Coluna

Com quantas histórias se faz uma cultura do estupro no Brasil

    O passado nos legou uma marca pesada que nada deve ao descuido ou à circunstância. No entanto, é possível reverter essa situação e enfrentar a forma assimétrica e violenta como se estabeleceram e se estabelecem as relações de sexo no Brasil

    No primeiro documento oficial do Brasil - a bela carta que Pero Vaz de Caminha endereçou ao rei de Portugal entre 28 de abril e 1 de maio de 1500 - o escrivão da nau de Cabral confessava, entre encantado e preocupado, que todos nessa terra andavam “nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas”. Como se pode notar, a beleza e a falta de roupa dos nativos, e sobretudo das nativas, chamou logo a atenção dos primeiros colonizadores.  

     

    A primeira ilustração que se conhece sobre a América, datada do ano de 1580, também tratou de imaginar um “amistoso” encontro entre o Velho e o Novo Mundo. Não por coincidência, o europeu é representado como um homem que domina uma série de símbolos associados à civilização: o astrolábio, as caravelas, os sapatos e o excesso de roupas. América, por sua vez, surge como uma mulher, praticamente nua e deitada numa rede, mostrando que o Novo Mundo estava preguiçosa e languidamente aguardando a chegada do Velho. As associações com a barbárie são igualmente evidentes: a falta de vestimentas a cobrir seu corpo, os pés descalços e sobretudo as cenas de canibalismo que ocorrem ao fundo. Mas há outro detalhe a anotar: ela oferece seus braços em direção ao conquistador, como se desejasse e o convidasse para a “invasão”.

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    Lilia Schwarcz é professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.

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