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Coluna

Bob Dylan, PhD

    Fico só imaginando o Dylan em casa, na sexta próxima, ou, quem sabe, num palco fazendo o que sabe fazer de melhor, enquanto Patti Smith está lá, sob 20 graus negativos, numa Estocolmo forrada de neve, recebendo seu prêmio

    Grande Patriarca da Rebelião, Alto Sacerdote do Protesto, Imperador dos Dissidentes, Duque da Desobediência, Kaiser da Apostasia, Arcebispo da Anarquia, Porta-Voz da Contracultura.

    Esses eram alguns epítetos que a imprensa, tanto a alternativa quanto a mainstream, pespegava em Bob Dylan em fins dos anos 60 e começo dos 70, quando a juventude universitária botava fogo em carros e arrebentava vidraças na rua, bradando contra a guerra do Vietnã, contra Nixon, contra os cornflakes, contra tudo.

    Dylan odiava essa mala onda, com força e amargura. Ele sabia, claro, que as letras de suas músicas tinham mexido com os ouvidos da moçada e da indústria cultural, mas nunca se viu como líder das massas descontentes e, menos ainda, das despossuídas. No entanto, ele era assediado dia e noite pelos fãs e pela imprensa como se vestisse a carapuça de todos aqueles qualificativos bombásticos. De nada adiantava declarar que ele não era o porta-voz de coisa alguma, que era apenas um músico.

    "Os jornalistas olhavam nos meus olhos em busca de evidências de bourbon e punhados de anfetaminas. Eu não tinha ideia do que se passava na cabeça deles. No dia seguinte, alguma matéria chegava às ruas com a manchete: 'O porta-voz nega que ele seja o porta-voz.' Eu me sentia como um pedaço de carne que alguém tivesse jogado aos cães."

    É o que Bob Dylan conta no primeiro volume de suas memórias, publicadas em 2004 sob o singelo título de "Crônicas", editado no Brasil pela Planeta. Ali o músico, poeta, escritor, pintor e agora prêmio Nobel de Literatura relembra o inferno que virou sua vida privada sob o assédio furioso de uma legião de malucos, junkies, rebeldes sem causa, gente sem eira nem beira na vida e simples fãs. Isso acontecia em todos os lugares em que ele sentava praça com sua família, tentando levar uma vida normal de pai de família ao lado da mulher e dos cinco filhos, sua maior aspiração.

    Quando se mudou para Woodstock, que, fora da agitação do famoso festival de música de 1969, era uma cidadezinha tranquila da área rural do Estado de Nova York, tal frenesi parecia ter amainado. Mas não por muito tempo. "Mapas rodoviários indicando nossa propriedade devem ter sido distribuídos em todos os 50 Estados americanos para gangues de vagabundos e drogaditos," escreve Dylan, em livre tradução minha. As pessoas arrebentavam cercas, subiam no telhado e tentavam se infiltrar na casa dele forçando portas e janelas. A situação ficou caótica a ponto de as autoridades policiais do condado avisarem Dylan de que, se alguém fosse ferido nos entornos de sua casa, ele seria legalmente responsabilizado. Pesadelo total.

    Dylan encontrou a paz que buscava, longe do papel de líder de protestos e insurreições que tentavam lhe impor

    Dylan tentou morar de novo na cidade de Nova York, onde havia começado sua carreira menos de dez anos antes. Achou que a multitudinária Big Apple diluiria um pouco sua identidade, despertando menos histeria em torno de sua presença. Doce ilusão. Não demorou pra que os manifestantes das mais variadas causas descobrissem seu endereço e organizassem demonstrações à sua porta, cantando, gritando palavras de ordem e exigindo que ele saísse para assumir a liderança das massas sublevadas.

    Depois de outras tentativas de se estabelecer em diferentes cidades do oeste, Dylan acabou entregando os pontos, aninhando-se com a família num reduto de milionários na costa leste, nos charmosos "Hamptons," à beira-mar. A casa que ele alugou pertencera a Henry Ford, pra se ter uma ideia. Ali, brincando com os filhos na praia, pintando paisagens, passeando pelos arredores, fazendo compras no mercado, Dylan encontrou a paz que buscava, longe do papel de líder de protestos e insurreições que tentavam lhe impor.

