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Coluna

Dalton Paula ou a arte de criar territórios negros e silenciosos

    Num país de maioria negra e mestiça, ainda temos uma representação absolutamente desproporcional de artistas negros. Não me refiro apenas à cor e à origem. Mas, sobretudo, a uma arte negra, porque impactada por temas da negritude, como faz Lima Barreto para o caso da literatura, e Dalton Paula nas artes plásticas

    Quem for à 32ª Bienal de Arte de São Paulo há de reparar num conjunto singelo de alguidares dispostos em suportes de madeira clara e quase rentes ao chão. Essas vasilhas circulares, feitas de barro ou argila, são peças obrigatórias nos rituais afro-brasileiros e nos assentamentos em terreiro aos Orixás, Caboclos e Exus. Chamados pelo povo de santo de oberós, os alguidares são destinados a receber a comida e as oferendas – talvez antes as oferendas e depois as comidas, ou as comidas que são também oferendas. 

    Pouco importa, na verdade, a ordem dos fatores, que não altera em nada o produto. O que sim importa (e emociona) é ver essa coleção de pratos morenos ser apresentada numa mostra da Bienal. O público que por lá circula é convidado a contemplar, de forma quase compungida, esses objetos moldados pelo barro e com aura de sagrado. Esses objetos, na sua própria materialidade, carregam um pouco de tudo: comida, cura,  ensinamentos espirituais, saberes medicinais e a mais pura arte. Aqui o barro é transformado em tela, e passa a apresentar a sanha do dia a dia e os afazeres rituais das populações que o utilizam e exploram. 

    Dalton Paula, esse jovem artista goiano, opta por explorar um dos suportes mais tradicionais, e assim apresenta um universo negro, tão múltiplo como complexo. Atividade milenar, daquelas que colocamos na conta do “muito antes de Cristo”, o barro sempre fez parte da lógica interna desse país. Antes mesmo do Brasil ser Brasil, populações ameríndias faziam potes, gamelas, tigelas e bonecas, esculpindo a terra. Com a chegada forçada de africanos, que entraram a partir de finais do século 16, o barro que é feito da mistura foi virando, ele próprio, prática mestiça.

    Realizados por toda parte do território nacional, os trabalhos de barro ganharam grandes e anônimos mestres. Em Caruaru, a prática recebeu doses de extremo requinte no Alto do Moura, lugar onde viveu mestre Vitalino, um dos mais conhecidos oleiros de Pernambuco. No mesmo estado, em Tracunhaém, hoje se localiza o “polo cerâmico”, onde mora Zezinho de Tracunhaém, que modela com engenho e arte figuras de Santo Antônio, São Pedro, São José e Padim Ciço. 

    Goiânia é hoje considerada a “terra do barro”. Imagens de barro lembram santos e padroeiros da Igreja Católica (Santo Expedito, Santo Antônio ou São Pedro). Por lá, figuras do folclore local - como o vendedor de abacaxi, o tirador de coco, o pegador de caranguejo, o pescador – renascem na linguagem da argila. Heroínas e figuras simpáticas retiradas das histórias locais - os mendigos, as lavadeiras, os carvoeiros – tomam vida quando esculpidas no tom da terra. Como se vê, da mistura se faz mistura.

    E assim, valendo-se da tonalidade, da história e da técnica do barro, Dalton Paula realizou esse seu último trabalho. O lugar demarcado parece tão sagrado que demanda calma e tempo. Mas não é a primeira vez que o artista seleciona suportes inusitados e retira deles sua intenção original. Ele já havia usado um pouco dessa mandinga na série “Retrato silenciado”, quando desenhou uma série de arranjos familiares por cima de antigas enciclopédias. As capas ficaram para sempre recobertas pelo traço forte e o uso generoso da tinta a óleo. Lá estão famílias nucleares, casais jovens, duplas de homens, crianças com vestidos caprichados, padres, mulheres que se entreolham; todos com jeito de festa. O modelo é aquele das fotos populares e colorizadas, como se elas pudessem preservar a alegria dos raros momentos que interrompem o cotidiano do trabalho, inaugurando uma temporalidade diferente: aquela das festas e celebrações. Tudo isso e com um grande detalhe sublinhado: os personagens de Dalton Paula são basicamente negros.

