Coluna

Eu acredito! (na educação plural)

    O que não pode estar em jogo, seja lá qual for nossa reforma (necessária) do ensino médio, é uma hierarquia silenciosa entre disciplinas, com algumas sendo consideradas ‘incontornáveis’, e por isso mandatórias, e outras ‘contornáveis’, e por isso passíveis de eleição

    Minha família é formada por imigrantes italianos e franceses que chegaram ao Brasil no período da Segunda Guerra Mundial. Meus pais, criados na ética e na filosofia do humanismo, julgaram que só havia uma maneira de estrangeiros integrarem-se aos países que escolheram viver: por meio da educação ampla, plural e cidadã.

    Por isso, quando chegou a hora, optaram por inscrever seus filhos em escolas públicas. Eu, por exemplo, fui tentar a sorte no Colégio Estadual Oswaldo Aranha, o glorioso Vocacional, uma instituição formidável em seus princípios educacionais, mas que teve seu projeto ceifado na época da repressão militar. Assim, a despeito das instabilidades do mundo da política, não me arrependo de qualquer dia passado naquele estabelecimento. Ao contrário, agradeço por todos eles.

    Sei que a memória é traiçoeira e faz um jogo malandro entre presente e passado. Mas ao ler o debate a respeito da nova reforma para o ensino médio no Brasil - sobretudo a discussão sobre a flexibilização que incide mais diretamente sobre matérias como Educação Física, Sociologia e Artes -, acabei lembrando dos meus tempos de aluna do Vocacional, e a saudades bateu forte.

    Para começar, se a seleção para a entrada naquela escola era feita na base de critérios econômicos, e por meio da aferição de todo tipo de conhecimento; já aceitos e matriculados, os alunos eram divididos a partir de outro quesito: o nível da atividade física que eram capazes de desempenhar. Com isso, aprendíamos, desde o início, que esse era um conhecimento fundamental para nosso processo de crescimento pessoal e coletivo. O “dia de campeonato” suspendia a rotina costumeira da semana; o “dia de teste de resistência física” gerava não só expectativa como atos de solidariedade entre colegas; o “dia de jogar batalha naval”, atividade que misturava esforço físico com um bocado de domínio em história e geografia, era recebido com grandes doses de ansiedade.

    Não por coincidência, a filosofia de toque do Vocacional era a integração e a fricção entre áreas. Tanto que, além das matérias tradicionais, os alunos passavam por uma série de programas, digamos assim, pouco convencionais.  Dentro do currículo regular e obrigatório constavam: práticas comerciais – onde aprendíamos contabilidade e gestão empresarial; práticas domésticas – quando todos os alunos entendiam o valor da administração privada e a importância da culinária e do bordado; práticas industriais – espaço em que era preciso socializar-se na lógica da madeira, do martelo e do prego, ou estar condenado a estourar o dedo; e práticas artísticas. Nesse último caso, estudantes ensaiavam as mais diferentes técnicas, bem como aprendiam a ler imagens: pintura, escultura, gravura, fotografia. Eram, pois, muitos mundos que se abriam, sem hierarquia fácil ou eleição prévia.

    Quando terminei meu “tempo de Vocacional” fui fazer História e Ciências Sociais; primeiro na Universidade de São Paulo e depois na Unicamp. Mas como educação é processo, levei comigo o que aprendi. A certeza de uma educação inclusiva e marcada pela pluralidade na oferta. E ainda, que só a educação com cardápio farto, e pra valer, tem a capacidade de criar cidadãos atentos à riqueza humana e à percepção de nossas sublimes diferenças, expressas por marcas  de gênero, região, geração, sexualidade e origem.

    E se me formei como historiadora e antropóloga, aprendi a não compartimentar; a saber que “mais” é sempre “mais”. Por isso mesmo, tornei-me uma cientista humana que sabe prezar a importância dos exercícios físicos. Por exemplo, joguei muito vôlei na universidade, e me orgulho de ter feito parte da única turma da História que chegou a uma final num campeonato interno da USP. E justamente contra quem? Educação Física! Claro que perdemos por 3 sets a 0, mas com muita honra. Eu terminei o torneio com dois braços quebrados e nossa principal cortadora com a perna imobilizada no gesso. O boato que soltamos (pois historiadores são bons nisso) é que seríamos imbatíveis se estivéssemos com nosso quadro completo. Verdade (ou não), o importante é que de nada vale “engessar” áreas, melhor colocá-las em diálogo.

