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Coluna

Gol de letra, tchê

    O consolo, pros leitores da boa prosa brasileira, é que, quando Luan, hoje com 20 anos, tiver pendurado as chuteiras, talvez antes dos 40, Michel Laub, que há de ser, então, um saudável sexagenário, continuará marcando seus gols de letras para a nossa agradecida e silenciosa admiração

    Já falei algumas vezes aqui do projeto “Viagem de bolso”, da Mira Filmes, do qual faço parte como entrevistador. Basicamente, a diretora Lia Kulakauskas, o diretor de fotografia Chico Orlandi, o inabalável homem do som, André Bomfim, e eu, temos andado pelo Brasil rastreando as locações que ambientam romances e novelas de autores brasileiros contemporâneos, na companhia dos próprios. Vai passar no ano que vem em algum canal a cabo, como já disse algumas centenas de impertinentes vezes. Eu aviso quando passar.

    Nosso destino agora foi Porto Alegre, e a vítima da vez calhou de ser o Michel Laub, um dos principais nomes da nova safra de romancistas e contistas gaúchos, de nascimento ou residentes no Rio Grande do Sul, que passaram a desovar suas obras por volta da segunda metade dos anos 90 em diante, como Daniel Galera (“Mãos de cavalo”), Daniel Pelizzari (“Digam a Satã que o recado foi entendido”), Amílcar Bettega (“Barreira”), Paulo Scott (“Habitante irreal”) e a Carol Bensimon (“Nós que adorávamos caubois”), que já deu as caras aqui na minha crônica. Isto, pra citar apenas os que eu já li.

    Por não tão incrível coincidência, todas esses escribas, hoje entre trinta e poucos e quarenta e tantos anos, passaram pela famosa e, pelo visto, eficientíssima oficina literária ministrada pelo professor e romancista Luiz Antônio de Assis Brasil na capital gaúcha. Se você der um google associando Assis Brasil aos nomes dos ainda jovens autores citados aí em cima, vai topar com elogios rasgados dos pupilos ao mentor que os ajudou a cruzar a linha divisória entre a vasta e estéril seara do amadorismo e o terreno fértil, de árduo trânsito, da literatura pra valer. O guru gaúcho das letras passa um ano inteiro orientando as leituras e os projetos literários dos 15 aspirantes a escritor admitidos em uma única turma, depois de um processo de seleção que se resume a enviarem-lhe, os ditos aspirantes, um texto de prosa literária pra ser avaliado. Os escolhidos passarão 2 semestres à beira do rio Guaíba, enfrentando frios cortantes e calores emolientes, à procura da chave de ouro da escrita literária, sob a batuta do Assis Brasil. Se vão achá-la ou não, é outra história. Dizem que a tal chave já está dentro de você. O mestre apenas te ajuda a encontrá-la. Se o aluno ou aluna não virar o próximo Guimarães Rosa, a nova Clarice Lispector, com certeza passará a escrever qualquer coisa com muito mais graça e eficiência, de meros e-mails e zap-zaps a relatórios administrativos e cartas de amor.

    Falei aí no frio cortante de Porto Alegre, a capital mais meridional do Brasil, e foi justamente num fim de semana de temperatura polar que rolou nosso papo estendido com o Laub. Ele próprio também se deslocou de São Paulo, onde ambos moramos, para o cenário de algumas de suas obras, entre as quais “O segundo tempo”, publicado em 2006, que tem por eixo narrativo o chamado “Gre-Nal do século”.

    Se você não é gaúcho ou não liga pra futebol, como é o meu caso, deve estar agora se perguntando que raio de coisa é esse “Gre-Nal” e por que foi parar numa novela de cento e poucas páginas, vazadas na prosa densa e poderosa de um autor cujos narradores em primeira pessoa costumam revisitar velhos traumas de seu passado infantil e juvenil, já depois de adultos, sem a menor complacência nostálgica.

    Gre-Nal, como acabo de aprender, é o termo que designa o confronto futebolístico dos dois grandes times rivais do Rio Grande do Sul, o Grêmio e o Internacional. É algo assim como o Fla-Flu no Rio, que nomeia os sempre turbulentos jogos entre Flamengo e Fluminense. Quando tem Gre-Nal em Porto Alegre a cidade para e se enche de hordas brandindo bandeiras vermelhas (do Internacional) ou azuis (do Grêmio), muito pouco amistosas umas com as outras. O melhor mesmo é sair da frente das duas torcidas, sobretudo se você estiver trajando roupa azul diante da turba colorada do Internacional, ou vermelha na rota dos azulados gremistas.

