Coluna

Interesse público não é a mesma coisa que opinião pública

    De uma alta autoridade da República não se espera que gaste tempo com bobagens insignificantes, como o interesse público

    O mais curioso de um dos últimos escândalos da República, aquele envolvendo tráfico de influência para permitir a construção de uma torre monstruosa à beira da cidade histórica de Salvador, foi a reação do acusado, o ministro-chefe Geddel Vieira Lima, braço direito do presidente Temer. “Vou deixar o cargo por causa disso?”, exclamou, surpreso, ao “Estado de S. Paulo”. “Pelo amor de Deus”, invocou, em vão, meio que sem entender o que tinha de errado em pedir ao ministro da Cultura que interviesse em seu favor para liberar a obra, apesar do parecer contrário do instituto que zela pelo patrimônio histórico do Brasil.

    Boa parte do establishment de Brasília acompanhou Geddel em sua surpresa. “Estão fazendo tempestade em um assunto tão pequeno, enquanto temos assuntos muito maiores no Brasil”, relativizou um colega, o líder do governo na Câmara. Geddel, afinal, é uma grande autoridade da República, dessas ocupadas com grandes questões, como as emendas à Constituição, a pedido do presidente em pessoa. Não é de bom tom perturbá-lo com assuntos comezinhos, como a denúncia de que ele tentou, em interesse próprio, atropelar um laudo técnico para provocar a erupção de uma verruga urbana no horizonte da cidade velha de Salvador – uma intervenção grotesca na vista histórica da antiga capital do Brasil, que por décadas enfeiaria a cidade, afugentaria os turistas e roubaria de cada cidadão soteropolitano um pouquinho do orgulho de viver numa cidade linda. Enfim: espera-se que o interesse de uma alta autoridade valha mais do que o difuso “interesse público”.

    Muito pode ser dito sobre as ações de Geddel e de seu chefe nesse episódio, dos pontos de vista ético e legal. Mas deixemos esses dois aspectos de lado por um momento, para falar de um outro, que está mais na moda: o da gestão. Essa história ilustra exemplarmente como a cultura organizacional do governo brasileiro tem algo profundamente errado – e isso não se limita à esfera federal. Este aqui é um país onde acha-se normal que dados técnicos e análises científicas sobre o interesse coletivo sejam sobrepujados por um “e eu, como é que eu fico?” de alguém no alto da hierarquia. Qualquer especialista em gestão concordaria que essa não é uma cultura propícia a decisões corretas.

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    Denis R. Burgierman é jornalista e escreveu livros como “O Fim da Guerra”, sobre políticas de drogas, e “Piratas no Fim do Mundo”, sobre a caça às baleias na Antártica. É roteirista do “Greg News”, foi diretor de redação de revistas como “Superinteressante” e “Vida Simples”, e comandou a curadoria do TEDxAmazônia, em 2010.

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