    Até que alguém lhe telefona num belo dia de verão para comunicar-lhe o que deveria ser uma boa nova: a prestigiosa Universidade Princeton, de Nova Jersey, uma das oito universidades mais antigas do país que formam a chamada "Ivy League," ou Liga das Heras, tinha decidido outorgar-lhe um título de "doutor honoris causa". Trata-se de uma distinção que despeja imediatamente uma jamanta de prestígio sobre a cabeça do agraciado. E lá se foi Bob Dylan, "num dia quente e límpido", rumo a Nova Jersey, a bordo de um reluzente Buick Electra 69, como ele faz questão de mencionar nas “Crônicas”.

    Na universidade, logo meteram o compositor de "Blowin' with the wind" numa toga doutoral e o colocaram diante de uma galera muito distinta num auditório apinhado de gente, todos os olhos postos nele. "Lá estava eu de pé naquela quentura encarando a patota, como num devaneio, sem conseguir prestar atenção em nada", lembra o tímido bardo, quando o apresentador da cerimônia, depois de um intróito formal, veio com essa:

    "Embora seja conhecido por milhões de pessoas, Dylan rechaça a fama e a filiação a organizações, preferindo a solidariedade de sua família e o isolamento do mundo, e, embora já se aproxime da perigosa marca dos trinta anos, ele permanece como uma autêntica expressão da consciência agitada e comprometida da Jovem América."

    O agraciado sentiu aquelas palavras como um coice. De novo o mesmo papo que ele tanto execrava, colocando-o como farol de toda uma geração combativa, distinção de que ele precisava tanto quanto de um furo na testa. "Tive um estremecimento e uns tremores", ele anota em suas memórias, "mas mantive a cara de paisagem. A consciência agitada de uma Jovem América! Eu não podia acreditar!".

    E que papo era aquele de isolamento do mundo? - ruminava Dylan, em total desencanto com a honraria que estava recebendo. "(...) Era como se eu preferisse viver numa tumba de ferro com a minha comida passada numa bandeja."

    Depois de balbuciar algumas palavras de agradecimento, o novo PhD por Princeton pegou seu canudo e deu no pé, puto da vida.

    Acho que essa história explica em grande parte a recusa de Bob Dylan em comparecer lá em Estocolmo, no dia 9 próximo, pra receber a láurea máxima da literatura mundial, o Nobel, mandando, em seu lugar uma representante, a amiga Patti Smith. A também cantora, compositora e poeta vai ler um discurso escrito por Dylan e interpretará "A Hard Rain's A-Gonna Fall".

    Lançada em 1963, no auge dos anos da Guerra Fria, quando os Estados Unidos e a extinta União Soviética viviam arreganhando seus dentes nucleares um pro outro, essa canção do Dylan fala num estrondo terrível que todos vão ouvir, em oceanos desertos, florestas tristes e numa moça que vaga em chamas pelas ruas, sugerindo claramente que a tal "chuva pesada" é a terrível precipitação de material radioativo que se segue a uma explosão nuclear.

    Fico só imaginando o Dylan em casa, na sexta próxima, ou, quem sabe, num palco fazendo o que sabe fazer de melhor, ou seja, cantar os belos e longos versos de suas canções, tocar guitarra e soprar sua gaita, enquanto Patti Smith está lá, sob 20 graus negativos, numa Estocolmo forrada de neve, recebendo seu prêmio. De sua cabeça coroada pela cabeleira desgrenhada e encanecida, ergue-se um balão com os dizeres: "É isso que vocês queriam, seus babacas? Aplaudam, então, o Príncipe do Apocalipse! Kkkkkkkkk!"

    Reinaldo Moraes estreou na literatura em 1981 com o romance Tanto Faz (ed. Brasiliense) Em 1985 publicou o romance Abacaxi (ed. L&PM). Depois de 17 anos sem publicar nada, voltou em 2003 com o romance de aventuras Órbita dos caracóis (Companhia das Letras). Seguiram-se: Estrangeiros em casa (narrativa de viagem pela cidade de São Paulo, National Geographic Abril, 2004, com fotos de Roberto Linsker); Umidade (contos , Companhia das Letras, 2005), Barata! (novela infantil , Companhia das Letras, 2007) , Pornopopéia (romance , Objetiva, 2009) e O Cheirinho do amor (crônicas, Alfaguara, 2014). É também tradutor e roteirista de cinema e TV.

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