logo em janeiro. Se fizer mesmo isso, Doria causará centenas de mortes, destruirá famílias e piorará o trânsito da cidade. Ninguém sairá ganhando.

    Ao reduzir as velocidades das avenidas, São Paulo seguiu o conselho da Organização Mundial da Saúde, um órgão da ONU que está bastante preocupado com a morte de mais de 1 milhão de pessoas por ano no trânsito, no mundo todo. Acidentes nas vias são uma das principais causas de mortes evitáveis do mundo – a maior entre os jovens. “E a velocidade excessiva e inadequada é o fator mais importante que contribui para o problema das lesões causadas pelo trânsito”, afirmou a organização, que compara o efeito da velocidade à de dirigir embriagado - aumentar o limite tem consequência semelhante na cidade à de embebedar todos os motoristas. A recomendação da OMS é bem clara: vias urbanas jamais devem permitir que os carros trafeguem a mais do que 50 km/h. Mais que isso, só em rodovias isoladas, que não tenham nenhum tipo de movimento nas calçadas, o que não é o caso das marginais, menos ainda das pistas locais (as pistas expressas, por não terem pontos comerciais ou pedestres nas margens, admitem velocidades um pouco mais altas, mas não mais do que 70km/h, já que têm acessos demais e recuos de menos para serem consideradas rodovias).

    Se o problema da violência no trânsito é grave no mundo todo, é mais grave no Brasil. Segundo estimativas da OMS, cerca de 47 mil brasileiros perdem suas vidas a cada ano por causa de acidentes nas vias. O órgão calcula que mais de 1% do PIB brasileiro escoe pelo ralo por causa da violência viária: algo como R$ 27 bilhões desperdiçados anualmente, o suficiente para cobrir todo o rombo da previdência em menos de três anos. Só há dois países no mundo inteiro onde o número absoluto de mortes no trânsito é maior do que o daqui: China e Índia, que têm populações maiores do que 1 bilhão de pessoas.

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    Denis R. Burgierman é jornalista e escreveu livros como “O Fim da Guerra”, sobre políticas de drogas, e “Piratas no Fim do Mundo”, sobre a caça às baleias na Antártica. É roteirista do “Greg News”, foi diretor de redação de revistas como “Superinteressante” e “Vida Simples”, e comandou a curadoria do TEDxAmazônia, em 2010.

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