Coluna

"Luz! Mais luz!"

    A vida humana só viceja sob a luz. Somos animais diurnos, por mais que boêmios da pá virada e vampiros em geral discordem dessa afirmativa

    As últimas palavras de Goethe ao morrer teriam sido: "Luz! Mais luz!". Esse podia ser o mote da iniciativa da prefeitura paulistana de dar um upgrade radical nas 618 mil luminárias da cidade, que deverão abandonar o vapor de sódio para abraçar a tecnologia LED (Light Emitting Diode), a partir deste ano. O custo é salgado: 7 bilhões de reais. Mas as lâmpadas LED, eletrônicas, consomem menos energia elétrica e sua eletroluminescência produz mais claridade, afastando com mais eficiência o negror da noite, metáfora da morte para muitos poetas, Goethe entre eles. Outro poeta, o Fernando Pessoa, na voz de seu heterônimo Alberto Caeiro, concordaria: "É noite. A noite é muito escura. Numa casa a uma grande distância / brilha a luz duma janela. / Vejo-a, e sinto-me humano dos pés à cabeça."

    De fato, a vida humana só viceja sob algum tipo de luz, de preferência a do sol, tão óbvia quanto essencial. Somos animais diurnos, por mais que boêmios da pá virada e vampiros em geral discordem dessa afirmativa. Poucas vezes a gente para pra pensar nisso, do mesmo jeito que devem ser poucas as pessoas que acordam de manhã sentindo-se primatas, mamíferos ou terráqueos, outros rótulos que nos cabem por força da natureza das coisas. Vai daí que a humanidade continua se aperfeiçoando na arte de afastar as trevas noturnas de todo habitat humano. Luz soa para muitos como sinônimo de civilização, e qualquer astronauta com insônia pode vislumbrar pela escotilha de sua nave o mapa mundi das desigualdades econômicas mundiais desenhado na banda noturna do planeta. A parcela ocidental do hemisfério norte é, de longe, a mais iluminada, no seu conjunto, sendo que uma única avenida, a Strip, de Las Vegas, sede dos grandes hotéis-cassinos, é o ponto mais luminoso da Terra à noite. Na banda oriental, Tóquio é, de longe, a campeã de luminescência.

    Dispor de tanta luz assim, porém, tem um custo ambiental muito alto, alertam os cientistas. Nos Estados Unidos, a Dark-Sky Association (Associação do Céu Escuro), entidade sem fins lucrativos, foi criada justamente para combater a poluição luminosa na superfície da Terra. À parte os bilhões de dólares empenhados na iluminação excessiva da escuridão noturna, a geração de eletricidade carreada para as luminárias públicas despeja 38 milhões de toneladas de dióxido de carbono na atmosfera aspirada pelos americanos, num país em 67% dessa energia vem da queima de combustíveis fósseis (carvão, gás natural e petróleo). Além disso, como escreveu na revista National Geographic o jornalista Verlyn Klinkenborg, também colaborador regular do "New York Times" para assuntos rurais e ambientais, "Sistemas de iluminação mal-projetados devastam a escuridão da noite e alteram radicalmente os níveis de luz, bem como os ritmos associados à luminosidade, aos quais muitas formas de vida, inclusive a nossa própria, estão adaptadas. Sempre que a luz artificial extravasa para a natureza, algum aspecto da vida animal – migração, reprodução, alimentacão – se vê afetado."

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    Reinaldo Moraes estreou na literatura em 1981 com o romance Tanto Faz (ed. Brasiliense) Em 1985 publicou o romance Abacaxi (ed. L&PM). Depois de 17 anos sem publicar nada, voltou em 2003 com o romance de aventuras Órbita dos caracóis (Companhia das Letras). Seguiram-se: Estrangeiros em casa (narrativa de viagem pela cidade de São Paulo, National Geographic Abril, 2004, com fotos de Roberto Linsker); Umidade (contos , Companhia das Letras, 2005), Barata! (novela infantil , Companhia das Letras, 2007) , Pornopopéia (romance , Objetiva, 2009) e O Cheirinho do amor (crônicas, Alfaguara, 2014). É também tradutor e roteirista de cinema e TV.

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