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Coluna

Fim de férias: hora de lembrar de não esquecer

    Temas

    O tempo é um conceito escorregadio, medido com exatidão por instrumentos, mas sentido e vivido de forma imprecisa

    Com o final do Carnaval vem a sensação, incontornável de que as férias acabaram e que o começo do ano se inicia pra valer! É nesse momento que costumamos amargar a terrível sensação da “brevidade das férias”. O mais comum é lamentar como esses momentos passam rápido. Mas será que férias são mesmo assim ligeiras? Afinal, na memória, elas duram muito mais tempo do que os dias normais, aqueles perdidos no cotidiano e esquecidos na sanha do dia a dia.  

    De certa maneira é disso que trata a “Montanha Mágica”, do escritor alemão Thomas Mann. O livro conta a história de Hans Castorp; um jovem cujo relato reproduz “fatos passados há muito tempo”; que estariam “recobertos pela pátina do tempo” e enterrados por um “passado remoto”. Recobertos pela “pátina do tempo” estão uma série de personagens emblemáticos de Mann: Castorp, o narrador, seu primo Joachim, e outros pacientes residentes no sanatório Berghof, localizado na aldeia suíça de Davos-Platz. Aí está o laboratório de uma Europa enferma, do entre-guerras, aonde reunidos pela mesma doença se entrelaçam ilusões e utopias. Mas aí está mais: um tempo sem tempo, quando passado lá em cima, na montanha; mas lotado de memória sempre que rememorado na forma de um “passado remoto”.

    É por isso que nessa história da montanha — esse local que cura e isola — o tempo ganha ritmo e duração diferentes. Esse é o tempo da montanha, mas também aquele das férias, que representam suspensões na nossa rotina diária. Ao menos é isso que nos conta Castorp: “Acontece, porém, com a História o que hoje em dia também acontece com os homens e com os narradores de Histórias: ela é muito mais velha que seus anos; sua vetustez não pode ser medida por dias”. O fato é que a história de Mann abre mão de um tempo delimitado, já que sua extensão não é medida por horas, dias ou anos. Talvez por isso, história vai virando um “elemento misterioso chamado tempo”, e que nada tem a ver com contabilidade matemática. Já o tempo transforma-se  em “enigma difícil de resolver”: na lembrança ele corre lento, já na passagem dos dias voa ligeiro.

    Com certeza um pouco confuso, Hans Castorp conclui que as sete semanas que passara lá em cima, na montanha, não lembravam mais do que sete dias. Ou, em certos momentos, tudo parecia o oposto: vivia naquele lugar muito mais tempo do que a realidade anunciava. Como concluía T. Mann: “Uma coisa e outra, provavelmente, eram verdade: ao seu olhar retrospectivo, o tempo ali passado afigurava-se excessivamente longo como excessivamente breve. Um único aspecto desse tempo, entretanto, escapava-lhe sempre: a sua duração real — admitindo ser o tempo um fenômeno natural e ser lícito relacionar com ele o conceito da realidade”.

    O que escapava a nosso personagem era justamente o aspecto palpável do tempo; o nosso próprio conceito de temporalidade, marcado por relógios, calendários e outros instrumentos de medição externa ao que é da ordem do sentimento e da experiência. Mas, quem sabe, mesmo nós, tão habituados a expressões do tipo “não posso perder tempo”; “ganhei tempo”; “me falta tempo”, também nos reconheçamos — ao menos durante as férias — nesse jogo de marcação imprecisa, em que olvidamos a noção das horas, dos dias da semana, do número no calendário.

    É nesse sentido que história poderia ser definida como uma categoria universal, já que a experiência comum da passagem do tempo é consensual, mas também particular, pois cada acontecimento pode ser culturalmente valorizado e “mudar o fim da história”. A história pode, também, ser definida como uma disciplina — a história dos historiadores —, ou então como uma noção fundamental do pensamento. Nesse último sentido, e nos termos do filósofo E. Durkheim, estaríamos lidando com uma “categoria básica do entendimento”, um a priori: não há sociedade que não construa sua representação do tempo, mas cada cultura a realiza de forma empírica e particular. Poderíamos ainda opor duas noções mais óbvias de tempo e história. Assim como as coisas vivas nascem, crescem e morrem — e, portanto, mudam —, também certos fenômenos da natureza se repetem (a semana, as estações, o dia que vira noite e vice-versa).

