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Coluna

O alienígena com um olho verde e outro cinza ou como ser herói por um dia

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    A destreza mais admirável de David Bowie foi sua capacidade de se reinventar, de ser muitos e sempre tão diferente

    Todo mundo já escreveu sobre ele; não há quem deixe de comentar, e não foram poucas as manifestações pelo mundo afora. David Bowie, aquele que parecia o mais imortal dos astros solares, faleceu no dia 10 de janeiro de 2016, ano que se inicia com tantas perdas na área da música. Foi também nesse ano, que mal começou, que morreu o grande compositor e maestro Pierre Boulez. Nesse caso, um habitante de outro planeta distante; um gênio da música clássica e de concerto.

    Não sou, com certeza,  especialista de rock, crítica musical e muito menos mestre na carreira desses dois artistas. Mas, se me atrevo a escrever sobre um deles, David Bowie, é porque ele fez parte da minha formação; me surpreendeu muitas vezes, e me intrigou tantas outras. Essa era, aliás, sua destreza mais admirável: a capacidade de se reinventar, de ser muitos e sempre tão diferente.

    Conheci David Bowie pela entrada dos fundos, digamos assim. Como ator!  A primeira vez que o vi foi no filme “Fome de Viver” (Tony Scott, 1983) —  quando ele atuou ao lado de Catherine Deneuve. Demorei para entender que o título não era metáfora, e que Bowie era mais que um mero ator. Na verdade, ele é o próprio canibal, no sentido de devorar tudo — comer os fortes — e voltar renovado; inspirado.

    Foi na mesma época que assisti “Furyo”; em seu título original: “Merry Christmas Mr. Lawrence” (Nagisa Oshima, 1983). Nesse filme, Bowie aparece lado a lado com outro ícone da música popular — Ryuichi Sakamoto –, e a ação se desenrola num campo de trabalhos forçados no Japão, durante a Segunda Guerra Mundial. O enredo escancarava duas culturas distintas – a da honra e a da sobrevivência – e mantinha uma insinuação velada, ao mesmo tempo tensa e latente: a atração homoerótica entre os representantes militares das duas nações em cena. Sakamoto não tocava, mas Bowie, propositadamente, “desafinava”. Muitas eram as batalhas envolvidas no filme; em guerra, vários jogos de diferença. Tantos, que achei por bem incluir o filme nos meus cursos de graduação em Antropologia na USP. Cada cultura é de certa forma etnocêntrica, e, na película, duas filosofias contracenavam, cada uma com sua verdade. Já o Bowie/ator era, para variar, um prisioneiro muito perturbador e corrompia formas de convivência possíveis, naquele contexto tão frágil.

    Bowie faria outros filmes, mais ou menos acertados. O fato é que, desde então, passei a seguir essa figura longilínea, clara de pele e cabelos, com os dentes meio atravancados. Um detalhe, porém, sempre me chamou muita atenção: Bowie tinha um olho cinza e outro verde, o que, na minha imaginação um pouco contaminada pela linguagem da ficção científica, só poderia ser um sinal certeiro: ele viera de outro planeta. Anos depois tive a confirmação: Bowie era mesmo de Marte!

    Como essa é minha história pessoal com Bowie, e não uma biografia dele, ou uma cronologia da obra do cantor e ator, peço que me perdoem, mas essa trajetória não respeita muitas temporalidades: só coincidências. Afinal, foi apenas nessa época que conheci (muito atrasada) o primeiro de seus muitos alteregos: Major Tom. O homem chegara à lua em 1969, e Bowie levava Tom em sua aeronave. Tentando correr atrás do “meu prejuízo”, pousei em Marte com “Hunky Dory”;  fui apresentada ao andrógino Ziggy Stardust; fiz contato imediato com “Aladdin Sane”, e estabeleci uma relação pessoal com Thin White Duke

    David Bowie não cabia em uma só persona, assim como não se prendia a um estilo apenas. Ele fez rock, punk, jazz e até balada – com seu polêmico “Let’s Dance” --; isso numa época em que o supra sumo da provocação era produzir, justamente, música comercial e dançante. Mais uma vez, o mutante escandalizou!

