Ir direto ao conteúdo
Coluna

Floripa a bordo de um boteco genial

    Visitando amigos, a história e a gastronomia de Florianópolis

    O Mercado Público de Florianópolis, inaugurado em 1899, fica ao lado do Largo da Alfândega, no centro comercial da cidade. Entendi, pelo que me contaram, que ali ficava o antigo porto da ilha de Santa Catarina. O mar chegava até bem perto do Mercado e do prédio da Alfândega, ali ao lado, até que as obras do aterro, em meados dos anos 1970, empurraram o Atlântico pra bem longe. O terreno antes lambido pelas ondas hoje abriga avenidas, um terminal de ônibus e amplos espaços vazios. O mar deixou saudades em quem vivia na cidade antes de urbanizarem um dos pontos mais emblemáticos da cidade.

    Dentro do mercado tem um box, o 32, especializado em frutos do mar, que te deixa a fortíssima impressão de estar no melhor boteco do Brasil, e no mais caro também. A chance de você saber do que estou falando é alta, já que o Beto Barreiros, o dono do pedaço, garante que, desde 1984, quando foi inaugurado, até hoje, mais de 12 milhões de pessoas já se deliciaram com os pastéis de camarão do Box 32. Mas o pastel, que carrega em seu bojo 100 gramas de recheio camarônico, é só um dos gloriosos quitutes preparados sob a batuta do Beto, que oferece também aos clientes de paladar mais requintado e bolso bem fornido itens como haddock escocês, ovas dos melhores peixes brasucas, lagostas e escargots, além de lascas de Pata Negra, o lendário presunto cru espanhol.

    Depois de saborearmos de joelhos o divino pastel de camarão aos goles de cerveja, Beto colocou em causa uma caipirinha perfeita, acompanhada de lascas do Pata Negra

    Quem me levou lá foi o meu amigo Mário Prata, dramaturgo, romancista e cronista que se bandeou há 15 anos de São Paulo pra Floripa, onde se estabeleceu de frente pro mar, em Canajurê, e todos os dias, ao abrir a janela da sala, declara em alto e bom som pros golfinhos que costumam ornamentar a paisagem: "Daqui não saio, daqui ninguém me tira."

    Essa foi a terceira ou quarta vez que tive a chance de assentar minha bunda viajante numa cadeira do Box 32, dessa vez tendo por companhia na mesa, além do Prata, o próprio Beto, típico "mané" da ilha, apelido dos floripanos da gema, descendentes ou não dos 260 casais de açorianos que em 1.692 aportaram em Nossa Senhora do Desterro, antigo nome de Florianópolis.

    Depois de saborearmos de joelhos o divino pastel de camarão aos goles de cerveja, Beto colocou em causa uma caipirinha perfeita, acompanhada de lascas do Pata Negra. Vai daí, passou a nos contar como foi que ensinou a fazer o clássico drinque nacional a centenas de clientes, entre eles um argentino muito simpático que, em retribuição , convidou-o pra assistir na primeira filha a um concerto que sua orquestra daria num teatro da cidade. O argentino era ninguém menos que o Astor Piazzolla. E o espetáculo musical, memorável.

    De outra feita, conta Beto, apareceu por lá uma senhora oriental cercada de jornalistas interessados em entrevistá-la. O taverneiro foi puxar papo com a figura, de suave cordialidade, e descobriu que ela era vietnamita e se chamava Kim Phuc, a mesma pessoa que, aos 9 anos, durante a guerra do Vietnã, foi fotografada a correr nua por uma estrada com o corpo todo queimado pelo napalm jogado por um bombardeiro americano. É claro que Beto se fez fotografar ao lado da ex-menina do napalm, como também fizera com Piazzolla e centenas de outras personalidades que têm aparecido no Box 32. As fotos estão lá nas paredes do estabelecimento ilustrando as histórias floripanas contadas pelo dono.