    Não é a toa que a história e o tempo sempre “deram muito o que falar”. Por exemplo, como mostra o historiador inglês E. P. Thompson, já faz tempo (por falar nele) que esquecemos o que era a “hora do galo”, aquela dada por estações, pelo ritmo do trabalho, e pela vida comunal (1). Também estamos distantes do tempo Nuer, que, conforme descreveu o antropólogo Evans Pritchard, era condicionado pelo movimento de pastoreio do gado; principal atividade do grupo que também definia as noções de tempo e de espaço locais (2). O fato é que tempo é uma categoria profundamente humana, já que não há sociedade que deixe de construir representações em relação a ele. O que varia são os sentidos que damos ao tempo.

    Como se pode notar — e parafraseando o etnólogo Claude Lévi-Strauss —, a história é “boa para pensar”. Afinal, poderíamos multiplicar casos, com o objetivo de mostrar como tempo é conceito escorregadio. O tempo dos Mendi que faz tudo convergir para seu “próprio relógio interno” (3); o modelo pendular encontrado entre os Kachin, onde o tempo é representado como uma repetição de inversões (4); o tempo dos Piaroa, que é ora linear ora não (5); ou o “nosso”, seriado e cumulativo.

    Só para complicar mais um pouco, vale a pena distinguir história de memória: essas são perspectivas de entendimento do passado que nem se confundem, nem se complementam. Além do passado ser sempre inalcançável, ele é invariavelmente um território de embate, de disputa, de desavença. Por isso mesmo, não há acordo fácil: nem sempre a história consegue acreditar na memória; a memória, por sua vez, desconfia profundamente de qualquer procedimento de reconstituição do passado que não traga no seu centro os direitos da lembrança: os direitos de vida, do sofrimento, da rememoração da experiência e da subjetividade.

    Já na antiguidade, a nossa tradição ocidental considerava o esquecimento a mais dolorosa das experiências humanas. Irmão da morte e do sono, os gregos mencionavam o esquecimento como a verdadeira morte: era o portador do silêncio, da indiferença e da obscuridade. Não por obra do acaso o verbo esquecer, em grego, é ambíguo: eu me esqueço também pode ser entendido com eu me escondo. Portanto, é preciso não se esquecer de lembrar: lembrar do passado; não esquecer do futuro.

    Mas, afinal, quanto tempo Castorp passou lá em cima? Quanto tempo passamos nós sob a égide do Rei Momo? Pouco tempo na nossa aferição interna; muito tempo na lembrança. Quem sabe nem tudo vai se “acabar na quarta-feira”.

    (1) Thompson, E. P. “A formação da classe operária inglesa”. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1972

    (2)  Pritchard, Evans. “Os Nuers”. São Paulo, Perspectiva, 1972.

    (3)  Sahlins, Marshall. “O pessimismo sentimental  e a experiência etnográfica: por que a cultura não é um objeto em extinção”. In Mana. V. 3. Rio de Janeiro, abril, 1997.

    (4) Leach, E. R. “Dois ensaios a respeito da representação simbólica do tempo”. In Leach, E.R. Repensando a antropologia. São Paulo, Perspectiva, 1974:193.

    (5)  Overing, Joanna. “O mito como história: um problema de tempo, realidade e outras questões”. In Mana. Estudos de Antropologia Social volume1, número 1. Rio de Janeiro, PPGAS/ Relume Dumará, 1995.

    Lilia Moritz Schwarcz é professora da USP e Global Scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças", “As barbas do imperador", “O sol do Brasil" e Brasil: uma biografia”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: Um olhar sobre o Brasil” e Histórias Mestiças”. Atualmente é curadora adjunta do Masp.

    Lilia Schwarcz é professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças", “As barbas do imperador", “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário" e "Dicionário da escravidão e liberdade", com Flavio Gomes. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp.

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