    Não contente com seus muitos heterônimos e diferentes estilos musicais, Bowie também resolveu fazer moda: em vários sentidos. Num momento em que os papeis de gênero pareciam estar bem estabelecidos (e fora de perigo aparente), Bowie logo provou o contrário:  o corpo não precisa ser (e não é) prisioneiro da biologia e da natureza. Ao contrário, ele é lugar de criação; espaço da memória e da contestação. Psicodélico e elegante; de terno bem cortado e traje informal; andrógino e yuppie; arlequim e pensador; cabelo espetado e arrumado com pente, Bowie nunca habitou a lógica do ou. Sempre foi da tribo do e.

    Como se não fosse suficiente, uma semana antes de sua morte, Bowie anunciou ao mundo o fim de sua própria passagem por essa Terra, rumo a outra galáxia. No último videoclipe, que fez para sua música “Lazarus”, confessou estar no paraíso, a despeito de nos confundir, mais uma vez: a cena era toda passada num hospital, com o paciente de olhos vendados e cada vez mais magro. Não há chance de ver o vídeo sem ficar emocionado, apesar de ter certeza que não era bem esse o efeito que o cantor pretendia alcançar. Se é que pretendia um único efeito ...  

    Cada um faz a homenagem que pode, e a minha, além de modesta, é absolutamente desprovida de ambição. A meu favor, talvez possa apenas alegar que o apelido da minha neta, quando ela ainda era um projeto na barriga da minha filha, e nem imaginávamos o seu sexo, foi Ziggy. Depois chegaria a linda Maria Isabel – Ziriguidum.  Ela também tem um pé em Marte, outro nas estrelas, e ouve Bowie – diferente da avó – desde muito pequena.

     

    Mas o Bowie que me pegou, pra valer, foi aquele de “Heroes”; música composta nos tempos em que o cantor morou em Berlim, na década de 1970.  Estávamos nos idos de 1977, muita repressão e protesto político por todos os lados, e Bowie inventou um herói que era a cara dele. Não um herói permanente e de plantão; daqueles que nascem e morrem sem contradições, ambivalências ou problemas. Nada desses heróis distantes, que mais se parecem com uma avenida sem cruzamentos, faróis, ou bifurcações. O herói de Bowie só precisava de um dia. Nesse dia, porém, ele podia ser rei e eu .. rainha. Mas apenas por um dia.

    Pouco tempo antes, no ano de 1975, Chico Buarque, habitante de mais outro planeta distante, criou um refrão para a peça “Gota d’água”, o qual, a despeito de improvável, até parece conversar com o mote do nosso Camaleão do Rock. Poetava Chico: “Pra mim, basta um dia, só mais um dia, um belo dia”. No Brasil, os tempos andavam muito difíceis e a referência alusiva era à ditadura militar, que batia forte no país. Já Bowie, nosso revolucionário da política do cotidiano, profetizou sintético: “You can be hero just for one day!” E ainda provocou: “What d’you say? ”.

    Foi o teatrólogo Bertold Brecht, morando muito perto do fantasma do nazismo, quem liquidou a fatura: “Miserável o país que não tem heróis. Miserável o país que precisa de heróis”.  Bowie é meu herói da vez. Nem que seja por um dia. Um belo dia!

    Lilia Moritz Schwarcz é professora da USP e Global Scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças", “As barbas do imperador", “O sol do Brasil" e Brasil: uma biografia”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: Um olhar sobre o Brasil” e Histórias Mestiças”. Atualmente é curadora adjunta do Masp.

    Lilia Schwarcz é professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças", “As barbas do imperador", “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário" e "Dicionário da escravidão e liberdade", com Flavio Gomes. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp.

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