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In crapula veritas

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    Entre os intelectuais bebuns, os escritores artistas sempre se destacaram por sua tendência a agarrar-se a um drink como fator estabilizante

    "Intelectual não vai à praia. Intelectual bebe." Essa frase, espécie de lema da boemia carioca dos anos 60, teria sido cunhada por um dos bebuns mais folclóricos do Rio de Janeiro à época, o economista Roniquito de Chevalier, figura que dedicava igual dedicação aos copos e às frases epigramáticas que despejava com generosidade pelos bares na Cidade Maravilhosa. Paulo Francis, outro devoto do santo Scotch (cerveja era pra amadores), vivia repetindo essa máxima etílica, levando muitos a acreditarem que ela tinha sido cunhada por ele. E há também quem atribua essa autoria a outro figuraça das noites cariocas, o Hugo Bidê, que ganhou esse sobrenome por ter, supostamente, servido uma feijoada no bidê do seu banheiro, por falta de recipiente mais adequado.

    É possível especular que o elemento oculto nessa frase famosa é a palavra ressaca, que explicaria porque o intelectual não vai à praia, acometido, ao acordar, por ondas de vômito, cefaleia e depressão alcoolêmica, quando não também de diarreia. E quem é que se aventura a pegar uma praia nessas condições? O ressacado intelectual só consegue ficar jogado num canto até que suas funções neurovegetativas se estabilizem, em geral já de noite, com todos os bares e boates de portas abertas outra vez, a exemplo das garrafas de bebida e de não poucos corações femininos.

    Falando em corações femininos, desnecessário dizer que esse intelectual da frase do Roniquito é presumivelmente um homem, nunca uma mulher. Naquele meio essencialmente machista, apesar de muito divertido e até romântico, a mulher só pagava de musa ou de sex toy da rapaziada. As intelectuais deviam ficar em casa, lendo, ou nas universidades, tendo ou dando aulas, e não costumavam dormir bêbadas às 6 da manhã, depois de chutadas pra rua pelo porteiro do último inferninho de Copacabana, por supuesto. Sorte delas, diria um sóbrio contumaz.

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    Reinaldo Moraes estreou na literatura em 1981 com o romance Tanto Faz (ed. Brasiliense) Em 1985 publicou o romance Abacaxi (ed. L&PM). Depois de 17 anos sem publicar nada, voltou em 2003 com o romance de aventuras Órbita dos caracóis (Companhia das Letras). Seguiram-se: Estrangeiros em casa (narrativa de viagem pela cidade de São Paulo, National Geographic Abril, 2004, com fotos de Roberto Linsker); Umidade (contos , Companhia das Letras, 2005), Barata! (novela infantil , Companhia das Letras, 2007) , Pornopopéia (romance , Objetiva, 2009) e O Cheirinho do amor (crônicas, Alfaguara, 2014). É também tradutor e roteirista de cinema e TV.

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