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Coluna

Feliz 2037, Brasil

    Nenhum país do mundo conseguiu dar grandes saltos de desenvolvimento sem investir massivamente em educação. Agora, ficou difícil ver essa transformação acontecer no Brasil na duração de minha vida

    Na terça-feira, encerrei meu expediente mais cedo. É que era o último dia de aula de minha filha mais velha, Aurora, que tem 3 anos e meio, e a escola dela, como é tradição, convidou todos os pais para um grande lanche coletivo de despedida do ano, com as crianças, às 5 da tarde. Fui com meu filho mais novo, Francisco, que não tem nem 5 meses ainda, amarrado ao meu peito. Fiquei lá mordiscando pães de queijo e dando goles em sucos de frutas orgânicas, enquanto crianças passavam correndo imundas para lá e para cá, cheias de potencial, e eu trocava comentários sarcásticos com os outros pais sobre as bombas de 2016.

    A última delas tinha acabado de explodir, mais ou menos uma hora antes, a mil quilômetros daquela pequena escola privada frequentada por filhos de professores universitários, artistas e jornalistas, como eu. Os senadores da República tinham acabado de finalmente aprovar em definitivo a tal PEC 55, ex-PEC 241, vulga PEC do Teto, ou do Fim do Mundo, dependendo do interlocutor, que modifica a Constituição para congelar gastos sociais, principalmente com saúde e educação, por 20 anos.

    Até o final de 2036.

    Olhei para a algazarra em volta de mim e de repente me dei conta de que aquela medida valeria até Aurora completar 23 anos. Francisco, pendurado rechonchudo nos meus ombros, será um adulto, com habilitação de motorista, título de eleitor e, quem sabe, carteira de trabalho. Pode até ser que um dos dois esteja carregando seu próprio bebê no colo, vai saber. Foi desse tamanho a decisão.

    Não vou nem me aventurar agora pelas análises econômicas dos defeitos e dos méritos da PEC (o Nexo já fez isso com competência e equilíbrio, se interessar). O que me dá um nó na garganta é saber que uma decisão tão crucial foi tomada por Bitelo, Campari, Gripado e Botafogo, Piqui, Caju, Índio e Todo Feio – para citar alguns dos apelidos de parlamentares eternizados nas listas de propina da Odebrecht. É lembrar que o debate sobre as consequências da medida foi conduzido nas casas parlamentares sob a liderança de gente da estirpe de Eduardo Cunha e Renan Calheiros (Caranguejo e Justiça, nas listas de propina), sob o aval de um presidente da República detestado e ilegítimo, cujo apelido da Odebrecht ainda não veio a público, mas que também figura como receptor de dinheiro ilícito (teria recebido R$ 10 milhões da empreiteira).

    Tenho inteira confiança na equipe que cuida de Aurora na escolinha: gente amorosa, comprometida, interessada. Pago caro para que ela estude lá, mas a deixo com as professoras todos os dias com o coração tranquilo, ciente de que elas podem não ser perfeitas, que terão alguns momentos melhores e outros piores, mas que passarão o dia empenhadas em cuidar da minha filha. Já em relação aos funcionários públicos engravatados que comandam os poderes de Brasília, tendo a não acreditar em nada do que dizem, nunca, apesar de pagar caro para sustentá-los – minha reação natural é sempre procurar uma pegadinha por trás de tudo o que eles propõem.

    Por exemplo, dia desses eles saíram dizendo que finalmente fariam a tão esperada reforma política, aquela que supostamente melhorará o nível trágico da representação na democracia brasileira e levará a decisões um pouquinho melhores. Os parlamentares pareciam já ter um consenso razoável quanto a uma medida: a criação de uma cláusula de barreira, para diminuir o número astronômico de partidos políticos, o que obviamente é desejável. Na hora, me veio uma pulga atrás da orelha. Fui ver que partidos sobrariam: uma dezena de siglas tradicionais, todas imersas em escândalos de corrupção, todos financiados por meia dúzia de corporações como a Odebrecht, cujos interesses são bem diversos dos de Aurora e Francisco. Claro que a tal cláusula nos livraria de dezenas de partidecos fuleiros criados apenas para embolsar a grana do fundo partidário e negociar alianças em troca de dinheiro. Mas morreriam também todas as tímidas tentativas de oxigenar o sistema partidário. Nenhum dos pequenos partidos que propõem alguma renovação nas práticas políticas brasileiras, da direita à esquerda, sobreviveriam. Se a reforma sair do jeito que os parlamentares estão querendo, PSOL, Rede, Partido Novo serão todos extintos.