    Foram meus professores de Educação Física que ensinaram que o corpo contém uma linguagem, dessas que a gente aprende a dominar, com muito custo. Foi também na escola que entendi como imagens não são meras ilustrações. Aliás, não ilustram nada; elas produzem, expandem e fazem parte integral desse mundo em que vivemos. É preciso aprender a ler a força de uma fotografia; a quantidade de mensagens contidas numa simples propaganda; a qualidade sintética das ideias presentes em um logotipo; a beleza de uma tela disposta num museu; os tantos detalhes escondidos nas margens de um mapa.

    Já eu prefiro “crer” na educação plural, integrada, múltipla, diversa, vária e de acesso a todos.

    Escrevo, assim, como mera diletante, uma vez que não atuo profissionalmente em nenhuma dessa áreas. Ampliar a carga horária das escolas, num país que oferece poucas opções para os jovens; mobilizar estudantes diante de um mundo complexo é meta que vale a pena aplaudir. Mas, para tanto, a oferta de matérias precisa continuar tão vasta como nossa capacidade de imaginar. O que não pode estar em jogo, seja lá qual for nossa reforma (necessária) do ensino médio, é uma hierarquia silenciosa entre disciplinas, com algumas sendo consideradas “incontornáveis”, e por isso mandatórias, e outras “contornáveis”, e por isso passíveis de eleição.

    Acredito, é claro, na capacidade de discriminação dos alunos. Mas sem ofertas múltiplas, essa seleção acaba por esbarrar em travas prévias, fruto do desconhecimento e da falta de experimentação. Dividir as matérias entre obrigatórias e optativas, nessa faixa etária, é como estabelecer um sistema de notação parecido com semáforo. Vermelho significa pare e faça; verde pode passar e abrir mão; amarelo, quem sabe.

    A sublime tarefa do educador é ampliar horizontes, oferecer perspectivas, mostrar caminhos, sinalizar possibilidades, iluminar veredas, multiplicar vocações; aliás, o nome do meu antigo colégio de viva memória: o Vocacional. Só assim será possível oferecer uma educação democrática e inclusiva, que promova e amadureça a capacidade de, quando chegar a hora, selecionar.  Flexibilizar é importante, mas ofertar muito é também muito bom!

    Como cientista social que sou, só me espanto com a convivência atual de tantos paradoxos – e vou já me explicando. O Brasil sedia uma famosa Bienal Internacional de Arte, que, aberta ao público gratuitamente, mostra como esse é um universo sem fronteiras. Por outro lado, temos ainda poucos artistas que lidam com questões nodais da nossa própria sociedade. Existem, sim, artistas indígenas ou negros de origem. Mas me refiro aqueles que, tendo passado por uma formação diversificada, possam incluir sua própria experiência para expressar, também, as suas visões particulares de mundo. Nesse setor, precisamos de muito trabalho e educação.

    Mas há outros paradoxos ainda mais explícitos. Como é que acabamos de sediar a Olimpíada e a Paraolimpíada, e vemos agora Educação Física correr o risco de sair do elenco de matérias obrigatórias? Talvez a melhor lição que aprendemos, vendo jogadores oriundos de tantos países e apresentando condições tão distintas, é que esporte não existe sem escolaridade, estímulo e empenho diários. Nenhum daqueles atletas, verdadeiros heróis do dia a dia, chegou naquele lugar, ganhou medalha ou subiu no pódio, sem muito trabalho.

    É na conta desses tantos argumentos que, toda vez que a torcida puxa um “eu acredito”, eu logo “desacredito”. Craques nos esportes, nas artes, mas também nas matemáticas, nas histórias, no português, nas línguas estrangeiras, e assim por diante, contam com um pouco de vocação, sim. Mas o grosso, todo o resto, é feito de muito esforço e dedicação, que começa na escola.

    Só é possível entender tamanho descompasso se lembrarmos da velha mania brasileira de “acreditar” no milagre ou no pote de ouro localizado bem no final do arco-íris. Já eu prefiro “crer” na educação plural, integrada, múltipla, diversa, vária e de acesso a todos. Sem todas as peças do tabuleiro, jogando juntas, eu “não acredito”.

     

    Lilia Schwarcz é professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.

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