Coluna

Metáfora de relógios e relojoeiros, ou como regular os ponteiros em relação à política de delação

    Ideias do escritor Machado de Assis e do historiador Kenneth Maxwell podem explicar o descompasso do tempo moderno

    Machado de Assis escreveu uma série de crônicas usando a imagem forte dos relógios e do relojoeiro. Um primeiro suposto básico era que esse profissional atuava como um crítico de si mesmo. Segundo “o Bruxo do Cosme Velho” - alcunha que o escritor ganhou, entre outros, por conta da referência à rua e ao bairro em que morava - relojoeiro é aquele que “descrê do seu ofício”, por nunca ter certeza de estarem corretos os ponteiros do seu mostrador. Sofre com os minutos que faltam, mas também com aqueles que excedem.

    Mas Machado não ficou apenas como profissional dessa arte; transformou os próprios relógios em símbolos. Eles funcionavam para definir uma espécie de estética da política, bem como as práticas mais cotidianas  de nossos políticos nacionais.

    Num texto escrito no dia 5 de abril de 1888 - muito próximo da data da Lei Áurea que decretou o final “atrasado” da escravidão no Brasil -nosso Bruxo fez das suas profecias. Ele não tinha como saber, mas pouco depois desse ato (que foi o mais popular e também o último do Império), em um ano e meio aproximadamente, a própria monarquia cairia no Brasil.

    Esses eram, sem dúvida, momentos de muita instabilidade e que pediam políticos “pontuais” e pouco afeitos à influência das “horas alheias”. Mas o que Machado descreve nesse texto, incluído na série de crônicas “Bons dias”, é em tudo diferente: esses endiabrados instrumentos de medição do tempo andavam rebeldes, não concordando mais entre si. Conforme explica o literato: “os relógios discrepam e fica-se sem saber de nada, porque tão certo pode ser meu relógio como o do meu barbeiro”. Com sua famosa verve irônica, conta Machado que um político do Partido Liberal estava “encasacado” para sair pois “a hora pingava”. Foi quando passou o carro do imperador e ele se deu conta de que seu relógio estava adiantado ou, então, que era “Sua Alteza que se atrasara”. E pergunta o colunista: “Quem os porá de acordo?”

    O fato é que relógios serviam para Machado descrever a atitude “pouco pontual” dos políticos do Império. Não havia consenso com relação “ao momento correto” para agir, assim como eles não se mantinham na “mesma hora” por muito tempo.

    “Hora” de recuar um pouco no tempo. Conta o historiador Kenneth Maxwell, no seu livro “A devassa da devassa”, que nos idos de 1789, bem na época da Inconfidência Mineira, os ponteiros já andavam confusos. Por exemplo, as principais delações - feitas por Silvério dos Reis e Basílio Malheiro do Lago - foram resultado de decisões meramente pessoais. Os dois, àquela altura, não se encontravam presos e tampouco acharam que deveriam apresentar documentos que comprovassem suas acusações. Simplesmente fizeram contas, acertaram os respectivos relógios de bolso, e avaliaram que tinham mais a ganhar delatando, do que guardando silêncio e lealdade a seus companheiros de Conjuração. Assim se livravam de qualquer futura contrariedade diante da lei e ainda conseguiam o perdão das suas dívidas. E foi o que fizeram.

    Essa história de desacordo de horários parece muito com a política atual, que anda  mais agitada do que seriado de TV. A cada dia uma nova notícia, a cada hora um escândalo inesperado.

    Os delatores revelaram-se ainda mais espertos e seletivos; acusaram alguns, protegeram outros. Maxwell explica que, milagrosamente, João Rodrigues de Macedo, o homem mais rico da província, não foi sequer mencionado nos “Autos da Devassa”. É por isso que o ambiente todo mais se parecia com um relógio de corda empanada. Ora, como explicar tal atraso nos ponteiros se vários encontros dos sediciosos ocorreram, exatamente, na casa de Macedo? O certo é que quem delatou escolheu suas vítimas, e a dedo.

    Para completar o quadro, as prisões também foram rigorosamente seletivas. A Coroa deteve meia elite de Minas Gerais, mas deixou a outra metade (mais uma vez) de fora. Por sinal, esqueceu igualmente de investigar o que ocorria no Rio de Janeiro; província que, nesse contexto, mantinha laços fortes com o pessoal da Conjuração Mineira. Parece que, novamente, acertaram-se os relógios na “hora (que deveria ser) certa” e apenas alguns poucos elementos, no interior de um grupo bem mais amplo, foram presos. Chegada a hora do relógio despertar, a Coroa achou por bem parar os ponteiros e interromper as prisões. Devem ter conjecturado que se prendessem todo mundo acabariam por provocar um levante social, o que não seria – ao menos na ótica da rainha de Portugal – nem um pouco recomendável.  Fim do episódio: só Tiradentes foi enforcado publicamente, na hora correta e exemplar!

    Essa história de desacordo de horários parece muito com a política atual, que anda  mais agitada do que seriado de TV. A cada dia uma nova notícia, a cada hora um escândalo inesperado. O problema é que o “horário” das notícias insiste em variar. Vejamos como andam “os ponteiros” da política de delação. Como na época da Inconfidência Mineira, eles andam acelerados quando buscam denunciar alguns criminosos; atrasados quando pretendem retardar outros envolvidos. Ao que tudo indica, não há jeito de se chegar a um acordo comum.

    No entanto, vai chegando a hora de acertarmos os “relógios dessa história”. Sei que qualquer comparação carrega lá suas limitações; mas ninguém há de negar que, no caso dos relógios atuais, estamos precisando que eles corram regularmente, azeitados e de forma ininterrupta. Só dessa maneira serão presos todos os corruptos e os corruptores. Não vale, porém, deixar a bateria descarregar, não comprar pilha nova, ou parar de acionar o movimento do relógio; tudo no minuto em que se chega “na outra metade”. Também não está autorizada a prática de parar a corda bem na hora em que ela parece ter esticado demais.

    Metáforas são metáforas, mas são muito mais do que isso. Nesse momento não há como esquecer da atitude do relojoeiro de Machado, que sempre desconfia do seu ofício e pretende acertar os ponteiros, até quando eles insisteam “em não se por de acordo”.

    A corrupção  é mesmo um dos grandes óbices da nossa democracia e não se descobriu escala ou grau que a redima. Assim, é de bom alvitre desconfiar de quem acha que existe um “ponteiro” que determina, na base do tic-tac, que: “até aqui não há problema; daqui para lá estamos em plena corrupção”. Meio corrupto é corrupto inteiro!

     Só há combate eficaz quando o “acordo de horas” é da ordem do geral: da “res-pública”. Ou seja, do direito que é de todos e que afeta a todos. Por isso mesmo, não funciona decretar que é chegado o momento de parar as máquinas e zerar os relógios. Nesse caso, qualquer semelhança não será (apenas) mera coincidência.

    Lilia Schwarcz é professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.

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