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Coluna

Agruras da tocha olímpica no Brasil ou como bem ‘inventar uma tradição’

    Símbolos não são aleatórios e a chama dos gregos continua a encantar a utopia de uma irmandade internacional, por mais que essa realidade encontre-se, muitas vezes, distante

    Os Jogos Olímpicos de 2016 só começam no dia 5 de agosto, mas a tocha que antecipa e fecha a festa internacional já vem percorrendo o Brasil, de ponta a ponta. O trajeto que começou em Brasília, no dia 3 de maio, vem seguindo uma rota extensa, de cerca de 20.000 quilômetros, com direito a muitas escalas exóticas. A chama olímpica tem recebido, aliás, tratamento vip, com estadia garantida nos principais cartões postais do país. Neles aparecem reveladas a pujante natureza tropical, mas também os vários povos e costumes desse nosso imenso território, de proporções continentais.

    No entanto, como nem sempre o certo ganha do incerto, a tocha também acabou presenciando cenas de pobreza e carestia (mesmo que disfarçadas pela pretensa “alegria” da população), além de ter vivenciado alguns incidentes um tanto constrangedores. Numa agenda que incluiu a apresentação do que há de melhor por aqui, o tema da preservação ambiental não foi, com certeza, o ponto forte. Causou verdadeira comoção a morte da onça Juma, um dos mascotes dos batalhões de Manaus. Por lá, os felinos são presença cativa nos desfiles militares, a despeito da prática ser condenada por veterinários e biólogos. Espécie incluída pelo Ibama dentre aquelas ameaçadas de extinção, onças são animais que exigem vastas áreas para sobreviver e para que possam caçar presas como jacarés e capivaras. Pois bem, como todo animal selvagem, Juma não se comportou de maneira “domesticada” quando teve que posar ao lado da tocha olímpica: ficou nervosa com tanto movimento e achou por bem evadir-se. Foi recapturada na base de tranquilizantes, mas, mesmo assim, conforme alegaram os militares, ela avançou sobre um soldado. Segundo relato oficial, “como procedimento de segurança e visando proteger a integridade física dos militares e tratadores”, Juma foi abatida com um tiro de pistola no Centro de Instrução de Guerra na Selva. Fim da história; da onça pelo menos.

    Eventos como as Olimpíadas são feitos de atletas, mas também de outro tipo de matéria prima: a emoção que envolve comemorações como essas.

    Gerou também polêmica a passagem da tocha por locais de turismo ecológico. O brilho da chama olímpica foi levado até a região amazônica dos botos cor de rosa; outra espécie ameaçada com a extinção. Nesse caso, o programa incluiu boiar ao lado dos mamíferos, que ficaram estressados e sofreram com o excesso de fotos. Até mesmo nadar em águas cristalinas e fazer rapel na Chapada Diamantina; percorrer os paradisíacos Lençóis Maranhenses ou fechar o Parque Nacional de Chapada dos Guimarães acabaram sendo caminhos e descaminhos da chama olímpica em terras nacionais. Vale tudo quando o objetivo é divulgar a natureza “virgem” do Brasil e dar um jeito de contrabalançar a representação que hoje impera sobre nós no exterior: a grave crise política e econômica que se abate sobre o país. A meta pareceu ser, também, contrabalançar o medo das epidemias do vírus zika e da violência urbana, que vêm assustando atletas e turistas. Em seu lugar entraram fotos e vídeos anunciando uma nação de águas puras, animais selvagens e simpáticos (quase sempre) e uma população que, mesmo sem muitos recursos, é muito receptiva.

    O fato é que tem vingado a imagem exótica e tropical do país, tantas vezes utilizada em projetos patrióticos, ufanistas e de cunho nacionalista. Eventos como as Olimpíadas são feitos de atletas, mas também de outro tipo de matéria prima: a emoção que envolve comemorações como essas. Tal qual um ritual, e dos bons, elas são realizadas visando, sobretudo, a comoção geral. Por isso mesmo, boa parte da eficácia do espetáculo vem da manipulação simbólica de uma série de elementos, que, para que sejam eficientes, precisam fazer parte do conhecimento acumulado de todos. E, nesse sentido, nada como a história, que tem o dom de transformar qualquer novidade numa boa e legitimada tradição.

    Foi o historiador inglês Eric Hobsbawm quem chamou a atenção para o conceito de “invenção da tradição” e sobre seus usos políticos. Segundo ele, a expressão demonstra como a história pregressa é com frequência utilizada com o fito de estabelecer noções de perpetuidade e de continuidade para fatos, muitas vezes, datados no tempo ou de passado espúrio.

