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Coluna

Agora é que são...elas? Ou eles?

    Civilização é você poder dar umas bandas à vontade pelo wild side da sua cidade, usando e abusando da sua libido como bem entender

    Dia de luz, festa de sol, e o barquinho a deslizar, no macio azul do mar...

    A luz e o sol batem com o cenário desenhado pelo sambinha jazzístico de Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli. Meu macio azul do mar, porém, é o asfalto preto da rodovia Ayrton Senna, macio de rodar, devo reconhecer, malgrado os vinte paus e quebradinhos que deverei pagar pra transitar por ele, ida e volta, no meu barquinho de quatro rodas, velhusco, fora de linha, mas ainda operacional. E com um aparelhinho de som que toca cd's e se conecta a iPhones, smartphones, pen drives e demais badulaques digitais, no qual posso ouvir "O barquinho," clássico da bossa-nova.

    Na verdade, nem sei direito mexer no som do carro. Quem opera a trilha musical da viagem é uma das minhas filhas, a de 19 anos, que deu de se ligar em música brasileira e internacional de 50, 60 anos atrás. Na playlist do iPhone dela, além de muito samba, bossa nova e tropicália, figuram velharias roqueiras que embalaram minha juventude do final dos anos 50 em diante. Elvis ("Are you lonesome tonight"), Celly Campello ("Banho de lua"), Beatles ("I wanna hold your hand"), Stones ("Satisfaction," claro), o básico. Talvez a menina esteja fazendo uma homenagem ao paizão demodê, mas o fato é que eu já ando com calo no ouvido de tanto ter ouvido essas músicas no passado. Quando a Dora despeja um "Stairway to heaven" nos alto-falantes, rogo-lhe, com o máximo de delicadeza, que ouça suas músicas nos fones de ouvido. Ela comenta com sarcasmo minha ojeriza a ouvir música, que só tem aumentado nos últimos tempos. Diz que estou desenvolvendo um tipo de melofobia senil, no que deve ter toda razão. Lembro, todavia, da Björk dizendo, há uns 10 ou 15 anos, que o rock tinha virado piada velha. Minha filha, que não é lesa, rebate: É piada velha, but I like it.

    Ok, eu também gosto, só que não dirigindo, como fazia antes, enfiando sem parar no toca-fitas do carro os cassettes de Stones, Dylans, Beatles, Kinks, que dividiam o espaço sonoro do carro com Caetano, Chico, Gil, Gal, Ellis, João Gilberto, Paulinho da Viola, e por aí afora. Eu não rodava dois quarteirões sem ouvir música, de fita ou rádio. Agora, prefiro mil vezes o silêncio ou o que for mais próximo disso. Gosto mais é da música do vento rasgando caminho pela fresta de 4 dedos que deixo aberta na janela à minha esquerda. Meu cérebro se impacienta com a diversidade de ritmos, melodias e mensagens poéticas que se sucedem num CD ou na playlist de um dispositivo digital. Sou jogado emocionalmente de cá pra lá, duma balada romântica pruma pauleira psicotizante, com suma arbitrariedade. Help! - como acabou de bramir o John Lennon de 1964 desde o iPhone da minha querida filhota.

    Há outras pessoas no carro que querem ouvir música, então, sou voto vencido. Minha filha diz que vai botar agora uma sucessão de rocks com temática gay, que um amigo dela lhe enviou. Temática gay? Penso em perguntar à guria, que cursa o segundo ano de Letras, se ela já ouviu falar em cacófato, mas logo soam os primeiros acordes de "Get back", na voz do McCartney. Então, vamos lá. A letra começa mencionando um tal de Jo Jo que sai do Arizona pra ir à Califórnia queimar fumo. O lance gay aparece nos versos seguintes: "Sweet Loretta Martin thought she was a woman / But she was another man / All the girls around her say she's got it comin' / But she gets it while she can". A doce Loretta achava que era mulher, mas era um homem como outro qualquer. Daí... bom, daí é difícil traduzir. Tem um duplo sentido aí nesse got it comin' que tem a ver com o gozo sexual, ao mesmo tempo que se refere a qualquer coisa que está pra acontecer, provavelmente meio barra pesada .