    A solução para os imensos problemas do Brasil não está em Brasília, óbvio. Está, isso sim, nas escolas. Nenhum país do mundo conseguiu dar saltos de desenvolvimento sem investir em educar com qualidade sua população. Histórias como as da Coreia do Sul, Finlândia e Polônia são exemplares: investimentos vultosos em melhorar as escolas públicas foram seguidos, duas décadas depois, por imensos e permanentes ganhos de produtividade, crescimento econômico e ondas de inovação. O congelamento dos gastos em educação no Brasil até os meus 63 anos provavelmente significa que não vou ter tempo de ver, nesta vida, o mesmo acontecer por aqui. Tudo indica que morrerei ouvindo empresários reclamarem da falta de qualificação da mão-de-obra e dos baixos índices de produtividade no Brasil.

    Para Aurora e Francisco, tudo provavelmente vai ficar bem, claro. Posso pagar uma equipe de gente talentosa e dedicada para dar a eles uma educação sólida. Meus amigos americanos e europeus, no entanto, acham esquisitíssimo. Os filhos deles estudam quase todos em escola pública, assim como meu pai estudou, aqui em São Paulo. Eles preferem assim: a qualidade da educação pode até não ser tão alta quanto nas melhores escolas privadas, mas isso é compensado pela riqueza de conviver com diversidade desde a infância, algo que o mercado deseja cada vez mais. Depois de ter morado nos Estados Unidos, uma década atrás, passei a sonhar em fazer o mesmo com os meus filhos: parecia um sonho razoável, depois da universalização do ensino conquistada pelos governos FHC e Lula. Não mais, parece.

    O que pode nos salvar é trabalho: é juntos construirmos um país decente com instituições que funcionem capaz de garantir ao menos o básico para todo mundo

    Diversidade, infelizmente, é algo que não havia na escola de minha filha, naquele fim da tarde de terça-feira, durante a celebração de fim de ano. O preço da mensalidade, maior que o salário médio do país, impede que ela conviva com 99% das crianças, o que não deixa de ser uma deficiência em sua formação: um déficit de empatia que pode atrapalhar sua vida profissional e que é bem típico dos brasileiros. Enquanto celebrávamos entre os nossos, centenas de escolas Brasil afora, caindo aos pedaços, sem dinheiro para comprar papel higiênico, estão ocupadas por meninos e meninas corajosos e assustados, que apanham da polícia enquanto veem seus sonhos escorrerem entre os dedos.

    2016 vai terminando melancólico. Mas, como sou pai de uma menina de 3 anos e meio e de um menino que não tem nem 5 meses, não posso me dar ao luxo de me entregar ao pessimismo. Sigo acreditando, fazer o quê? Até porque, no fundo, Bitelo, Gripado, Caranguejo e Temer não têm a menor importância, aqueles manés. Talvez estejam todos trancados na cadeia quando entrar 2037, quem sabe?

    A punição deles lavará nossa alma, mas não é, tampouco, isso que nos salvará – um país não melhora só porque prende seus corruptos. O que pode nos salvar é trabalho: é juntos construirmos um país decente, com instituições que funcionem, capaz de garantir ao menos o básico para todo mundo, educação básica, saneamento básico, infraestrutura básica, segurança para sair à rua, um ambiente estável para crescer, viver, inovar, produzir. Se conseguirmos trabalhar juntos nesse projeto, talvez ele seja possível até mesmo com a tal PEC. Participação social pode revolucionar a lógica da educação e da política e permitir que a qualidade aumente mesmo sem dinheiro.

    Essa não é uma bandeira da esquerda, nem da direita: é do Brasil inteiro, que vem seguidamente saindo às ruas desde 2013 para exigir ser tratado com respeito. Por enquanto, sem resultados.

    Denis R. Burgierman é jornalista e escreveu livros como “O Fim da Guerra”, sobre políticas de drogas, e “Piratas no Fim do Mundo”, sobre a caça às baleias na Antártica. É roteirista do “Greg News”, foi diretor de redação de revistas como “Superinteressante” e “Vida Simples”, e comandou a curadoria do TEDxAmazônia, em 2010.

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