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Coluna

No fundo, a crise é de confiança (como sempre, aliás)

    A confiança nos outros sempre foi um problemão no Brasil. Aí, em 2016, piorou. Como sair dessa?

    Como confiar nos outros, no Brasil? Quem, em sã consciência, confia no Congresso, nos políticos, nos partidos? Alguém aí confia no presidente da República? Hehe. E na Justiça? Quem confia na polícia, meu Deus? No sistema político, no sistema de educação, no sistema de saúde. Como confiar na mídia? Nos empresários, nos proprietários, nos banqueiros; nos sindicatos, nas associações, nas federações; no comércio, na indústria, nos serviços? E no povo? Quem é que confia no povo brasileiro? Quem aí confia na democracia?

    Falta de confiança não é um traço novo no Brasil. A cada cinco anos, cientistas sociais do mundo inteiro, coordenados por uma equipe na Suécia, fazem uma grande pesquisa em quase 100 países do mundo para medir os valores dos seres humanos em cada lugar – é a World Values Survey. Um dado impressionante sobre o Brasil repete-se toda vez, a cada edição da pesquisa, desde que ela começou a ser medida, nos anos 1990: somos um dos países do mundo onde as pessoas confiam menos nas outras.

    De 91 países do mundo todo, o Brasil desponta como 87º colocado no ranking de confiança. Na pesquisa de 2014, só 6,5% dos brasileiros achavam que “dá para confiar na maioria das pessoas”. No mundo inteiro, só Colômbia, Trinidad e Tobago, Gana e Filipinas têm índices mais baixos. Na Argentina 22,7% confiam nos outros. Nos Estados Unidos, são 32,8%, no Canadá, 41,1%, na Alemanha, 42%. Na Noruega, líder do ranking, 77,7% das pessoas acham que dá para confiar nos outros na maioria das vezes. Ruanda, onde metade do país recentemente matou a outra metade, está bem à frente do Brasil (16,6%, depois de ter afundado a 4,9% em 2009).

    Viver num país de baixa confiança não é ruim só para os hippies: é um prejuízo objetivo para todos nós, e nos deixa muito mais pobres. Há uma correlação absolutamente clara entre confiança e riqueza. Países com índices mais altos de confiança se desenvolvem mais, são menos desiguais, mais cheios de oportunidades. São também mais justos, porque onde a confiança é alta, quem se comporta bem acaba sendo recompensado com muito mais oportunidades (onde a confiança é baixa, vale mais a pena abusar dos outros e dar o fora).

    Nada na economia fica de pé se não há confiança. Pensa bem: quem é que garante para você que um retângulo de papel pintado de marrom com um desenho fofo de uma onça vale mesmo R$ 50? Se não fosse a confiança que você tem naquelas assinaturas fuleiras no canto, indicando que há um Estado garantindo aquele valor, você jamais trocaria um papelzinho daqueles por um almoço completo, com bebida e gorjeta.

    Sem confiança, nada acontece. Para comprar um picolé na padaria, você precisa acreditar que a água não é de esgoto, que a padaria não vai clonar seu cartão, que o caixa não vai fugir com seu dinheiro. No Brasil, o índice de confiança não é assim tão baixo a ponto de se deixar de acreditar no valor do papel-moeda ou na possibilidade de chupar um picolé, mas com certeza ele inibe muitos projetos e desvaloriza todo mundo. Num ambiente em que uns não confiam nos outros, tudo circula menos: menos parcerias são feitas, menos inovação acontece.

    Se já era difícil para um brasileiro confiar em outro, a coisa encrespou de vez neste 2016 surreal

    Dá para observar facilmente essa limitação num outro ranking: o da Complexidade Econômica, criado em conjunto por pesquisadores de Harvard e do MIT (que aliás colocaram no ar este site espetacular para quem pira com visualizações interativas). O ranking mede o quanto cada indústria de cada país do mundo tem conexões com outras. Economias complexas empregam muito mais gente, geram muito mais negócios e possuem muito mais valor. O Brasil se sai mal nesse ranking também – fica em 32º, bem abaixo daquilo que o tamanho de sua economia poderia indicar.

    Mais revelador do que a colocação, já que isso não é Olimpíada, é ir lá ao site dar uma olhada nos dados. Veja, por exemplo, a economia brasileira de exportação, que é o conjunto das coisas que oferecemos ao mundo. Note como a grande maioria daquilo que produzimos – minério de ferro, soja, café, açúcar cru, carne de frango – é feito por cadeias bem curtas, que portanto dão oportunidade a pouca gente. Compare então com o Japão, líder do ranking: circuitos integrados, monitores, motores, turbinas, carros e suas peças, só coisa complexa, cuja produção conecta centenas de pessoas e indústrias.

    O fato é que, em países onde a confiança é baixa, onde cada um acha que o outro está querendo passá-lo para trás, é praticamente impossível tecer a rede complexa que é necessária para sustentar uma economia vibrante, variada e menos desigual. No Brasil, isso é um problema faz muito tempo.

    E aí, agora, piorou. Se já era difícil para um brasileiro confiar em outro, a coisa encrespou de vez neste 2016 surreal, no qual praticamente todas as principais instituições brasileiras, da Presidência ao Congresso à Justiça à polícia ao Exército à mídia, perderam rapidamente quase toda a pouca confiança depositada nelas pela população.

    Por tudo isso, fiquei feliz em saber que os pesquisadores do ITS (Instituto de Tecnologia & Sociedade do Rio) estão apostando em desenvolver tecnologia para restaurar confiança. Ronaldo Lemos, que lidera o ITS, fez uma palestra esta semana na qual anunciou a intenção de criar um sistema que permita aos cidadãos brasileiros reescrever as leis do país. Ronaldo falou do conceito de “trustless trust”, ou “confiança sem confiança”. Trata-se do fenômeno que acontece em sites como o AirBnb ou o Uber: a maioria de nós não emprestaria a casa para um desconhecido nem entraria no carro de um estranho, mas um sistema baseado em avaliações que vão construindo uma reputação nos faz sentir seguros para fazê-lo. Pesquisas mostram que, dentro de alguns desses sites, os índices de confiança nos outros passam de 80% – taxas maiores que as norueguesas.

    Talvez um sistema desse tipo fosse o único jeito de encontrar uma saída para o colapso sistêmico da política brasileira. Afinal, é óbvio que não dá para confiar neste Congresso safado para reformar-se a si mesmo: nenhuma solução saída dele vai inspirar confiança no resto de nós. Mas com certeza eu confiaria nos pesquisadores do ITS para ajudar a planejar e conduzir um processo que gere, de maneira inclusiva e democrática, uma reforma política realmente profunda neste país desconfiado.

    Denis R. Burgierman é jornalista e escreveu livros como “O Fim da Guerra”, sobre políticas de drogas, e “Piratas no Fim do Mundo”, sobre a caça às baleias na Antártica. É roteirista do “Greg News”, foi diretor de redação de revistas como “Superinteressante” e “Vida Simples”, e comandou a curadoria do TEDxAmazônia, em 2010.

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