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Coluna

Etiqueta amorosa

    Algumas questões sobre relacionamentos, primeiros encontros e o sentimento entre insegurança e excitação

    Namorar é bom. Isso é quase tudo que sei sobre o amor. Fora isso, nunca soube direito como me comportar diante da mulher amada, se é que alguém jamais soube. Os encontros iniciais com as garotas eram uma batalha constante entre a insegurança e a excitação no meu peito aberto a todas as paixões. Pra começo de conversa, como Noel Rosa, eu nunca sabia com que roupa ir ao samba a que Cupido me convidava.

    Camisa ou camiseta? Se camisa, abro um ou dois botões no peito? Levo flores ou bombons? (Quanto a isso, acaba-se aprendendo o óbvio: bombons para a bem-amada magrinha, flores pra cheinha, se bem que a cheinha é que costuma se regalar com guloseimas hipercalóricas, à sombra da balança implacável.)

    Lembro que na minha inexperiente cabeça de amante aprendiz pululavam tais questões, feito átomos aflitos na água fervendo. Nunca superei, de fato, tais dúvidas e perplexidades, mesmo já homem feito.

    E se der aquele tesão do tipo incontrolável quando eu bater o olho nela? O que eu faço? Tento cair de boca ali mesmo, na sala do apê que ela reparte com uma amiga providencialmente ausente? Ou topo ver primeiro o videocassette daquele filme de amor chatérrimo em que a moça morre de câncer no final, quando todos os obstáculos ao romance dos pombinhos protagonistas pareciam superados?

    Nossa! Faz tempo isso. Videocassette. Love story. Alguém se lembra dessa tranqueira lacrimogênica? A heroína era uma gata. E tinha que rebobinar o filme no final, antes de devolver pra locadora.

    Mas, e depois do filme? Sexo direto? Ou vamos encarar aquele tailandês fusion carésimo que ela viu no jornal, cujo prato principal, segundo o crítico da gastronomia, é um tipo de espuma picante salpicada de ovas de enguia e raspas de trufas das estepes geladas do Cazaquistão?

    Eu me perdia em questões ridículas como essas. Ao mesmo tempo, intuía, no fundo do entendimento, que vestir as mais adequadas roupas e maneiras, ver tal e qual filme, comer nesse ou naquele restaurante, não ia mudar em grande coisa o psicossomatismo da mulher amada, dentro delas. A química do amor é mais misteriosa que isso. Em todo caso, valia a pena ficar atento a dicas, toques ou mesmo às aulas ministradas vez por outras mulheres. Sendo que uma dessas mulheres pode ser justamente a que você tá tentando conquistar, ainda que por uma noite.

    Dia desses, folheando uma revista feminina na sala de espera do meu dentista, topei com uma desenvolta "consultora comportamental" dando dicas sobre como um homem deve ser e estar ao lado da mulher que ele corteja. A lista - o caminho das pedras para a perfeição - é longa. Eu devia ter lido aquilo 30 anos atrás.

    Pra começo de conversa, nada de banho de loja antes de encontrar a moça, por exemplo. Nem de negligência na indumentária. A regra básica é o meio-termo: arrumadinho mas sem exibicionismo. E é bom maneirar nos palavrões, aconselhava a consultora. Tampouco é recomendável jogar na conversa assuntos muito cabeçudos ou íntimos demais, como problemas familiares, profissionais, financeiros ou de saúde. A dura realidade fica pra depois. Se houver um depois.

    No restaurante, espere ela começar a comer antes de atacar sua própria comida. Não apóie o cotovelo na mesa. Se desistir de engolir alguma coisa, tire-a da boca com auxílio do garfo, usando o guardanapo de biombo, e deposite a nhaca na beira do prato, não no guardanapo ou no vasinho da flor, cinzeiro ou qualquer outro recipiente sobre a mesa. Ofereça-se para pagar a conta, mesmo que a donzela seja uma militante feminista de esquerda radical.

    Até de etiqueta sexual ela falava. O recado era basicamente: não vá com muita sede ao pote, respeite o timing dela, não invente posições muito heterodoxas, não fique vociferando sacanagens cabeludas durante o lesco-lesco, jamais dispense a camisinha, não a induza a dar uma nota positiva pra sua performance pós-transa ("E aí, gata, foi muito legal procê? Ou só legal?"). Não demonstre afoiteza em dar no pé depois da transa. E por aí seguia a preleção da consultora comportamental.

    Fiquei um pouco deprimido lendo aquilo tudo, que me soava como uma peça de acusação contra os meus antigos maus modos diante das mulheres. Corri os olhos pelo artigo pra ver se encontrava algum item em que eu me sobressaísse com algum mérito.

    Achei um, finalmente:

    "O homem tem que ser limpinho, de preferência emanando um discretíssimo perfume masculino à base de madeiras aromáticas."

    Bom, tirando as "madeiras aromáticas", acho que posso ser considerado um cara limpinho. Não passo um dia sem o meu chuveiro básico. Disso posso me gabar: as mulheres já me xingaram de tudo, com e sem razão, menos de fedido. Não que eu tivesse escutado, pelo menos.

    Reinaldo Moraes estreou na literatura em 1981 com o romance Tanto Faz (ed. Brasiliense) Em 1985 publicou o romance Abacaxi (ed. L&PM). Depois de 17 anos sem publicar nada, voltou em 2003 com o romance de aventuras Órbita dos caracóis (Companhia das Letras). Seguiram-se: Estrangeiros em casa (narrativa de viagem pela cidade de São Paulo, National Geographic Abril, 2004, com fotos de Roberto Linsker); Umidade (contos , Companhia das Letras, 2005), Barata! (novela infantil , Companhia das Letras, 2007) , Pornopopéia (romance , Objetiva, 2009) e O Cheirinho do amor (crônicas, Alfaguara, 2014). É também tradutor e roteirista de cinema e TV.

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