    Na deliciosa versão ("De leve") que a Rita Lee fez pra essa música, a letra ficou assim: "Juram que viram Loretta de cueca / Dizem que nas lá do Rio". Como assim "Dizem que nas lá do Rio"? Sei lá, sei lá. Nem sempre é possível encontrar muita coerência discursiva em letras de rock. O próprio Paul McCartney disse o seguinte sobre "Get back": "Eu não tinha nenhuma pessoa particular em mente. Insisto em que era só uma personagem ficcional, meio homem, meio mulher, tudo bem ambíguo. Costumo deixar algumas coisas ambíguas, curto fazer isso nas minhas canções". Pra mim tá mais do que bom, como explicação.

    A próxima da playlist de rock com "temática gay" é o arrasador "Walk in the wild side", do Lou Reed, o grande clássico dos anos 70, gay ou não-gay.  Fala de uns carinhas que saem de suas cidades nos States pra bater calçada em Nova York, alguns travestidos de mulher. Holly, a primeira dessas figuras, sai de Miami, bota cílios postiços, raspa as pernas, e eis que "he was a she", convidando a rapaziada pra dar um rolê no "wild side", o lado doidão da vida. As outras personagens, gays, gogo-boys e travestis - um deles, tal de Candy, "never lost her head / even when she was giving head" ("nunca perdia a cabeça / mesmo quando boqueteava uma chapeleta") - também pintam e bordam nas calçadas marginais e mocós obscuros da Big Apple, fazendo sempre o mesmo convite-refrão ao ouvinte: "Take a walk on the wild side."

    Genial, genial, reconheço, quando a música termina. Por mim, dois "rocks gays" em seguida tá de bom tamanho, mas lá vem a "Lola," dos Kinks, outro hit que eu absolutamente venerava nos anos 70, sem me dar conta ainda de que a letra da música, alternando uma balada quase country com um rockão pauleira, fala de um cara que cruza com uma estranha e sedutora figura feminina num inferninho do Soho londrino, desses em que "você bebe champanhe com gosto de coca-cola". Numa "voz marrom escura" ela anuncia seu nome: "Lola". O carinha e Lola caem na dança, ocasião em que ele pode aquilatar a grande força física da sua dama: "But when she squeezed me tight she nearly broke my spine" - "Mas quando ela me deu um agarrão, quase quebrou minha espinha."

    Lola "andava como mulher mas falava feito homem", e, depois de muita pegação e biritagem, na boate e na casa dela, o eu-lírico da canção conclui que "girls will be boys, and boys will be girls / It's a mixed-up, muddled-up, shook-up world..." - algo como "Garotas serão meninos e meninos serão garotas, esse é um mundo misturado, empapuçado, piradão..."

    Pra encerrar o papo, o bardo concluiu: "Well I'm not the world's most masculine man / but I know what I am and I'm glad I'm a man / And so is Lola" - "Bom, eu não sou o cara mais masculino deste mundo / mas eu sou quem eu sou e acho bom ser homem / assim como Lola."

    Ray Davies, líder e crooner dos Kinks, jura que "Lola" foi inspirada numa história maluca sucedida com o empresário da banda inglesa, que, caindo de bêbado, certa noite, teria se metido com um traveco numa boate sem se dar conta de que "she was a he". Quando deu pela confusão, já era um pouco tarde. O cara decretou um "não tem tu, vai tu mesmo", e  mandou bala. (Ou foi mandado bala, mas essa é outra questão). A revista Rolling Stone, por outro lado, publicou, em 2004, uma matéria aventando a hipótese de "Lola" ter sido inspirada na atriz transgênere Candy Darling, com quem Davies teria tido um caso breve. A mesma Candy, aliás, citada na música de Lou Reed: "Candy came from out on the island, / in the backroom she was everybody's darling". (Candy veio de fora pra ilha / No quartinho dos fundos, ela era a queridinha de todo mundo).

    A música seguinte da playlist, "Masculine Women, Feminine Men", a mais surpreendente delas, não era um rock, e sim uma trêfega cançoneta com levada de ragtime, gravada em 1926 por um cantor secundado por uma jazz band. O fiel mister Google me informou depois que a canção foi escrita por Edgar Leslie e James V. Monaco, e gravada por Irving Kaufman. Parece que "Masculine Women, Feminine Men" fez muito sucesso naqueles "roaring twenties" nos Estados Unidos, em plena vigência da famigerada Lei Seca (1920-1933) naquele país. Apesar do moralismo protestante americano, ainda hoje fortíssimo por lá, aqueles foram tempos de muita permissividade transgenérica, com muitas boates que acolhiam hordas de cross dressers masculinos e femininos, o tipo de gente que deixaria os Boçalnaros e os Silas Malasartes da vida de pentelhos em pé de escândalo e raiva. Diz a letra alegre e burlesca da canção: "Hey Hey, women are going mad, today / Hey Hey, fellers are just as bad, I'll say / Go anywhere, just stand and stare (....) / Masculine Women, Feminine Men / which is the rooster which is the hen / It's hard to tell 'em apart today..." - Ei, ei, as mulheres de hoje em dia enlouqueceram. / Ei ei, os caras também piraram. / Vá pra qualquer parte, pare e olhe.... Mulheres masculinas, homens femininos / qual é o galo, qual a galinha / é difícil diferenciá-los hoje em dia...".

