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Coluna

Hamlet na varanda

    Pra iniciar essa viagem de volta no tempo com o intuito de encontrar minhas almas anteriores, formulei a singela questão: quem era eu e o que estava fazendo há 15 minutos?

    O lugar: um ponto alto da banda mineira da serra da Mantiqueira, a 1.350 metros do nível do mar, no meio de um jardim com grama aparada e altivas araucárias. Tem um riacho correndo sonoro nas imediações, passarada desenhando trinados na pauta do ar, um casal de jacus galinhando pelo gramado, uma araponga de gogó metálico reclamando ao longe - felizmente, bem ao longe -, siriemas pernaltas caçando lagartos ou alguma cobrinha desavisada, e eu, instalado na varanda dessa casinha de roça, piquininha, mas assaz confortável, que alugo em parceria com um amigo. Sempre venho pra cá com um monte de coisa pra escrever e ler. Escrevo e leio, dou uma caminhada e volto a escrever e ler. Tomo um vinho à noite, ao pé da lareira, se estiver muito frio. E escrevo mais um pouco tomando vinho. Aqui não pega celular nem sinal de internet.

    Outra coisa que faço aqui, essa inevitável, em meio a tamanha solidão, é pensar, pois isto aqui é uma máquina de introspecção profunda. Claro que pra escrever, por exemplo, é preciso pensar, um pouco, pelo menos, muito embora, ao reler um texto meu no dia seguinte, muitas vezes vejo o quão pouco houve, de fato, de pensamento que preste envolvido ali. E é lógico que ler é sempre assimilar o pensamento verbalizado que alguém deitou no papel. Ou seja, é preciso pensar o pensamento do autor, seja ficcionista, ensaísta, o que for.

    Porque me parece intuitiva a noção de que não temos uma única identidade na vida, um temperamento só, um caráter imutável

    Estou falando, no entanto, de pensar por pensar. Pensar em si, não pra escrever ou entender texto de ninguém. Só pensar. Como agora, que me deu na soleníssima veneta a ideia de retroceder no tempo em busca das minhas identidades perdidas num passado que já vai lá roçando as barbas do imperador. Um terapeuta de vidas passadas de mim mesmo, eis no que comecei a me arvorar. Um arqueólogo das minhas antigas identidades.

    Porque me parece intuitiva a noção de que não temos uma única identidade na vida, um temperamento só, um caráter imutável. Isso tudo, que eu entendo como sendo a alma de uma pessoa, isso vai mudando com as fases da vida de cada um, demarcadas tanto pelo simples correr da idade, quanto por eventos transicionais que te jogam em outro patamar existencial, como uma formatura, um casamento, um novo emprego, nascimento de filho, a sonhada aposentadoria, e por aí vai. (Sem falar nos infortúnios da vida, que los hay, los hay. Toc-toc-toc.)

    Pra iniciar essa viagem de volta no tempo com o intuito de encontrar minhas almas anteriores, formulei a singela questão: quem era eu e o que estava fazendo há 15 minutos?

    Por que 15? Por que minutos? Nenhuma alusão aqui ao número atribuído ao PMDB, advirto. E não sabia também por que minutos, e não anos. Uma bizarrice, concordo. Mas eu estava só pensando livremente. E já disse o Millôr que livre-pensar é só pensar - justamente o que estou fazendo agora.

    Mas, aí lembrei de um episódio lido num livro do Bill Bryson, jornalista americano radicado na Inglaterra que teve algumas de suas obras memorialísticas editadas no Brasil. Em visita à sua terra natal, Bill Bryson resolveu fazer a famosa trilha pela crista dos Montes Apalaches, que, se não me engano, são um trecho das poderosas Rocky Mountains, cadeia de montanhas que atravessa todos os estados do meio-oeste americano e vai cutucar lá em cima a bunda do Canadá. Chuto essas infos de cabeça, por falta, como já disse, de sinal de internet aqui nesta dobra de morro onde me acho homiziado. Por isso também não tenho como buscar o título do livro do Bill Bryson, que, diacho, não lembro agora.

    Isto posto, le google c'est moi.

    Pois então, o Bryson (espero que seja ele mesmo!) e seu grupo vinham caminhando há dias pela trilha dos Apalaches quando toparam com outro bando de andarilhos que vinha da direção oposta. Ao se cruzarem, uma moça da outra turma entabulou um papo com o jornalista e quis saber o que ele fazia da vida. Bryson respondeu: "Sou micropaleontologista." A moça naturalmente quis saber que raio de coisa era essa. Ao que o autor respondeu: "A micropaleontologia é a ciência que estuda a vida no planeta nos últimos quinze minutos."

