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Coluna

Afeto e violência: sobre mães negras, amas de leite, e babás

    Num sistema que supõe a posse de uma pessoa por outra, não há como imaginar qualquer lado positivo ou redentor

    A figura da mãe negra virou tema central nas representações da escravidão produzidas no interior das sociedades escravocratas e mesmo fora delas. Em países como Cuba, Estados Unidos ou Brasil elas se converteram no lado romântico e sentimentalizado da escravidão, aparecendo de forma frequente em textos, mas também na cultura visual da época. O suposto era que, diferente da face violenta do cativeiro, elas – as amas, as nannies ou as mammies – representavam os laços de amor que uniam um senhor/a branco às suas amas de leite.

    De tão veiculada, essa imagem acabou resumindo a própria compreensão da escravidão, sobretudo aqui no Brasil. Em nosso país, com o objetivo de contrabalançar o vexame que significava manter um sistema como esse, por tanto tempo e de forma tão disseminada, buscou-se difundir uma visão positiva, como se fosse possível prever apenas uma boa e pacífica relação. No senso comum, a versão dominante explicava que, como não tínhamos fazendas reprodutoras de escravos, à maneira do Sul dos Estados Unidos (o que, diga-se de passagem, também não é verdade) poderíamos fazer jus a uma “boa escravidão”, contrastada ao modelo “mercenário” norte-americano. Também a representação das amas de leite seria utilizada nesse sentido, alinhavando mais um argumento em prol do suposto lado “benfazejo” no cativeiro africano no Brasil.

    A afirmação carece, porém, de lógica, na sua própria raiz: num sistema que supõe a posse de uma pessoa por outra, não há como imaginar qualquer lado positivo ou redentor. Criam-se sempre sociedades violentas, em que o castigo é rotina e a virulência do cotidiano corresponde à força da reação dos escravizados.

    E não é preciso olhar longe para enxergar tão perto. Há todo tipo de violência circundando a profissão das amas de leite, que virou símbolo de afeto, mas também de ambiguidade. Essa é a sensação que fica ao observarmos, sobretudo nos dias de hoje, as inúmeras fotos de mães negras, distribuídas como cartões postais, ou incluídas em álbuns de família.

     

    Em primeiro lugar, na maior parte das fotos de amas, enquanto o pequeno senhor/a têm nome e sobrenome, a mãe negra é apenas descrita por sua função. Ou melhor, o lugar corresponde a seu nome; o anonimato é sua condição. Em segundo, é fácil notar como toda a situação que envolve esses documentos é em si constrangedora. As roupas são emprestadas; muitas vezes os adereços também.

    Além do mais, sabe-se que muitas dessas fotos vinham dos tempos do daguerreótipo, quando era preciso garantir a ausência de qualquer movimento, por cerca de 20 minutos, para que a obra saísse a contento. Por isso, as mães negras seguram forte seus amos crianças, como forma de garantir que as fotos não fiquem tremidas e assim rasuradas. Há também que lembrar quem deveria estar bem à frente dos modelos: justamente os senhores, os proprietários da escrava, que haviam pago por essas imagens e exigiam bom resultado.

    Por fim, há uma grande ausência nessas fotos: a filha ou filho da ama de leite, que deixava muitas vezes de ser amamentado, para que o senhor branco recebesse o provimento dos seios das escravizadas. Não penso que inexistisse afeto entre as amas de leite e seus pequenos senhores ou senhoras. Apenas que havia amor e constrangimentos; afeto e violência.

    Foto: F. Villela/Acervo Fundação Joaquim Nabuco / Ministério da Educação
    Augusto Gomes Leal com sua ama-de-leite Monica. 1860.
     

    Nada como analisar um exemplo, dentre uma galeria de imagens de amas negras, amas de leite, mães escravas que, de tão veiculadas, viraram “convenção imagética”. A foto de João Ferreira Villela tem como título: “Augusto Gomes Leal com sua ama de leite Monica”. Conhecemos, pois, o nome e sobrenome da criança. Já de sua ama, sabemos apenas que se chama Monica; e ter o primeiro nome grafado já é, em si, uma sonora exceção. A foto data de 1860, e deve ter levado quase meia hora para que o profissional desse por encerrado seu trabalho. Augusto Gomes apoia-se com carinho nos ombros de Monica, mas também segura forte sua mão, na mão dela: confiava na ama, mas também sabia que não podia deixar seu lugar. Já Monica crispa a mão direita, denotando a força que fazia para sustentá-lo. Ambos estão ricamente vestidos. Ele como um pequeno adulto; ela como se fosse uma senhora, apenas com o colo negro à mostra. Os dois encaram o fotógrafo, respondendo, com certeza, à demanda do profissional. A face é também rija, pois um sorriso maior poderia fazer deles meros “fantasmas”. A mágica da  fotografia só funcionava com a absoluta imobilidade.

    O historiador Luiz Felipe de Alencastro escreveu que “o Brasil inteiro cabe nessa foto”. E cabe. Pois ela diz muito da ambivalência dessas relações que contêm de tudo um pouco: brutalidade e maternidade; afeto e arbítrio.

    Talvez por isso, e por conta da força e do enraizamento que o sistema escravocrata logrou obter entre nós, ela se converteu em símbolo maior. Símbolo cruzado. Tanto que as profissionais que trabalham nessa área, mesmo hoje em dia, apesar de terem seus direitos trabalhistas garantidos, ainda padecem com a mistura porosa entre esferas públicas e privadas. Usam como uniforme uma cor que é igualmente ambivalente em relação à profissão: o branco que indica pureza, limpeza, asseio, mas também invisibilidade social.

    História é mudança e continuidade; ou melhor, mudança na continuidade. A profissão das babás, que não levam mais o nome de amas, esteve mais uma vez em pauta nessa agenda nervosa do Brasil da nossa contemporaneidade. Se sua vigência é hoje legalizada, sua rotinização ainda causa mal-estar, pois lembra nosso passado recente. Aquele das nossas amas de leite, que eram obrigadas a carregar o doce do afeto com o amargo da escravidão.

    Lilia Moritz Schwarcz é professora da USP e Global Scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças", “As barbas do imperador", “O sol do Brasil" e “Brasil: uma biografia”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil” e “Histórias Mestiças”. Atualmente é curadora adjunta do Masp.

    Lilia Schwarcz é professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças", “As barbas do imperador", “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário" e "Dicionário da escravidão e liberdade", com Flavio Gomes. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp.

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