    Floripa, aliás, é como Beto Barreiros gostaria de ver sua cidade definitivamente rebatizada, de modo a tornar Florianópolis mais palatável aos ouvidos humanos, sobretudo os estrangeiros. E também para afastá-la da figura do odioso personagem histórico que lhe deu origem: Floriano Peixoto, o Marechal de Ferro que afogou em sangue uma revolta catarinense contra o seu governo, em 1894. "Ele mandou chacinar mais de 200 soldados presos, além de sabe-se lá quantos civis. É um absurdo a cidade, que se chamava Desterro, adotar o nome daquele tirano sanguinário."

    A propósito de Floriano, Beto conta que, em novembro de 1979, o último ditador militar do Brasil, o general Figueiredo, apareceu em Floripa pra ter seu saco puxado pelos próceres locais, em especial o prefeito e o governador instalados no poder sem passar pelas urnas, como era a praxe política durante a ditadura. Um dos pretextos da visita do truculento cavalariano que nos governava era justamente a inauguração de uma estátua do Floriano Peixoto, ali perto do Mercado. A estudantada, apoiada por milhares de populares, vandalizou a estátua do marechal brutamontes e recebeu Figueiredo aos brados de "F.d.p.!"    

    No meio da turba irada estava o Beto, que sofreu na pele os impactos da violenta repressão da PM. Você quase consegue sentir o cheiro de gás lacrimogêneo quando ele conta a história desse episódio que ficou conhecido como "novembrada". Quanto ao general-ditador, sua cândida reação na época foi se declarar surpreso e magoado pelo fato de terem envolvido sua honorável genitora nos protestos. "Porque disseram aquela coisa terrível sobre a minha mãe? Não entendi tamanha baixeza," ele diria aos jornalistas. Figueiredo pode não ter entendido, mas o jovem Beto e os outros 4 mil manifestantes sabiam muito bem porque tinham metido a mãe do general na história. Todos ali queriam simplesmente o fim da ditadura militar no Brasil, o que só ocorreria cerca de 6 anos mais tarde.

    Depois de ouvir esses relatos, só me restou acatar a sugestão do Beto, de mais uma rodada de pastéis de camarão e caipirinhas, aprovada com ênfase juvenil pelos demais circunstantes naquela mesa. Além do Mário Prata, eram eles o diretor de fotografia Chico Orlandi, o cineasta e técnico de som André Bomfim e a diretora Lia Kulakauskas, que tinham ido comigo a Floripa para entrevistar o Pratinha pra série "Viagem de bolso," sobre a qual, volta e meia, não me furto de mencionar aqui. Já com os corações tocados pela cachaça e pelas histórias do mané-Beto, erguemos todos um brinde em louvor à bela e acolhedora Floripa e em absoluto repúdio a ditadores em geral, fardados ou não. Sobraram também perdigotos irados contra o interino-efetivado, sendo que alguém lembrou que Floriano Peixoto era também um vice-presidente, no caso do deposto Deodoro da Fonseca.

    Se você for a Floripa por esses, ou por quaisquer outros dias, não deixe de passar pelo Box 32, no Mercado Público. Farte-se de pastéis de camarão e caipirinhas, e não se esqueça de dar um forte abraço no Beto Barreiros, em meu nome. Você sairá de lá um pouco mais pobre, mas muito, muito feliz.

     

    Reinaldo Moraes estreou na literatura em 1981 com o romance Tanto Faz (ed. Brasiliense) Em 1985 publicou o romance Abacaxi (ed. L&PM). Depois de 17 anos sem publicar nada, voltou em 2003 com o romance de aventuras Órbita dos caracóis (Companhia das Letras). Seguiram-se: Estrangeiros em casa (narrativa de viagem pela cidade de São Paulo, National Geographic Abril, 2004, com fotos de Roberto Linsker); Umidade (contos , Companhia das Letras, 2005), Barata! (novela infantil , Companhia das Letras, 2007) , Pornopopéia (romance , Objetiva, 2009) e O Cheirinho do amor (crônicas, Alfaguara, 2014). É também tradutor e roteirista de cinema e TV.

    Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa Equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project. Saiba mais.

    Mais recentes

    Você ainda tem 2 conteúdos grátis neste mês.

    Informação com clareza, equilíbrio e qualidade.
    Apoie o jornalismo independente. Junte-se ao Nexo!