    Não sei se a andarilha achou alguma graça na resposta farsesca do jornalista, mas eu me escangalhei de rir quando bati os olhos nesse trecho, que cito aqui sem a menor precisão. E os tais dos 15 minutos da micropaleontologia ficaram grudados na minha memória. Vem daí, pois, a questão de ordem sumamente micropaleontológica que eu acabo de me postular aqui na Mantiqueira: que tipo de alma me habitava 15 minutos atrás e o que fazia ela então?

    Aí é que tá. Por incrível que pareça, descubro o quão difícil é estabelecer com precisão absoluta quem eu era há 15 minutos apenas. O que eu fazia, isso é mais simples: eu tinha me levantado daqui pra pegar mais café na garrafa térmica, lá na cozinha. Para tanto, me valia de um corpo muito semelhante ao que eu trago comigo agora. E uma caneca igualzinha a essa aqui ao meu lado. Ao ver o café se despejar fumegante da boca da térmica pra dentro da caneca, tive um instante de alumbramento metafísico: isto, pra mim, neste momento, é ser alguém, seja lá quem for, e estar vivo.

    Não demorou muito pra tal certeza vitalista sofrer o ataque de outra certeza, esta conturbadora: a de que o ser-ali se servindo de café não passava de um ser mortal, bem como era finito, além de incerto, o número de cafés que aquele ser viria a tomar na vida. Senti-me estranhamente póstumo segurando a caneca cheia daquele líquido enlutado que eu mesmo tinha preparado uma hora antes.

    Como se vê, pode com facilidade resultar em metafísica a solidão de um sujeito que se põe a escrever na varanda de uma casinha entocada nas montanhas, ainda mais com esse tempinho enfarruscado dos últimos dias, típico da primavera. Qualquer chuvinha ou cerração, tá lá você a contemplar as araucárias através da cortina de goteiras que caem da beira do telhado, pagando de Hamlet e se questionando a sério, entre goles no café já menos que morno: ser ou não ser. E vice-versa.

    Veja, portanto, como são as coisas: há 15 minutos, me servindo de café quentinho da térmica amarela, tive aquele lampejo de certeza de ser alguém e de estar vivo. Entre ser ou não ser, eu apostaria todas as minhas fichas no ser. Eu era 15 minutos mais jovem, então. E creio ter sido feliz naquele instante. filosófico-cafeínico. Acho que fui mesmo, pelo menos até me bater a desagradável consciência da finitude do ser, e coisa e tal.

    Agora a chuva apertou. Um vento que veio do polo sul driblando essas montanhas me arranca da metafísica e me arrepia o físico. Melhor recolher a alma e proteger o físico com minha velha jaqueta de couro. Me ocorre que ninguém consegue ter dúvidas existenciais com frio, fome ou depois de ter acertado uma martelada no dedão.

    Ok, vamo trabaiá, que eu vim aqui foi pra isso, não pra contemplar as araucárias e obrigá-las a partilhar comigo de questões ontológicas profundas e sem solução à vista. E se não faço isso com as araucárias, por que fazer com meu dileto leitor, não é verdade? Esse tempinho não tá pra auto-análises, quer de vidas passadas, presentes ou futuras, nem mesmo sob um galhofeiro enfoque micropaleontológico. Seria o caminho certo pra rolar pela ribanceira de uma depressão rural sem fundo.

    E, no fim das contas, um tal mergulho nada acrescentaria ao meu autoconhecimento anímico. Aliás, lembro, a esse propósito, do meu saudoso amigo Alberto Marsicano, grande poeta e músico, dizendo que todos os consultórios de psicanálise deveriam ter uma placa na parede, logo acima do divã, com a advertência: "A alma é insondável."

    Reinaldo Moraes estreou na literatura em 1981 com o romance Tanto Faz (ed. Brasiliense) Em 1985 publicou o romance Abacaxi (ed. L&PM). Depois de 17 anos sem publicar nada, voltou em 2003 com o romance de aventuras Órbita dos caracóis (Companhia das Letras). Seguiram-se: Estrangeiros em casa (narrativa de viagem pela cidade de São Paulo, National Geographic Abril, 2004, com fotos de Roberto Linsker); Umidade (contos , Companhia das Letras, 2005), Barata! (novela infantil , Companhia das Letras, 2007) , Pornopopéia (romance , Objetiva, 2009) e O Cheirinho do amor (crônicas, Alfaguara, 2014). É também tradutor e roteirista de cinema e TV.

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