Coluna

O covil do poeta

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    Sob os olhares de Bob Dylan, Marcelo Mastroianni e um desconhecido ator mexicano, Reinaldo Moraes desfruta um local de trabalho provisório

    Se na vida profissional você é "frila", ou "autônomo", como se diz, seu local de trabalho pode coincidir com o da sua moradia, 2 em 1, beleza. Seu posto de trabalho estará a poucos passos da sua cama, com toda a comodidade e economia que isso representa. Em compensação — negativa, claro — você não terá 13º salário, semana inglesa, férias e feriados pra ficar de papo pro ar, e nenhuma licença remunerada por motivo de doença, além de outras benesses trabalhistas herdadas do dr. Getúlio Vargas, que instituiu a Consolidação das Leis do Trabalho, em 1943, visando dar segurança ao trabalhador urbano em suas relações com o empregador, ao mesmo tempo que instituía um sindicalismo atrelado umbilicalmente ao todo-poderoso estado. Mas esse é outro papo.

    Bem verdade, que, hoje em dia, em face da cada vez mais disseminada terceirização, o trabalhador não "celetizado" tem que partilhar de todos os perrengues impostos à força de trabalho regular e "presencial", sem nenhuma daquelas vantagens. E dá-lhe cartão de ponto e locais de trabalho bem distantes da cama, rotinas pré-estabelecidas e hierarquias massacrantes. Pra não falar no cafezinho sofrível da firma, tomado em desconfortáveis copinhos de plástico fino e mole que queimam os dedos, e da usual tosquêra do papel higiênico do banheiro do escritório, flagelo dos fiofós mais sensíveis.

    Agora, trabalhar em casa pode ser complicado, se você não mora sozinho e não dispõe de um aposento imune a invasões constantes de gente — filhos e cônjuge, principalmente — com demandas variadas, em geral envolvendo dinheiro, afeto (sexo incluso) e uma forcinha pra resolver todo tipo de problema, de uma descarga que disparou a uma conta vencida que só pode ser paga no caixa do banco, passando pelo leva e traz de filhos em meio ao trânsito psicotizante de uma cidade como São Paulo. Prum escritor, uma tal situação pode ser nada menos que infernal, donde a necessidade de manter um mocó em outra banda pra se isolar da humanidade circundante, a mesma, paradoxalmente, que fornece os modelos básicos pros seus personagens, reais ou fictícios. Um local, enfim, pra chamar de "escritório", com estante de livros, mesa, cadeira, computador, sofá pra sonecas e leituras, algum banheiro próximo e, se possível, uma geladeira e um dispositivo pra fazer café.

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    Reinaldo Moraes estreou na literatura em 1981 com o romance Tanto Faz (ed. Brasiliense) Em 1985 publicou o romance Abacaxi (ed. L&PM). Depois de 17 anos sem publicar nada, voltou em 2003 com o romance de aventuras Órbita dos caracóis (Companhia das Letras). Seguiram-se: Estrangeiros em casa (narrativa de viagem pela cidade de São Paulo, National Geographic Abril, 2004, com fotos de Roberto Linsker); Umidade (contos , Companhia das Letras, 2005), Barata! (novela infantil , Companhia das Letras, 2007) , Pornopopéia (romance , Objetiva, 2009) e O Cheirinho do amor (crônicas, Alfaguara, 2014). É também tradutor e roteirista de cinema e TV.

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