Coluna

A castidade ao alcance de todos

    Quando se fala em sexo, são os órgãos sexuais que, em geral, recebem toda a luz dos holofodes. Digo, fotes.

    Sexo, de um modo geral, é um negócio engraçado. E os órgãos sexuais podem ser negócios engraçadíssimos. Ou trágicos. Engraçados ou trágicos, a verdade é que pênis, vagina, ânus, peitos, boca et allia estão entre os órgãos e detalhes anatômicos que costumam se deleitar, e também padecer, com as decisões tomadas pela cabeça da pessoa — a de cima — embora todos saibamos que eles são apenas os executantes das ordens mentais provindas da nebulosa libido, essa cabrita desgovernada.

    Acabo de ler aqui que uns cientistas franceses identificaram a região do cérebro humano que exerce papel dominante na excitação sexual. É um tal de claustro, uma região do lobo temporal ainda pouco estudada. Claustro é um nome em si excitante, remetendo ao setor do convento em que religiosos ficam confinados, sejam padres ou freiras — ou ambos, na calada da noite. De Aretino a Carlos Zéfiro, há muita literatura erótica, de alta, média e baixa qualidade, com tramas ambientadas nas alcovas abafadas dos claustros, à luz de velas bruxuleantes. Imagine você ter um claustro desses dentro da sua cabeça, que já é, em si, um claustro ósseo onde a mioleira doida se abriga. Puro Marquês de Sade.

    Mas, quando se fala em sexo, são os órgãos sexuais que, em geral, recebem toda a luz dos holofodes. Digo, fotes. Ou seja, o claustro da pessoa bola todo tipo de estripulias sexuais, e quem leva a culpa é um pênis distraído, uma inocente vagina ou, subsidiariamente, uma boca, um ânus etc. É muito comum, entre homens, sobretudo, tentar resolver seus perrengues sexuais agindo diretamente sobre os órgãos executores das ordens advindas do diabólico claustro. Gente da minha geração, ou seja, nascida depois do gabinete Cotegipe, no apagar das luzes do Segundo Império, lembra-se do popularesco e divertido jornal Notícias Populares, que estampou numa de suas edições a famosa manchete "Broxa torra pênis na tomada". A notícia dava conta de um homem impotente que, em desespero de causa, enrolou um fio elétrico descapado em seu pênis e meteu o plug na tomada. O idiota morreu com o pênis torrado, mas ainda em estado de repouso. Nem com tal sacrifício extremo o sujeito conseguiu uma ereção, trágica ironia. Ele devia é ter dado um choque no claustro dentro da cabeça dele, e não em pinto, um mero ajudante de ordens.

    PARA CONTINUAR LENDO,
    TORNE-SE UM ASSINANTE

    Tenha acesso ilimitado e apoie o jornalismo independente de qualidade

    VOCÊ PODE CANCELAR QUANDO QUISER
    SEM DIFICULDADES

    Já é assinante, entre aqui

    Reinaldo Moraes estreou na literatura em 1981 com o romance Tanto Faz (ed. Brasiliense) Em 1985 publicou o romance Abacaxi (ed. L&PM). Depois de 17 anos sem publicar nada, voltou em 2003 com o romance de aventuras Órbita dos caracóis (Companhia das Letras). Seguiram-se: Estrangeiros em casa (narrativa de viagem pela cidade de São Paulo, National Geographic Abril, 2004, com fotos de Roberto Linsker); Umidade (contos , Companhia das Letras, 2005), Barata! (novela infantil , Companhia das Letras, 2007) , Pornopopéia (romance , Objetiva, 2009) e O Cheirinho do amor (crônicas, Alfaguara, 2014). É também tradutor e roteirista de cinema e TV.

    Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.