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Coluna

Eu e você

    De certo, sei apenas que você está aí, olhando pra essa tela iluminada com olhos de ver, como redundou o poeta

    Não tenho tempo a perder, agora que você, de curioso, resolveu dar uma espiadinha aqui na minha coluna. Sei que você fê-lo porque qui-lo, como diria o finado Jânio Quadros. Ou como poderia ter dito também o nosso bacharelesco interino-efetivado, "Mr. Fora Temer, president of Brazil" como o teria apresentado um chinês lá na cúpula do G-20, em Hangzhou. Mas sei também que assim como qui-lo, você pode "desquiloar" a qualquer momento. Urge, pois, um bom assunto.

    Velha questão, essa do "assunto". Podia ser política nacional, assunto que, feito ferro quente, está sempre pronto pra ser malhado por todo tipo de ferreiro. O risco óbvio de deitar falação sobre política numa crônica que se pretenda sedutora é acabar ventilando aqui opiniões que a sua consciência possa repudiar. Aí, adeus mané leitor, sinhá leitora. Sem contar que a política é um campo já esquadrinhado extensiva e brilhantemente pelos articulistas deste mesmo jornal.

    Vai daí que eu procuro, não exatamente um assunto, mas o narrador onisciente de um Balzac, aquela entidade por dentro de tudo que se passa na cabeça de todos os personagens e em cada meandro da história, que ele vê por todos os ângulos e em todos os tempos verbais. Tão omnisciente que é capaz de penetrar na cabeça do próprio leitor e levá-lo a se haver com tais idéias e quais emoções.

    Posso tentar. Mas que raio de onisciência é essa, se eu nem sei se você é homem ou mulher, pra começo de conversa? Balzac riria da minha cara. Se bem que, pra mim, tanto faz, se você é homem, mulher, gay, lésbica, ou qualquer outro ser transgenérico. Basta saber que você está aí cheio ou cheia de vida, como eu. E que temos uma base comum de comunicação, que é a linguagem verbal.

    Claro que, se você me der um like no facebook, e se uma foto sua constar do seu perfil, poderei vê-lo e saber algo a seu respeito, assim como você me vê aqui na cabeça da coluna e sabe algo de mim pela minibio no pé da coluna. Mesmo assim, nunca verei a cara que você faz ao me ler, mesmo que possa imaginar que tipo de minhoca intelectual e/ou emocional que o meu texto logrou enfiar na sua cabeça, torcendo pra que eu esteja certo.

    De certo, sei apenas que você está aí, olhando pra essa tela iluminada com olhos de ver, como redundou o poeta. E sei também que você compreende a língua portuguesa, com certeza, ora pois. Apesar de que não deve estar longe o dia em que um par de óculos digital nos proporcionará a tradução simultânea de qualquer língua viva ou morta, com apuro sintático-semântico muito superior ao dos atuais tradutores eletrônicos, que ainda padecem de uma espécie de literalidade absurdizante.

    Nesse dia, poderei estar falando aqui com um chinês de Hangzhou ou uma maori da Nova Zelândia, e todos me compreenderão muito bem. E um milagre desse porte será considerado tão banal quanto usar o telefone celular pra ver um filme ou a pessoa com quem se está falando, e ser por ela visto, como no velho seriado do Buck Rogers que passava antes do filme nas matinês do Cine Brasil, na rua Teodoro Sampaio da minha adolescência (anos 60).

    Na verdade, é mais fácil arrolar o que não se pode fazer com um celular hoje em dia. Bismarck, ou algum conterrâneo dele, dizia que se pode fazer tudo com as baionetas, menos sentar nelas. Até nisso um celular ganha de uma baioneta, já que é até comum a gente botar o aparelho no bolso de trás da calça e acabar sentando nele.

    Não resisto a especular mais um pouco sobre a sua possível identidade, estimada leitora, prezado leitor, antes que a coluna chegue ao seu inexorável fim. Eu diria que você é uma pessoa que nutre não poucas nem pequenas ambições. E que, pra realizá-las, dispõe das armas e das ferramentas do santo, como se diz no candomblé de uma pessoa aparelhada pelas altas entidades para enfrentar as paradas na vida. Meu outro forte palpite é que você tem uma inteligência e um nível de informação geral bem acima da média do seu reduto sócio-cultural.

    Ok, não é tão difícil deduzir isso de quem lê o Nexo Jornal. E, tudo bem, estou puxando um pouco o seu saco. Mas procure entender que um cronista deve fazer de tudo pra ser lido, o que não é fácil em meio à torrencial oferta de atrações na internet ao alcance de um clique gratuito. E menos fácil ainda será se o dito cronista ficar à míngua de assunto numa tarde ensolarada de sexta-feira e, pra piorar tudo, ainda der de sentir uma fome danada a lhe roçar as paredes do estômago.

    Fenômeno esse que, diga-se de passagem, me despoleta na cabeça um poeminha da minha amiga Jennifer Cooper, linguista americana radicada há décadas em Natal, Rio Grande do Norte:

     

    the poem has no money

    but he invites you

    for lunch

     

    Traduzo:

     

    o poema tá sem grana

    mas te convida

    pra almoçar

     

    Substitua "o poema" por "a crônica" e "grana" por "assunto," e bom apetite.

     

    Reinaldo Moraes estreou na literatura em 1981 com o romance Tanto Faz (ed. Brasiliense) Em 1985 publicou o romance Abacaxi (ed. L&PM). Depois de 17 anos sem publicar nada, voltou em 2003 com o romance de aventuras Órbita dos caracóis (Companhia das Letras). Seguiram-se: Estrangeiros em casa (narrativa de viagem pela cidade de São Paulo, National Geographic Abril, 2004, com fotos de Roberto Linsker); Umidade (contos , Companhia das Letras, 2005), Barata! (novela infantil , Companhia das Letras, 2007) , Pornopopéia (romance , Objetiva, 2009) e O Cheirinho do amor (crônicas, Alfaguara, 2014). É também tradutor e roteirista de cinema e TV.

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