    O “Gre-Nal do século”, no caso, foi o embate histórico ocorrido em 1989, sob um sol de rachar, entre os dois inimigos figadais, pra usar três surrados lugares-comuns que provocariam a franca desaprovação do professor Assis Brasil. O jogo foi disputado no Beira-Rio, o estádio do time colorado, leia-se o Internacional, e era decisivo para os dois times. Quem ganhasse a partida disputaria a final do campeonato brasileiro de 88/89. Lá estava no estádio, o narrador do livro do Laub, então com 15 anos, mesma idade do autor que também presenciou in loco a dramática partida (sorry, de novo, Assis Brasil). Os lances da encarniçada peleja (hehehe...) vão pontuando toda a narrativa de “O segundo tempo” e comparecem no livro como metáforas das circunstâncias que marcavam a vida do personagem-narrador naquele momento.

    Mas, calma, não vou aqui ficar resenhando o livro do Laub, e muito menos dando spoilers sobre a trama. Só digo que, se você é chegado numa prosa literária contemporânea, goste ou não de futebol, vale muito a pena cair de boca nessa obra, espécie de romance de formação a encenar o clássico rito de passagem do personagem principal, torcedor fanático do Grêmio, a exemplo do Laub. Como se poderá constatar nesse romance, além de clássica caixinha de surpresas, o futebol também é uma tremenda caixinha de metáforas.

    Naquele gelado fim de semana de junho, fomos, Michel Laub, eu e a equipe de filmagem, visitar o antigo e desativado estádio do Grêmio, o glorioso Olímpico, no bairro Azenha, em Porto Alegre. Os portões da velha sede do time do coração laubiano, franqueados centenas de vezes pelo autor quando ainda morava em Porto Alegre, estão hoje lacrados. O mastodonte de concreto armado apenas espera com resignada paciência a hora já próxima de ser implodido. Tentamos mas não conseguimos autorização pra entrar lá dentro. Logramos, no entanto, avistar um pedaço do campo e das arquibancadas, em total abandono, desde o cemitério João 23, situado no alto de uma colina próxima. A cena transbordava de simbolismo: ao lado de seus conterrâneos mortos e arquivados nos escaninhos do cemitério vertical, Laub contemplava, com transparente emoção, o estádio-sede do time que iluminou toda a sua infância e juventude. O frio era tamanho que, se lágrimas ele houvesse derramado, pérolas de gelo elas teriam de imediato se transformado, se me permitem uma tão arrevesada quão insopitável frase sub-literária, prova cabal de que eu passei longe do curso do Assis Brasil.

    Isto foi num sábado. No dia seguinte, um domingo não menos gélido, fui com o Laub ver seu time atuar contra a Ponte Preta na Arena Grêmio, a nova e modernérrima casa do tricolor gaúcho. Fazia muito tempo que eu não via um jogo de futebol ao vivo, algo que, de qualquer maneira, devo ter feito só umas duas ou três vezes na vida. Michel Laub, um sujeito calmo, atencioso, de fala mansa, acabou revelando seu surpreendente lado “hooliganesco”, vociferando os mais desgrenhados palavrões da mesma língua que ele domina com tanta elegância e economia em seus textos literários. Seus olhos, de normal quase pueris, despediam chispas homicidas, enquanto seus punhos brandiam no ar um ódio ancestral que prometia nada menos que sangue e morte violenta contra os rivais em campo durante toda a tensa partida, com vários cartões amarelos e duas expulsões, uma de cada lado. De fato, como já alardeava Nelson Rodrigues, não se faz literatura, política e futebol com bons sentimentos.

    O jogo, válido pelo Brasileirão, ficou num irritante vai-não-vai e numa sequência de ataques frustrados, sobretudo da parte do Grêmio, até que, já nos acréscimos do segundo tempo, por obra do gremista Luan, saiu o catártico gol de letra que todos, até eu, comemoramos no estádio dominado pela torcida azulada. Laub, aos pulos, soltava as mais hediondas interjeições de júbilo popularesco, em consonância com a galera em êxtase pagão. O futebol, naquele instante, sobrepujava largamente a literatura em seu coração de menino vitalício. Imagino que nenhuma grande cena literária, alheia ou de sua lavra, teria o dom de fazê-lo vibrar daquele jeito. O consolo, pros leitores da boa prosa brasileira, é que, quando Luan, hoje com 20 anos, tiver pendurado as chuteiras, talvez antes dos 40, Michel Laub, que há de ser, então, um saudável sexagenário, continuará marcando seus gols de letras para a nossa agradecida e silenciosa admiração.

    Reinaldo Moraes estreou na literatura em 1981 com o romance Tanto Faz (ed. Brasiliense) Em 1985 publicou o romance Abacaxi (ed. L&PM). Depois de 17 anos sem publicar nada, voltou em 2003 com o romance de aventuras Órbita dos caracóis (Companhia das Letras). Seguiram-se: Estrangeiros em casa (narrativa de viagem pela cidade de São Paulo, National Geographic Abril, 2004, com fotos de Roberto Linsker); Umidade (contos , Companhia das Letras, 2005), Barata! (novela infantil , Companhia das Letras, 2007) , Pornopopéia (romance , Objetiva, 2009) e O Cheirinho do amor (crônicas, Alfaguara, 2014). É também tradutor e roteirista de cinema e TV.

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