    E esse é o caso da tocha olímpica, um dos mais preciosos emblemas dos Jogos Olímpicos e cuja origem é comumente associada, e de maneira ininterrupta, à história da Grécia. A tocha está tão encravada na coreografia moderna que muita gente pensa que ela representa um simples retorno à tradição pagã. Pois a história é, e não é, bem essa. A tocha que arde durante o cerimonial, guarda  (infelizmente) um passado bastante complicado. O bastão sagrado já iluminava, sim, os antigos festivais gregos. Mas os povos da antiguidade abriam suas Olimpíadas propagando a notícia com atletas correndo pelas cidades e levando consigo a boa nova. Nada de tochas e muito menos de fogo ardente passando de mão em mão. Essa “tradição” só virou “antiga e consagrada” em 1936, quando uma corrida de 12 dias abriu os jogos de Berlim, na mesma época em que Hitler subia ao poder. O dirigente alemão que professava simpatias suspeitosas pelos deuses gregos, em especial Zeus, acreditava que seus jogos promoveriam, dessa vez, os corpos atléticos germânicos e forneceriam exemplos da supremacia ariana.

    Quem quiser ter certeza dessa história assista o filme “Olímpia”, da cineasta Leni Riefenstahl’s – uma costumaz colaboradora do regime nazista -,  que mostra didaticamente como o ritual olímpico daquele ano procurou juntar de tudo um pouco: mística grega, paganismo estético, e exibição marcial germânica. Os Jogos Olímpicos deveriam teatralizar, portanto, uma espécie de apoteose do Terceiro Reich e de seu poder. O objetivo era claro: criar uma comunidade alemã irmanada pelo sentimento de pertencer a essa “humanidade especial”, porque ariana, bem como intimidar possíveis inimigos que também se armavam no contexto que antecedia a Segunda Guerra Mundial.

    Hitler não mediu esforços, assim como cuidou pessoalmente da seleção dos símbolos que decoraram o estádio em Berlim: motivos gregos foram combinados com ícones visuais do nazismo e a festa parecia pronta para a celebração. Invenção inventada, só faltava os alemães performarem nos seus Jogos Olímpicos, confirmando como a pureza tinha cor: era branca, de cabelos louros e olhos azuis. Mas os deuses – fossem eles quais fossem – não andavam favoráveis ao “Fuhrer” e quem ganhou a mais importante competição, a corrida de 100 metros rasos, aquela que revela o homem mais rápido do mundo, foi um afroamericano. Jesse Owens mostrou como o belo era negro; tinha músculos, mentes e corpos perfeitos. O atleta levou consigo quatro medalhas de ouro e com elas a pretensão nazista, ao menos nesse certame.

    É preciso conceder que, no limite, homens estão sempre criando tradições. E daqui a pouco vamos ter oportunidade de avaliar como “inventamos a nossa”.  Aliás, para não fugir à convenção esportiva, o desenho da tocha brasileira foi objeto de muito trabalho e desenvolvimento. Na declaração oficial do governo, “o tradicional objeto” é definido como resultado de muita “tecnologia”, casada com “referências às riquezas naturais e culturais do Brasil”. O símbolo ambulante que passará por pelo menos 83 cidades até chegar a seu destino final, o Rio de Janeiro, será conduzido por 12 mil pessoas, e foi especialmente confeccionado. A inspiração teria vindo das “características nacionais” e  de um “sentimento de brasilidade”, para abusarmos mais uma vez dos termos de seus idealizadores.

    A primeira delas remete à hospitalidade brasileira. No momento do “beijo”, quando um atleta (ou qualquer outro condutor) encontra com o outro durante o revezamento, e passa a chama olímpica, a tocha ganha cores e movimentos súbitos. Ou seja, quando fechado ou em repouso, o objeto é branco, como se essa fosse uma cor neutra; o que com certeza não é. Já quando acionado o gás, a tocha se ilumina, revelando “as cores do Brasil”. O marrom do solo, que fica na base inferior, remete à terra do país e ao calçadão de Copacabana (sic). Mais acima reluz o azul das ondas do mar e de nosso litoral. Já a parte superior é esverdeada, numa alusão às nossas matas. Para terminar, o amarelo forte representa o sol que ilumina a nação e o ouro olímpico. Alterando os termos do ditado: “Simbologia pouca é bobagem!”

    Desde que foi acesa no dia 25 de março de 1936, a mística da  tocha olímpica já percorreu 26 países e, a despeito de seu passado nublado, ela ainda simboliza a possibilidade de ver um mundo desfilar de maneira coletiva, em paz, e com a competição rolando apenas na conta dos esportes.

    Símbolos não são aleatórios e a chama dos gregos continua a encantar a utopia de uma irmandade internacional, por mais que essa realidade encontre-se, muitas vezes, distante. Aliás, não me refiro apenas ao passado mas também a nossos tempos recentes, marcados por vários conflitos, pelo fim do sonho da comunidade europeia e pela emergência de tantos ódios e radicalismos. Inventada ou não, agora é torcer para que a tocha inflame nossa imaginação.

    Agradeço ao Luiz Henrique Ligabue pelas dicas sobre o roteiro da tocha no Brasil. Já para quem quiser conhecer mais a história da tocha olímpica sugiro a leitura do excelente livro de Tony Perrottet: “The naked Olympic”.

    Lilia Schwarcz é professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças", “As barbas do imperador", “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário" e "Dicionário da escravidão e liberdade", com Flavio Gomes. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp.

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