    E eis aqui mais uma estrofe, entre as muitas pérolas da letra dessa música: "You go and give your girl a kiss in the hall / But instead you find you're kissing / her brother Paul" - "Você pega e dá um beijo numa garota no salão,  / e, quando vai ver, está beijando Paul, seu irmão..." (hahah, até consegui uma rima razoável aqui.)

    O que não faz o álcool, diria alguém, mesmo sob a "Prohibition", lei imbecil que se provou incapaz de impedir que o uísque, o gin e a cerveja escorressem soltos nos speak-easy e nas baladas clandestinas transgenéricas, os "drag balls", que atraíam todo tipo de gente atrás de farra e diversão, não só os gays. Os homossexuais, aliás, tinham naqueles anos 20 de muito mais visibilidade do que nas décadas posteriores. Parece que a Grande Depressão, depois do crack da bolsa novaiorquina, em 1929, encareteou de vez o país. Aí estão o pato Donald Trump e taí o Tea Party que não me deixam mentir. E nunca é demais lembrar que, segundo relatório recente sobre homofobia elaborado pela Associação Internacional de Lésbicas, Gays, Bi, Trans e Interssexuais, a homossexualidade ainda é criminalizada em pelo menos 78 países, a maioria deles situados na África, sendo que vários se encontram na Ásia e até na América Central. E sendo que, em vários desses países - Arábia Saudita, Irã, Iêmen, Mauritânia e Sudão, além de regiões da Nigéria e da Somália - o exercício da homossexualidade é passível de pena de morte. Eita. Cadê o "mundo misturado, empapuçado, piradão" do Ray Davies?

    Não dá pra morar num país em que você não pode tomar champanhe com gosto de "côuca-côula" dançando a noite toda com uma lindamente ambígua "Lôula", sem se arriscar a ser espancado, preso ou executado. Civilização é você poder dar umas bandas à vontade pelo wild side da sua cidade, usando e abusando da sua libido como bem entender. E uma grande cidade - não necessariamente um cidade grande -, como já disse o escritor americano gay Edmund White, é um lugar com prédios altos, gays e negros nas ruas, e onde você pode ficar acordado a noite toda. O yeah.

    Reinaldo Moraes estreou na literatura em 1981 com o romance Tanto Faz (ed. Brasiliense) Em 1985 publicou o romance Abacaxi (ed. L&PM). Depois de 17 anos sem publicar nada, voltou em 2003 com o romance de aventuras Órbita dos caracóis (Companhia das Letras). Seguiram-se: Estrangeiros em casa (narrativa de viagem pela cidade de São Paulo, National Geographic Abril, 2004, com fotos de Roberto Linsker); Umidade (contos , Companhia das Letras, 2005), Barata! (novela infantil , Companhia das Letras, 2007) , Pornopopéia (romance , Objetiva, 2009) e O Cheirinho do amor (crônicas, Alfaguara, 2014). É também tradutor e roteirista de cinema e TV.

    Reinaldo Moraes estreou na literatura em 1981 com o romance Tanto Faz (ed. Brasiliense) Em 1985 publicou o romance Abacaxi (ed. L&PM). Depois de 17 anos sem publicar nada, voltou em 2003 com o romance de aventuras Órbita dos caracóis (Companhia das Letras). Seguiram-se: Estrangeiros em casa (narrativa de viagem pela cidade de São Paulo, National Geographic Abril, 2004, com fotos de Roberto Linsker); Umidade (contos , Companhia das Letras, 2005), Barata! (novela infantil , Companhia das Letras, 2007) , Pornopopéia (romance , Objetiva, 2009) e O Cheirinho do amor (crônicas, Alfaguara, 2014). É também tradutor e roteirista de cinema e TV.

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