     

    Pintores acadêmicos alegavam dificuldades na hora de representar corpos negros em suas telas. Teoricamente, o problema era apenas técnico: faltavam tintas e modelos que oferecessem repertórios adequados para os tantos tons de marrom dessa população. Quem sabe a falta era excesso (de sentido): careciam os recursos (e a vontade) para pintar aqueles que pouco frequentavam os retratos das pinacotecas, mas eram (e são) maioria dentre os habitantes do nosso país. Claro está que o problema não era da ordem da “natureza”, mas antes da cultura e da sociedade. Na verdade, a falta de uso vinha da teimosa exclusão social, econômica e política. A pobreza não merecia retrato na parede chique; muito menos a escravidão, que se espalhou feito erva daninha por essas Américas.

    Esse foi o motivo, também, para a Kodak, durante muito tempo, não contar com filmes apropriados para captar a cor negra. Melhor dizendo, a calibragem configurada para imprimir as fotos não reproduzia as peles mais escuras que saiam nas revelações com uma coloração pálida, ou tão preta que só o branco dos olhos e dos dentes distinguia-se. Os modelos foram chamados de “Shirleys”, em homenagem ao padrão de cor vigente, e que funcionava como norma: moças de pele branca, sorridentes, com cabelos loiros e longos. Foi só nos anos 1960, com a vigência dos movimentos de direitos civis, que esse impasse ganhou outra solução. De toda maneira, estava claro como o problema não circundava os limites da tecnologia; o que faltava era reconhecimento da diversidade étnica. A questão é moral, e está vinculada às práticas de representação visual.

    Pois bem, Dalton Paula, de fala mansa e jeito de quem nada quer – mas que tudo sabe – duplica nas suas obras os retratos populares, feitos para eternizar essas populações negras, as quais, a despeito da falta de recursos materiais, não abrem mão de suas vestes endomingadas. Era de maneira semelhante que o escritor Lima Barreto, em inícios do século 20, descrevia seus vizinhos dos subúrbios cariocas. “A tarde aproximava-se e as toilettes domingueiras já apareciam nas janelas. Pretos com roupas claras e grandes charutos; meninas em cassas bem engomadas; cartolas antediluvianas ao lado de vestidos pesados de cetim negro, envergados em corpos fartos de matronas sedentárias; e o pobre domingo aparecia assim decorado com a simplicidade dos humildes, com a riqueza dos pobres e a ostentação dos tolos.”

    Num país de maioria negra e mestiça, ainda temos uma representação absolutamente desproporcional de artistas negros. Não me refiro apenas à cor e à origem. Mas, sobretudo, a uma arte negra, porque impactada por temas da negritude, como faz Lima Barreto para o caso da literatura, e Dalton Paula nas artes plásticas. Que introduzam em sua arte não só personagens, mas também vocabulários, religiosidades, trânsitos, circularidades, espiritualidade, comidas, cheiros e rituais advindos e partilhados por essas populações afro-brasileiras.

    E esses são os estandartes de Dalton Paula, que conversa a partir das entranhas desse mundo. Seus “Ex-votos” trazem a linguagem desses objetos votivos, que pedem pela cura e oferecem em troca a réplica das partes do corpo doente, ou a simulação do mal que aflige o suplicante. Singelos, os objetos de arte criados por Dalton repisam, como se fossem cantilena milenar, a angústia da família enlutada, o desespero da mãe machucada pela dor da possível perda, mas igualmente a esperança renovada pela fé expressa nas cores fortes. Novamente, e não por coincidência, os personagens são todos negros.

     

    O mesmo ambiente vertebral em “A cura”, quando figuras de negros passam por processos terapêuticos que pouco lembram as nossas práticas ocidentais. Aí estão os curadores, rezadores, os xamãs, os pajés, os santos médicos. Magias, benzedeiras, garrafadas, pajelanças são os protagonistas desse artista.

    Dalton dialoga, pois, com um Brasil mestiçado, que inclui mistura, mas separação, e muita hierarquia interna. Foi assim, tomado por muitas histórias, terreiros, espaços quilombolas, bairros suburbanos que o artista fez as malas e partiu para sua mais recente viagem, agora apresentada como uma conversa entre alguidares. A obra faz parte de um deslocamento mais profundo, rumo às suas muitas origens. Piracanjuba, em Goiás; Cachoeira, no Recôncavo Baiano, e Havana em Cuba fazem parte de sua “Rota do tabaco” realizada em 30 dias. Roteiro real e simbólico, seguido pelo artista como se fosse naturalista desenhador, nessa viagem paralela ao comércio de almas humanas – o hediondo tráfico negreiro -, Dalton embarcou não para ficar aprisionado; para “curar-se”. Ao invés de ver nesse comércio transatlântico somente “carência”,  ele foi atrás do “excesso” de significados, de valores e trocas.

