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Coluna

Neuroanatomia da mentira e da rapina

    A Dra. Sharot apenas comprovou o que mais ou menos todo mundo já sabia de forma intuitiva: trair, mentir, roubar e coçar, é só questão de começar

    Em sua coluna na “Folha de S.Paulo”, a neurocientista brasileira Suzana Herculano-Houzel mencionou, dia desses, uma pesquisa da University College of London que aponta a estreita relação entre uma determinada estrutura do cérebro, a amígdala (não confundir com as amídalas guardiãs da garganta), e comportamentos desonestos, aí incluído o exercício da mentira contumaz.

    A amígdala cerebral, como acabo de aprender, situa-se nos cafundós dos lobos temporais e é fundamental no processamento das emoções, tais como ansiedade, culpa, remorso, raiva, amor, gratidão, ganância, e mais outros sentimentos que você puder imaginar. Como constataram os pesquisadores do College of London testando voluntários variados, se enfiarem a sua cabeça num scanner por ressonância magnética enquanto você estiver mentindo em proveito próprio ou bolando um esquema pra desviar alguns milhões da Petrobras ou de alguma usina hidrelétrica ou arena da Copa, o scanner vai flagrar as reações da sua amígdala diante da sua desonestidade.

    Na verdade, quanto mais acostumada com as suas falcatruas ela estiver, menos sinais emitirá pro scanner. A indiferença da amígdala é a maior bandeira do caráter da pessoa. Ou falta de. Portanto, se você se envolver com corrupção sistemática, fique longe de uma máquina dessas. Ela pode passar um constrangedor recibo dos seus malfeitos.

    Achei essa história tão iluminadora da chamada vida-como-ela-é que fui atrás de mais detalhes na internet. Logo dei com uma matéria recente no site da CNN com declarações da doutora Tali Sharot, uma das neurocientistas que conduziram a tal pesquisa sobre amígdala e desonestidade, realizada com cidadãos comuns, pouco afeitos à rapinagem sistemática, até onde os cientistas ingleses podiam saber.

    Ler sobre a pesquisa da Dra. Sharot me fez interrogar hamletianamente os desígnios ocultos da minha própria amígdala. Até que ponto sou tão honesto quanto julgo ser?

    A Dra. Tali Sharot, aliás, nem é inglesa, e sim conterrânea de um dos mais bem-sucedidos mentirosos que já deram as caras na mídia moderna, o trampolinante Mr. Trump, que nem amígdala mais deve ter. Ela vai ter no futuro presidente do seu país farto material de estudo sobre mitomania neopopulista causada por atrofia da amígdala e hipertrofia do topete, bastando pra isso abrir o jornal de manhã.

    Uma das conclusões da pesquisa foi que, quando mentimos em benefício próprio, a amígdala produz um sentimento negativo que opõe limites à nossa capacidade de mentir. Mas só da primeira vez. Se continuamos a mentir, embromar, ludibriar, o cérebro acaba ficando craque nisso, obtendo melhores resultados a cada vez. Taí o Trump que não deixa a Dra. Sharot mentir.

    Vem daí, por exemplo, a imperturbável cara de pau das figurinhas carimbadas da Lava Jato. A amígdala deles se finge de morta diante da rotina de patifarias e lorotas dos caras. E o superego deles derrete feito chicabom ao meio-dia no Saara.

    Ler sobre a pesquisa da Dra. Sharot me fez interrogar hamletianamente os desígnios ocultos da minha própria amígdala. Até que ponto sou tão honesto quanto julgo ser? Ou, por outra, até que ponto minha amígdala já não estaria corrompida pela cultura do famoso jeitinho brasileiro, como, aliás, a neurocientista brasileira sugere que ocorre com alarmante frequência entre nós?

    Dar chapéu nas leis e nas regras sociais básicas, produzir ficções edulcoradas sobre nossas trapaças, molhar a mão de macacos que te quebrem galhos, essa é a nossa praia. E, claro, ao se olhar no espelho ninguém vê refletida a imagem de uma amígdala indiferente à pilantragem, pois quem prevarica é sempre o outro, esse suspeito habitual.

    Lembro de pelo menos uma ocasião em que minha amígdala foi posta à prova, diante de uma proposta fraudulenta que se anunciava como altamente lucrativa. A coisa envolvia a compra de equipamentos eletrônicos contrabandeados para serem vendidos pruma instituição pública pelo dobro do preço, com notas frias "da maior qualidade", como assegurava meu corruptor em potencial.

    Minha amígdala se arrepiou toda ao ouvir a proposta. Excitação, medo e vergonha antecipada foram alguns sinais emotivos que ela enviou pro resto do meu psiquismo. Se eu estivesse com a cabeça enfiada num scanner naquela hora, minha amígdala emitiria uma luz fulgurante de virtude. Talvez até gritasse um "Pega ladrão!" dentro do cérebro.

    Não topei a xaropada, lógico. Ponto pra minha amígdala. A julgar pelas observações científicas da Dra. Sharot e sua equipe, se eu tivesse topado, teria se iniciado ali um processo de amortecimento dessa estrutura cerebral que poderia culminar, anos depois, numa visita do japonês da federal à minha casa, antes do café da manhã, por conta de sabe-se lá que novas e vultosas negociatas que, com toda a probabilidade, se seguiriam ao golpinho dos equipamentos contrabandeados. Sem falar que o folclórico policial também esconde uma amígdala meio frouxa por trás daqueles óculos escuros, pois até já puxou cana por se associar a contrabandistas. Bem Brasil.

    A Dra. Sharot, palestrista brilhante e espirituosa, que pode ser vista no youtube, apenas comprovou, por vias científicas, o que mais ou menos todo mundo dotado de amígdala cerebral já sabia de forma intuitiva: trair, mentir, roubar e coçar, é só questão de começar.

    Reinaldo Moraes estreou na literatura em 1981 com o romance Tanto Faz (ed. Brasiliense) Em 1985 publicou o romance Abacaxi (ed. L&PM). Depois de 17 anos sem publicar nada, voltou em 2003 com o romance de aventuras Órbita dos caracóis (Companhia das Letras). Seguiram-se: Estrangeiros em casa (narrativa de viagem pela cidade de São Paulo, National Geographic Abril, 2004, com fotos de Roberto Linsker); Umidade (contos , Companhia das Letras, 2005), Barata! (novela infantil , Companhia das Letras, 2007) , Pornopopéia (romance , Objetiva, 2009) e O Cheirinho do amor (crônicas, Alfaguara, 2014). É também tradutor e roteirista de cinema e TV.

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