Coluna

Bela que te quero linda!

    Quando era moleque, as mulheres que simbolizavam a beleza na mídia não recorriam a tanta cirurgia plástica, não se esfalfavam em academias, levantando e abaixando pesos

    Encontrei, dia desses, uma querida amiga, 10 anos mais nova que eu – cinquentona, portanto –, depois de mais de um ano sem vê-la. Minha amiga tinha sido uma jovem linda e era agora uma vovó de dois netos. A alegria de rever essa amiga foi acompanhada, porém, de uma espécie de dissonância cognitiva temporal. Me vi, de repente, na década de 90 do século passado, eu na casa dos 40, ela na dos 30. Porque essa era a idade que ela aparentava, de cara e corpo: uns 35, 38 anos, no máximo.

    "O segredo", ela me disse, quando comentei seu incrível rejuvenescimento, "tem quatro nomes: cirurgia plástica, dermatológica cosmética, nutricionista e academia". Pensei, na hora, que o segredo devia ter pelo menos mais três nomes: grana, paúra de envelhecer e narcisismo peterpânico. Mas preferi apenas admirar aquela admirável beleza recauchutada da amiga à minha frente.

    Quando eu era moleque, entre os anos 50 e 60, as mulheres que simbolizavam a beleza na mídia, atrizes, modelos, pin-up girls, não recorriam a tanta cirurgia plástica pra mudar o corpo, cortando o nariz, aparando o bigode chinês, a papada, as olheiras, inflando ou enxugando as mamas, nádegas e coxas. Ou faziam isso em segredo, sei lá. Também não se esfalfavam em academias, correndo horas sem sair do lugar numa esteira, levantando e abaixando pesos.

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    Reinaldo Moraes estreou na literatura em 1981 com o romance Tanto Faz (ed. Brasiliense) Em 1985 publicou o romance Abacaxi (ed. L&PM). Depois de 17 anos sem publicar nada, voltou em 2003 com o romance de aventuras Órbita dos caracóis (Companhia das Letras). Seguiram-se: Estrangeiros em casa (narrativa de viagem pela cidade de São Paulo, National Geographic Abril, 2004, com fotos de Roberto Linsker); Umidade (contos , Companhia das Letras, 2005), Barata! (novela infantil , Companhia das Letras, 2007) , Pornopopéia (romance , Objetiva, 2009) e O Cheirinho do amor (crônicas, Alfaguara, 2014). É também tradutor e roteirista de cinema e TV.

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