     

    Existe um vasto imaginário em torno da produção do fumo, presente nos corpos negros contrastados pelas vestes rituais brancas; na invisibilidade das culturas de matriz afro-brasileiras, e nos tantos ensinamentos espirituais e medicinais que vêm com o tabaco e com as ervas trazidas nos porões dos navios. Ele está contido, também, nos segredos dos pratos feitos do barro, que tomam parte dessa “rota”. Cultura paralela e subjacente à da cana de açúcar, que criou uma sociedade agridoce – amarga por conta da escravidão e adoçada por causa da cana -, o tabaco acabou firmando-se na lavoura colonial. Era objeto de troca; de muitas trocas. Com ele iam e voltavam religiosidades, cheiros, tecnologias, afetos. A louça até hoje queimada e esculpida servia para o processamento do fumo, para o alimento e para o ritual, provendo os quilombos do passado e os atuais, que fazem parte da via hoje denominada como “rota da liberdade”. Liberdade, palavra tão dura de obter e tão fácil de perder no Brasil da escravidão.

    A obra de Dalton é, pois,  profundamente negra não só na origem de seu criador, mas na temática que ele seleciona. Aqui práticas e saberes ganham uma forma cultural e social comum; uma dicção própria, proveniente dessas muitas nações africanas unidas por uma imensa e injusta diáspora. Segundo nosso artista, que é também bombeiro (e começa a pensar em transformar uma licença provisória em definitiva), suas obras servem à “cura” e à “destilação” da imagem estereotipada da condição negra.

    Dalton deixa claro, à sua maneira, como ninguém foi escravo no passado. Essas foram populações “escravizadas” por conta das circunstâncias; não da origem. É por isso que sua arte é também uma forma de libertação. Com sua varinha de condão o artista faz do silêncio um grande ruído, mostrando, na base da delicadeza, que, se no período colonial e imperial brasileiros, os africanos foram vítimas do sistema escravocrata, fizeram muito, muito mais do que apenas “sobreviver”. Louvaram suas alegrias, cantaram suas tristezas, recriaram suas próprias mitologias, trouxeram odores, sabores, adereços, culinária e linguagens. Tudo “entre” mundos e histórias. Nessa “rota” tortuosa, Dalton conheceu a planta guiné (Petiveria alliacea L.), utilizada na África contra o mau olhado, em banhos, defumadores e como proteção. Em terras tropicais, a planta ganhou o nome de "amansa-senhor" e foi traduzida como mecanismo de defesa contra a violência dos grandes proprietários de terra. Homens e mulheres escravizados produziam poções com a guiné, e as introduziam nas comidas e bebidas de seus senhores. O resultado era muito mal-estar, demência, e, não raro, a morte.  A escravidão criou, mesmo, um mundo de disfarces e a guiné virou símbolo dileto desses mecanismos ambivalentes. A planta contém um pouco de tudo: propriedades medicinais e qualidades tóxicas; veneno que mata e ritual que cura.

     

    Dalton Paula é mestre nessas histórias articuladas, paralelas, tão violentas como curativas, e que se movem na base do silêncio dos detalhes: fotos colorizadas, ex-votos, alguidares, vídeos, mapas e rotas. Aí está uma série pretensamente ingênua, mas que vem, na verdade, carregada de dissimulação. O Brasil foi um imenso “toma lá, dá cá”. Com ele, o país virou extraordinariamente africanizado e, no mesmo ritmo, transformou a África num outro Brasil.

    Já nosso artista goiano tratou de ocupar espaços ainda bastante rarefeitos. Foi assim tateando locais opacos e ambíguos dessa arte negra brasileira, muito silenciada por processos longos e efetivos de dominação e de construção da invisibilidade. Em meio a essa longa construção do “outro” entre “nós”, Dalton Paula faz arte “conosco”, e devolve as muitas histórias que existem dentro da nossa história.

    Lilia Schwarcz é professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças", “As barbas do imperador", “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário" e "Dicionário da escravidão e liberdade", com Flavio Gomes. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp.

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