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Coluna

Dança das palavras

    A 'democracia' anda mesmo na boca de todos e virou figurinha fácil. E de tanto ser acionada, ela quase perdeu seu sentido

    Existem palavras que, teimosamente, parecem querer dificultar ou impedir sua própria tradução. Esse tipo de problema ocorre quando parece impossível encontrar um substituto fácil na nossa língua vernacular, ou, na outra ponta da corda, quando palavras que consideramos muito “nossas” revelam-se incapazes de fazer sentido em outros idiomas. Nesses casos, a insistência na versão estrangeirada do vocábulo acaba por ocasionar o mau uso; adaptações ligeiras demais, as quais, na maioria das vezes, não funcionam. Em geral, atrapalham!

    Eu, por exemplo, engasguei outro dia na palavra “otherness”. Desde o século 16, numa política premeditada de registro visual, populações negras e indígenas ora deixaram de ser representadas, ora surgiram nas imagens e documentos como apenas exóticas; em tudo distintas de um grande e silencioso pressuposto chamado “nós”. Assim, tendo em vista esse tipo de registro contencioso, bem como buscando evitar o recurso pedante ao inglês, procurei encontrar uma substituição à altura da locução. Pensei, em primeiro lugar, em usar “alteridade”. Logo percebi, porém, que tal conceito carregava consigo um lado humanista demais, herdado dos estudos de Jean-Jacques Rousseau. Conforme mostrou o filósofo francês, o termo enuncia um processo complexo, uma vez que o conhecimento do “outro” acaba sempre levando ao próprio estranhamento de “si”. Portanto, embutia uma conotação distinta de “otherness”; expressão que revela e denuncia a mais absoluta desqualificação daquele que não conheço e assim caricaturo.

    Resolvi então usar “diferença”. Mas a palavra não delimita uma política de enunciação e sim uma atitude normativa. “Diferente” pode ser bom ou ruim, mas não se apresenta como uma forma categórica. Já “otherness” veicula sempre uma condenação. Enfim, premida pela dúvida, achei melhor deixar a palavra em língua estrangeira e ponto final. Abusei das aspas e assim fiz as pazes com a minha indecisão. Me saí com um bordão à moda de Caetano Veloso: “está provado que só é possível filosofar em alemão”. Nesse caso, em inglês.

    Mas esse não é, por certo, um caso isolado. Ao contrário, muitas vezes, diante de impasses como esse que acabo de mencionar, a saída tem sido optar pela tradução literal. Andamos invadidos por expressões importadas, as quais, não raro, são vertidas diretamente, sem que se avaliem as consequências desse tipo de apropriação. Novo exemplo: o conceito de “agency”. Originário de uma discussão advinda da sociologia, a noção escorregou para outras áreas das ciências humanas – sobretudo história, ciência política e antropologia – e passou para o âmbito da poderosíssima teoria do senso comum que tem o poder de tudo naturalizar. O suposto é que o ator individual domina a faculdade de processar sua experiência social, enfrentando sua situação, mesmo que sob formas extremas de coerção.

    Segundo o sociólogo Anthony Giddens, um dos divulgadores dessa teoria, ainda nos anos 1980, “agency” diria respeito à capacidade que as pessoas têm de “fazer coisas” e “causar mudanças no curso de eventos pré-existentes”. Por fim, e visto sob esse ângulo, “agency” não seria simplesmente um atributo de atores (agentes) individuais; redes coletivas teriam o poder de manipular situações e negociar direitos. Mas o termo representa uma via de mão dupla, na medida em que nem todo ato de “agency” “dá sempre certo” ou desemboca, inevitavelmente, em sucesso. Muitas vezes, e como diz o provérbio, “tudo pode acabar em água”.

    Democracia é termo para adotar criticamente, cuidar com carinho e animar que ele se desenvolva guardando sua sublime insubmissão

    Com o tempo, o conceito ganhou vida própria nessas paragens brasileiras, como “agência”, e virou uma espécie de obviedade: todos manipulam, têm iniciativas e, ainda mais, só existe “agência positiva”: aquela que gera ótimos resultados. Para deixar a trajetória desse vocábulo com roupinha e jeito de expressão influente, na sua versão nacional ele se confundiu com estabelecimento bancário – agência de banco - e aí o ruído ficou muito alto. Quem não acreditar, sugiro que recorra à internet a fim de verificar de que maneira o termo, que virou conceito, aparece em vários sites. Por vezes “agência” surge como iniciativa de negócios; por vezes como instituição financeira e, por vezes, ainda, na sua forma social, como uma sorte de “livre inventar é só criar”. Nessa acepção, “agência” é sempre um modelo de êxito; nunca de fracasso. Espécie de autoajuda inteligente. Parece, portanto, que a tradução e a disseminação do termo geraram mais fumaça do que, de fato, evidência crítica. Se tudo é, e tem “agência”, há que se perguntar, afinal, o que não teria? 

    Mais do que reclamar do uso desses e outros vocábulos, o que pretendo sugerir é um reflexão sobre as apropriações heterodoxas desses termos. E ainda: como os jogos com os conceitos, suas traduções, geram uma espécie de efeito reflexivo. Trocando em miúdos, mais do que indagar sobre o que são essas palavras, vale imaginar o que elas criam com suas novas vidas.

