Estado e mercado não são alternativas excludentes. São duas dimensões inevitáveis na vida de qualquer país. E precisam aprender a trabalhar juntos

Se um extraterrestre aterrizasse hoje de manhã nesta combalida Terra, e se pusesse a ler os jornais impressos e digitais e a conversar com as lideranças políticas e com os especialistas, talvez chegasse à conclusão de que o assunto mais importante do mundo é o combate entre a esquerda e a direita. Que nada é mais relevante do que escolher entre o Estado e o mercado, com metade da humanidade sempre defendendo uma coisa, metade defendendo o contrário, e essa diferença de opinião rachando todas as sociedades ao meio.

E, no entanto, se esse mesmo extraterrestre, em vez de gastar seu tempo com jornais e especialistas, viajasse pelos países do mundo real, vivendo o dia a dia das pessoas reais, lidando com problemas reais, talvez ele tivesse dificuldade de entender por que esse debate é tão importante. Afinal, não há nenhum país no mundo que prescinda de um mercado: nem no mais ferrenho comunismo deixou de operar alguma iniciativa privada, ainda que clandestina. E nem o mais americano liberalismo abriu mão de estruturas governamentais capazes de prover infraestrutura básica para o país viver.

Os Estados Unidos, aliás, provêm educação pública gratuita para nada menos do que 92% de suas crianças. Um número não muito distante do da comunista China, onde 94% das pessoas vão para escola primária do Estado. Alemanha, Suíça, Canadá, Coreia, Suíça, Finlândia: grande parte dos países que mais se desenvolveram no mundo oferecem escola básica grátis para praticamente a totalidade de seus cidadãos. São bem raras as nações mais ou menos decentes onde não haja educação pública para a maioria (ou educação privada financiada com dinheiro público, por meio de um voucher que o cidadão recebe).

Fácil de entender isso. Não se trata de assistencialismo, mas de investimento no capital mais valioso de qualquer nação: o humano. Num país onde só quem pode pagar caro tem acesso a ensino minimamente decente, talentos são desperdiçados, os filhos dos ricos ficam com todas as oportunidades, as empresas têm dificuldade de contratar gente qualificada e a tal “livre concorrência”, tão louvada pelo pensamento liberal, desaparece. Afinal, ela só funciona quando se compete em condições justas.

Fundamental é trabalhar todos os dias, para que todas as organizações, privadas ou estatais, funcionem melhor, diante das ameaças gigantescas às nossas portas

Verdade que o ambiente privado costuma ser mais propício à inovação e mais consciente dos custos das coisas. Mas mercados sem regra nenhuma rapidamente descambam para o monopólio e para corporações gigantes que fazem o que querem sem prestar contas a ninguém. Grandes corporações no mundo todo sofrem das mesmas doenças que acometem governos grandes: ineficiência, preguiça de mudar, descontrole de custos, aversão ao risco, desprezo pelo interesse público. Elas também muito frequentemente se transformam em entraves para a inovação, porque se apegam à propriedade intelectual e não permitem colaborações que poderiam aumentar muito o impacto do que fazem.

Quem já foi torturado pelo sistema automático de atendimento do telemarketing de alguma gigante privada sabe bem que não é assim tão mais gostoso do que ser torturado pelo sistema de senhas e filas nas salas de espera das repartições públicas. Estão aí dois exemplos de suplícios frequentes na vida de qualquer brasileiro, seja ele de direita ou de esquerda.

No entanto, há também pelo mundo numerosos bons exemplos: repartições eficientes, empresas atenciosas, funcionários públicos ou privados motivados, interessados, inovadores, abertos, servidores. Na Escandinávia, que todos os rankings de melhores lugares para se viver colocam no topo, um Estado vasto mas frugal, que não desperdiça dinheiro público, convive com um mercado consciente, que não engana seu público. Não que na Suécia ou na Dinamarca não haja disputa política entre a esquerda e a direita. Há, claro que há. Mas é uma disputa produtiva, com um lado e outro vigiando tanto o Estado quanto o mercado, e colaborando entre si no que importa.

A imagem que me vem à cabeça é velha e surrada, mas me parece precisa: os sábios teólogos que comandavam o Império Bizantino nos idos do século 15, e que travavam longas e profundas discussões sobre se os anjos tinham ou não genitais, enquanto dezenas de milhares de soldados turcos otomanos cercavam Constantinopla. Não estou aqui negando que haja diferenças entre esquerda e direita, ou entre mercado e estado – claro que há (assim como obviamente para um cristão devoto fazia bastante diferença saber se passaria a eternidade cercado de querubins balançando suas partes privadas ou não). Mas não é a questão fundamental. Fundamental é trabalhar todos os dias, para que todas as organizações, privadas ou estatais, funcionem melhor, diante das ameaças gigantescas às nossas portas.

No fundo não são nem os governos nem as empresas que importam: são as pessoas. Num mundo onde governos ou corporações têm poder demais, sem algo contrabalançando, as pessoas sofrem. Sociedades inovadoras não são aquelas 100% estatais ou 100% privadas, até porque isso não existe: são aquelas mais capazes de criar colaborações que contemplem o interesse de todo mundo. O escritor americano Steven Johnson, no seu livro “De Onde Vêm as Boas Ideias”, pesquisou uma lista das 200 principais invenções desde o século 15. O que ele descobriu é que quase 80% delas não são mérito nem de um governo nem de uma empresa, mas de vastas redes que conectam pessoas dentro dos mercados e fora deles.

Nossa sociedade enfrenta uma crise sem precedentes, e só há solução possível para ela se conseguirmos construir redes diversas de colaboração. Em vez disso, passamos os dias discutindo se o sexo dos anjos se inclina para a direita ou para a esquerda, e votamos em políticos que concordam com essa nossa opinião, mas agem contra nós em todo o resto.

Denis R. Burgierman  é jornalista e escreveu livros como “O Fim da Guerra”, sobre políticas de drogas, e “Piratas no Fim do Mundo”, sobre a caça às baleias na Antártica. Foi diretor de redação de revistas como “Superinteressante” e “Vida Simples”, comandou a curadoria do TEDxAmazônia, e fez parte do time que criou o Greg News, primeiro comedy news da TV brasileira.
Escreve quinzenalmente, às quintas-feiras.

 

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