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Coluna

Circo familiar: sobre deus, filhos e amigos no show da Câmara

    O que vimos na votação do impeachment foi um show de culto do privado. Uma exaltação, não do caráter coletivo dos nossos representantes no Congresso, mas a expressão da individualidade do “eu sou mais eu na minha particularidade”

    Nessa segunda-feira boa parte dos brasileiros acordou de ressaca. O espetáculo que se apresentou foi, até mesmo para aqueles que torciam pelo impeachment, desolador. O que se viu no Congresso de Brasília, no dia 17 de abril de 2016 – que já tem lugar reservado na agenda da nossa história –, foi não só um assassinato da gramática, como um desfile barato dos mais diferentes usos do palanque. Teve deputado que combinou camisa verde com gravata amarela e paletó azul (e a ordem dos fatores não alterou o produto); deputado que resolveu assumir o posto e retirar o suplente, só para garantir seu minuto de fama; deputado que trouxe filho para votar em seu lugar; deputado/a  que usou das lágrimas (em excesso) ou do semblante risonho (também em excesso) para comover a si mesmo e aos demais; deputado que lembrou de personagens sombrios da nossa história recente; deputado que abusou dos heróis de plantão. Enfim, assistimos a uma floresta de citações, tão inusitadas quanto imprevisíveis. Só faltaram, mesmo, os argumentos vinculados ao tema que estava sendo discutido naquela ocasião: o processo de impeachment da presidente. Vingou, pois, o que já se imaginava previamente: a retórica política.

    Mas dentre as inúmeras falas dos representantes no Legislativo, prevaleceram aquelas que se referiam ao nosso velho e bom “familismo”. Aliás, foi ele que deu o tom e as notas da canção. A maioria de nossos congressistas referiu-se, em primeiro lugar, e com grandes ênfase, a seus parentes próximos: esposas, maridos, filhos, netos. Aí estava, e na frente das câmeras, o tradicional costume de misturar esferas públicas com privadas, e fazer delas a mesma coisa. (Não são!)

    Também foi constante a citação ao “meu Brasil”, como se o país virasse, ele também, amigo dileto, afeto garantido, registro íntimo. Os deputados apenas esqueceram que, naquela hora e lugar, atuavam como “nossos” representantes; no sentido de fazer valer o voto dado por aqueles que os elegeram, e que foram eleitos pela nação. Não houve pacto público, pois também nesse aspecto a questão era de fórum pessoal. (Não era!)

    Outra modalidade recorrente de discurso foi dedicar o voto para eleitores “pessoais”: “meus” eleitores, “meu” estado, “minha” cidade, declinavam vários políticos. A lógica dominante não foi aquela da pátria; mas antes da contabilidade estrita, de olho no próximo escrutínio. Qual seja, o raciocínio visava alcançar aqueles que “me elegeram”, e que “hão de me eleger” nos próximos anos. Não imperou, pois, a ideia de que deputados são representantes do povo brasileiro e não de si mesmos, ou de seus próximos. (Não são!)

    Mas existiu ainda outro grande “homenageado” nessa sessão memorável do nosso Congresso: Deus. Naqueles minutos breves, mas onde todos os olhares estavam voltados para os parlamentares, foi a vez de lembrar de Deus, novamente como um amigo antigo e dos mais queridos. Por isso, ele – Deus – raramente aparecia sozinho; surgia citado ao lado dos familiares do deputado. Aí estava uma nova versão do nosso conhecido “Deus é brasileiro”, acionado com frequência em situações de perigo ou de grande exposição. Mas, dessa vez, com uma variante  da maior importância: “meu Deus é brasileiro”. (Não é!)

    No entanto, se existe um aspecto que somos forçados a reconhecer, é que em cena não estavam apenas “eles”: os nossos deputados. De alguma maneira, esse foi e é um retrato três por quatro da “nossa sociedade”. Afinal, lá estavam representantes dos vários estados que compõem a nação brasileira; fomos nós que os elegemos, e de forma democrática. 

    A situação tem, porém, jeito e cheiro de “cordialidade”. Uso o termo na acepção que Sérgio Buarque de Holanda deu ao conceito, no livro “Raízes do Brasil”, de 1936. Refiro-me mais particularmente ao capítulo “O homem cordial”, quando o historiador mostrou a existência de uma prática brasileira cotidiana e assentada, que consiste em burlar instâncias públicas para usar e abusar das privadas. Holanda também indica no livro uma maneira nada usual de negociarmos com os santos. Eles passam logo para o diminutivo; viram objeto de culto íntimo e pessoal; são acionados em momentos que fazem sentido na agenda restrita de cada um.   

     Esses seriam sinais gritantes de nossa “cordialidade”, inscritos  numa suposta maneira informal e generosa de os brasileiros atuarem. Ou seja, no emprego constante de diminutivos (que fazem do distante, próximo); na omissão do nome de família no tratamento social (essa verdadeira disciplina de simpatia); na dificuldade diante das formas de convívio que não sejam ditadas por uma atitude de fundo emotivo  (expressa na cultura dos apadrinhamentos); no catolicismo que dá intimidade aos santos; no horror às distâncias sociais e na aversão ao ritualismo. Aí  estariam marcas persistentes dessa longa ditadura da polidez de superfície. “Cordialidade” não é, portanto, um adjetivo positivo para o historiador, mas antes uma dura constatação: um obstáculo para que chegássemos à modernidade.

    O contexto é outro, mas é também semelhante. Holanda professava, naquela época, receios diante de toda sorte de radicalismos, de esquerda ou de direita. Também mostrava como cordial vinha de cor (coração), o que fazia com que essa ética da intimidade – oposta à ética protestante - invadisse qualquer esfera pública. Viria daí, aliás, nossa repulsa diante dos partidos e das instituições e as dificuldades que apresentamos frente ao Estado. Tudo vira questão entre amigos, resolvida no interior da família ou entre os mais próximos.

    E o que vimos na votação do impeachment foi exatamente isso: um show desse culto do privado. Uma exaltação, não do caráter coletivo dos nossos representantes no Congresso, mas a expressão da individualidade do “eu sou mais eu na minha particularidade”. 

    Dizia Fernando Pessoa que “um homem de gênio muitas vezes não tem família. Tem parentes.” O poeta português distinguia dois termos semelhantes, como quem demarca as diferenças entre o que é da lógica do informal daquilo que é da ordem da formalidade. Já o espetáculo a que assistimos no dia 17 de abril tinha jeito de almoção de domingo. Daqueles da música “Família”, dos Titãs: “papai, mamãe, titia; família, família; almoça junto todo dia; nunca perde essa mania”.

     

    Lilia Moritz Schwarcz é professora da USP e Global Scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças", “As barbas do imperador", “O sol do Brasil" e Brasil: uma biografia”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: Um olhar sobre o Brasil” e Histórias Mestiças”. Atualmente é curadora adjunta do Masp.

    Lilia Schwarcz é professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças", “As barbas do imperador", “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário" e "Dicionário da escravidão e liberdade", com Flavio Gomes. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp.

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