    A antropóloga Manuela Carneiro da Cunha chamou esse tipo de contenda de “termos de empréstimo”. São palavras que viram conceitos e ganham um uso semântico mas também metassemântico, uma vez que passam a guardar suas próprias chaves de interpretação e produzem sentidos pragmáticos nas realidades em que se inserem. Os exemplos são muitos. Veja-se o caso dos povos da Melanésia que derivaram do termo “custom” o sentido de “kastom”, o qual remete à forma como esses grupos vivem seus costumes, utilizando-os como uma maneira de reafirmar políticas de identidade e de dignidade. Note-se ainda a dificuldade de tradução – do outro lado do continente – de registros “brasileiros” como malandragem ou saudades. O suposto é que nada que se diga dá conta de tamanha realidade.

    Fico também me perguntando sobre as trapaças que a língua prega. No Brasil de inícios do século 20, convencionou-se chamar de “associativismo negro” a grupos que defendiam as causas dessa população. Não por coincidência, no final dos anos 1970, o “movimento negro” adotou para si a mesma cor social: negro. E o termo navegou junto com a história. Na época em que vigorava o sistema escravocrata, se a palavra “negro” era associada aos cativos insubmissos; já “pretos” eram aqueles que se resignavam (e não discuto os motivos) ao sistema. Reveladora é a notícia publicada no “Correio Paulistano” de 1882, que narra “um violento diálogo estabelecido entre um preto e um negro”. As cores não deveriam variar muito; o que sim variava era a situação social, com o segundo escravizado querendo convencer o primeiro a abandonar o trabalho forçado na fazenda, e o primeiro sendo definido como um “quilombola insubmisso”. “Negro” era por aqui sinal de revolta; “preto” de acomodação. Sabemos bem que jornais e periódicos nada têm de neutros ou ingênuos. Portanto, não me interessa julgar a veracidade da notícia, e sim o jogo semântico que se entabula por meio da nomenclatura. Tanto que nos EUA ocorre uma clara inversão: o termo “black” é aquele assumido pela militância negra, enquanto “neager” é considerado uma designação no mínimo ofensiva, e com certeza racista.

    Meu objetivo não é lamentar; apenas politizar o uso das palavras e seu caráter discricionário. Elas não são falsas “ou” verdadeiras; são falsas “e” verdadeiras. Falsas, pois nada é fiel ao sentido original. Verdadeiras, pois elas respondem às realidades que procuram descrever, e criam novos significados e valores.

    O termo mais utilizado e traduzido no nosso momento político responde pelo nome de “democracia”. O suposto vigente é que “demokratía” - vocábulo cunhado pelas cidades-Estado gregas para descrever o povo (“demo”) no poder (“kratia”) - seria basicamente a mesma em todos os lugares. Aliás, de tanto ser manipulada, a democracia virou um jargão da nossa era, uma palavra forte e onipresente. E nada mais correto e falso. Correto pois, teoricamente, o sentido seria exatamente igual àquele veiculado no século 5 aC, sem tirar nem pôr. Democracia é sempre, e por definição, um processo inconcluso. Mas carregaria por onde andasse uma vocação fundamental: a busca de um catálogo de direitos que privilegia a igualdade dos cidadãos no convívio entre diferentes. Por isso ela abrange as condições sociais, econômicas e culturais que facultam e favorecem o exercício livre e igual da autodeterminação política.

    Hora de olhar para nosso contexto presente. A “democracia” anda mesmo na boca de todos e virou figurinha fácil. E de tanto ser acionada, ela quase perdeu seu sentido. A tradução se veste como literal, e traz consigo a ilusão de se mostrar como “natural”. Mas não é! Basta ver como democracia, no Brasil, deixou de ser um conceito reflexivo e pragmático, que visa assegurar direitos políticos inalienáveis, plurais e o convívio das diferenças entre diferentes, e passou a ser cativa do domínio de poucos e iguais; uma moda fácil, uma chancela para medidas e atitudes nada democráticas: deixar que uma agência ou poder imponha-se por sobre a fraqueza dos outros; encerrar uma peça de teatro sobre a polícia (ficcional) com a invasão da polícia (em carne e osso); cercear movimentos estudantis, reduzir verbas para educação, cultura e pesquisa; não coibir racismos e sexismos, e assim vamos com nossa vasta agenda falhada da democracia.

    Sabemos que se os termos são públicos seus significados estão sempre em risco e litígio. Mas o momento é propício para que cada um adote uma “boa democracia” para si, diante "dos outros e com os outros. Com um novo 15 de Novembro chegando por aí, quem sabe seja um bom momento para lembrar da República, lotar a garrafa da democracia e não deixar seu líquido entornar, à toa. Democracia é termo para adotar criticamente, cuidar com carinho e animar que ele se desenvolva guardando sua sublime insubmissão: o direito à igualdade na diferença e vice-versa ao contrário. Nada nela há de lembrar uma tradução desautorizada, do tipo: o mesmo para os mesmos.  

    Lilia Schwarcz é professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças", “As barbas do imperador", “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário" e "Dicionário da escravidão e liberdade", com Flavio Gomes. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp.

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